A comunicação que ainda precisa comunicar

Resenha
22 nov 2018
Autor

capa do livro Vacinas no Banco dos RéusNum momento em que um número cada vez maior de cidadãos parece ignorar os enormes benefícios trazidos pela vacinação infantil, o lançamento de um livro curto, objetivo e esclarecedor sobre o assunto deveria ser motivo de comemoração. Ainda mais, se o autor for um cientista brasileiro. A Vacina no Banco dos Réus é este motivo para celebrar– mas poderia ser muito mais.

O autor é o biólogo e bioquímico fluminense Carlos Henrique Dumard – um cientista jovem, nascido em 1983, e o livro exemplifica bem o caráter de abnegação e empenho pessoal, marca da maioria dos projetos de divulgação científica tocados por cientistas no Brasil.

A despeito do discurso simpático de algumas instâncias administrativas, na prática o ambiente acadêmico brasileiro ainda é, se não abertamente hostil, pelo menos frio e indiferente à atividade de popularização do conhecimento científico, que muitas vezes acaba sendo tratada com condescendência, menosprezada como uma espécie de favor prestado aos “leigos” – pérolas aos porcos, por assim dizer – , ou como um passatempo que distrai o pesquisador de tarefas mais “nobres”.

Diante desse cenário, chama atenção o fato de a obra ter sido publicada pela AllPrint, uma casa editorial que lança títulos financiados pelos próprios autores: longe de ser um demérito, isso representa mais um sinal do empenho de Dumard em pôr seu conhecimento especializado ao alcance da população.

Em pouco mais de cem páginas, o livro cobre a história da descoberta do processo de vacinação, os mecanismos imunológicos responsáveis pela eficácia das vacinas, o modo como as vacinas são produzidas, questões de segurança, risco e chega, até mesmo, a tratar das tecnologias de ponta na área de imunização.

No entanto, o aproveitamento do conteúdo é prejudicado por uma apresentação atabalhoada e inconsistente. Comunicação científica, afinal, envolve não apenas a correção e precisão do conteúdo, mas também a preocupação de moldar a linguagem, a abordagem e a forma de modo a traduzir o material para o público não-especializado de maneira eficiente.

A Vacina no Banco dos Réus se esforça nesse sentido – mas não se pode dizer que o esforço tenha sido realmente bem-sucedido.

De início, o livro se lança num trabalho interessante e, em princípio, elogiável de construir uma espécie de  glossário a conta-gotas, mostrando, página a página, em blocos de texto à parte, a definição de termos técnicos, provavelmente desconhecidos do público em geral, que aparecem ali.

Mas esse glossário ora desaparece, ora retorna, sem constância ou consistência. Num dado momento, as ressalvas explicativas simplesmente somem, e o leitor desavisado – que pode ser um engenheiro civil, um sem-terra, um publicitário ou um estudante do ensino médio, por exemplo – é abandonado à deriva em meio a expressões como “epítopo”, “fitness”, “polissacarídeos”, “soroconvertidos”, entre outras.

A estrutura da obra também não ajuda. Os capítulos iniciais, sobre a história das vacinas, lançam mão de conceitos de genética e biologia que só virão a ser esclarecidos em capítulos específicos sobre imunologia, mais à frente. O recurso de pedir uma ou duas vezes ao leitor que tenha paciência e aguarde detalhes que surgirão lá adiante tem um certo charme, e pode ajudar a criar um maior envolvimento com a leitura, tanto pelo suspense como pelo senso de entusiasmo – transmitindo a sensação de o que o autor está contando agora é tão empolgante que não pode ser interrompido por explicações! Mas é uma fórmula que requer um toque delicado para funcionar, e  A Vacina no Banco dos Réus erra na dose.

Os capítulos técnicos, por sua vez, pecam por excesso de detalhes, apresentados de forma confusa. Exemplo de excesso: não parece claro que o público em geral, esperando receber uma visão panorâmica de como funciona a resposta imune, ganhe algo de substantivo ao ser informado de que os linfócitos TCD4+ também são chamados de “linfócitos T auxiliares”.

A Vacina no Banco dos Réus tem alguns grandes momentos, como quando o autor se põe a explicar a razão de estudos clínicos envolverem grupos de controle. O processo de atenuação dos agentes patogênicos e a diferença entre percepção de risco e risco real também são tratados de modo claro, objetivo e esclarecedor. Mas esses momentos excelência fazem parte de uma obra que, no geral, apresenta diversos vícios exemplares da comunicação, feita por cientistas inexperientes no trato com o público e bem-intencionados, “para os leigos”.

A existência desses vícios e, mesmo, seu estudo não são novidade. Ainda na década de 80 do século passado, escrevendo sobre a percepção do público a respeito dos riscos trazidos pelo avanço tecnológico, Baruch Fischhoff e colegas notavam que o que os cientistas imaginavam ser as crenças e medos do público tinha pouca base empírica, o que levava a uma comunicação apoiada em pressupostos falsos.

Em 2013, o mesmo Fischhoff escrevia a introdução de um colóquio realizado pelo periódico PNAS sobre a “ciência da comunicação de ciência”, e apontava que “os modos especiais de olhar para o mundo que fazem dos cientistas fontes indispensáveis de informação também os afastam dos não cientistas”.

O mesmo PNAS publicou o artigo “Assessing what to address in science communication” (“Avaliando do que tratar na comunicação científica”), em que os autores, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, já apontavam que “especialistas em diferentes campos tendem a não ter uma boa intuição sobre aquilo em que os não especialistas acreditam, e o que os não especialistas realmente precisam saber para tomar decisões informadas”.

E, mais adiante: “os especialistas podem apresentar informações desnecessariamente complexas e usar um jargão que é desconhecido pelo público, ou que o público compreende de forma diversa”.

Outro alerta: “falhas de comunicação podem ocorrer quando os especialistas tomam a si mesmos como modelos da audiência, e apresentam a informação que eles mesmos consideram mais interessante ou importante”, uma estratégia que funciona bem na comunicação com os pares, mas que pode não funcionar diante de um público leigo.

O artigo recomenda que “os materiais de comunicação devem ser baseados em evidências sobre quais as crenças relevantes que os membros da audiência já têm, e o que lhes falta”.

Boa parte dessas advertências pode ser aplicada a A Vacina no Banco dos Réus, desde a apresentação de informações com um grau desnecessariamente alto de detalhamento à confusão entre o que entusiasma o autor e o que é relevante para o público , e à finalidade da obra.

Não há no livro, por exemplo, uma única palavra sobre conservantes – sendo que a preocupação espúria com o uso de um conservante à base de mercúrio, em certas vacinas, é uma das principais causas documentadas para a rejeição às imunizações.

Esses pontos salientes não são exclusividade do livro de Carlos Henrique Dumard. São questões que afetam muito do esforço de comunicação com a sociedade empreendido por pesquisadores e cientistas em todo o mundo.

 


Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

 

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