A bomba que foi sem nunca ter sido

Resenha
2 mai 2019
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capa de Imaginary Weapons

Um único paper, descrevendo resultados duvidosos de um experimento conduzido com equipamento inadequado, num laboratório improvisado, deu origem a uma corrida maluca por uma arma impossível, que consumiu milhões de dólares e envolveu os altos escalões do Pentágono e da pesquisa em Física Nuclear nos Estados Unidos. Esta é, em resumo, a história contada no livro “Imaginary Weapons”, da jornalista americana Sharon Weinberger.

A história gira em torno da busca pela “bomba de háfnio”, uma arma capaz de liberar energia comparável à de uma explosão atômica, mas baseada em um tipo de reação nuclear diferente da fusão e da fissão, que são os mecanismos que detonam as armas nucleares comuns. Com isso, a bomba, caso fosse viável, entraria numa espécie de vácuo legal no que se refere à proliferação de armas de destruição em massa.

Em princípio, escreve Weinberger, a ideia de que uma arma assim seria possível não é absurda. E em 1999, o prestigiado periódico Physical Review Letters publicou um artigo de autoria da equipe do americano Carl Collins afirmando ter conseguido “desencadear” a emissão de energia por núcleos atômicos do elemento háfnio, bombardeando-os com raios-X emitidos por um equipamento de radiografia odontológica.

“Imaginary Weapons” traça os rumos – às vezes paralelos, às vezes em interseções dolorosas, cômicas ou embaraçosas – de dois grupos, um de cientistas ligados a Collins, políticos e militares imbuídos de uma fé inabalável no resultado publicado e na importância da reação do háfnio como arma e fonte alternativa de energia; o outro, de cientistas incapazes de reproduzir os resultados apresentados, mesmo com equipamentos melhores e mais sensíveis, ou com sérias dúvidas sobre as bases teóricas e a qualidade técnica  do trabalho. 

Weinberger repara que a situação se assemelha, de várias formas, ao fiasco da fusão a frio, mas de modo mais agudo, por envolver interesses bélicos, de espionagem, potenciais segredos de Estado e orçamentos gigantescos. 

Para o leitor brasileiro, os paralelos com o caso, de memória recente, da fosfoetanolamina sintética são mais do que evidentes: as hipérboles dos defensores de Collins e de seus colaboradores, “indicados para o Nobel”; comparações com gênios incompreendidos ou perseguidos do passado; as críticas ácidas aos cientistas independentes encarregados de reproduzir e testar os resultados, tratados pelos propositores da “inovação” como venais ou incompetentes; a mudança contínua nos critérios de avaliação – cada vez que um experimento novo mostrava que a publicação original era insustentável, os critérios de avaliação eram alterados.

Também são velhos conhecidos os apelos à “mente aberta”, os ataques à suposta inflexibilidade da “ortodoxia” científica e as insinuações a respeito de interesses escusos por trás das críticas. A insistência por mais verbas, mais tempo, mesmo após incontáveis fracassos, para testar “mais uma vez” – ou a alegação de que a ideia nunca havia sido “realmente”, ou “corretamente”, testada.

Se Carl Collins é o protagonista do livro, o físico Peter Zimmerman, que trabalhou no Departamento de Estado do governo americano até 2001, é um dos principais antagonistas.  O papel de Zimmerman, um cientista empregado num setor do governo envolvido com planejamento estratégico e relações internacionais, era atuar como consultor em questões de desarmamento nuclear e também evitar que o poderio norte-americano fosse minado por alguma “surpresa tecnológica” – uma nova arma ou tecnologia que surgisse pegando os EUA desprevenidos.

Durante uma reunião da Sociedade de Física dos Estados Unidos em 1999, Zimmerman fez um discurso a respeito do tipo de propostas de pesquisa e investimento em pesquisa sobre possíveis “surpresas tecnológicas” que passavam por sua mesa no governo e, na síntese de Weinberger, a mensagem para os colegas físicos era: “tenham muito medo”. 

Referindo-se a projetos envolvendo fusão a frio, energia infinita do vácuo e tecnologia “alienígena” que começavam a ser levados a sério em altos escalões da administração federal, disse:

“Assistimos a bobagens desse tipo, temos muito poucas defesas e, em nosso papel de cientistas, geralmente não fazemos merda nenhuma para impedi-las”. Ele então anunciou que estava lançando um projeto para juntar informação sobre “lixo científico” financiado com verbas federais. “Vamos parar esse negócio de qualquer modo que pudermos”.

Quando “Imaginary Weapons” foi finalmente publicado, em 2006, a bomba de háfnio parecia finalmente ter sido relegada à pilha de ideias ruins abandonadas. A autora nota, no entanto, que a pesquisa fundamental em isômeros nucleares – uma área legítima da física, da qual o plano da bomba de háfnio representa uma linha divergente – acabou sofrendo por associação.

E a plataforma de Zimmerman (que atualmente é professor emérito de uma universidade inglesa), de acabar com o financiamento público de nonsense científico, também não parece ter avançado tanto quanto ele gostaria: em tempos recentes, o New York Times noticiou a existência de um programa no Pentágono sobre “tecnologia alienígena”, que existiu até 2012. 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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