Eliminar “99,9% das bactérias” é uma boa ideia?

Questionador questionado
3 nov 2020
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sabão

 

Quantas bactérias, fungos e vírus você gostaria que habitassem o seu corpo nesse exato momento? Para muitos, a resposta é um grande e redondo zero. Afinal, após meses de pandemia, grande parte da população está descobrindo o estrago que um único ser microscópico pode fazer. Será melhor, então, usar um desses sabonetes que prometem matar 99,9% dos germes? A resposta é um enfático não. Para entender o porquê, precisamos olhar com mais cuidado para os microrganismos que vivem no nosso corpo.

É normal para o ser humano ter o corpo colonizado por microrganismos. Você não está sujo ou contaminado. Todo ser vivo do planeta vive em associação com comunidades muito diversas de micróbios. No caso de animais complexos como os humanos, os cientistas chamam essas comunidades de microrganismos residentes de microbioma.

Estimativas recentes mostram que para cada célula humana há cerca de duas células microbianas vivendo no nosso corpo, e isso sem contar os vírus. Sim, no seu corpo há duas vezes mais células de fungos ou bactérias do que células de você mesmo. E tudo bem! De maneira geral, o microbioma traz muitos benefícios para a saúde. Nossos microrganismos nos ajudam a digerir alimentos, protegem-nos de infecções causadas por microrganismos invasores, estimulam o sistema imune, produzem vitaminas e outros compostos essenciais para a saúde. Podem até afetar o sistema nervoso central e influenciar o humor e o processo de tomada de decisões.

Nosso primeiro grande contato com microrganismos ocorre no nascimento. Quando nascemos por parto vaginal, encontramos os microrganismos que habitam o canal vaginal. Já em cesáreas, os bebês têm seu primeiro contato com os microrganismos presentes no ambiente do hospital e na pele dos profissionais de saúde.

 

Saúde

Uma menor diversidade de espécies bacterianas no intestino nos torna mais suscetíveis a doenças. O termo “disbiose” é usado para apontar um desequilíbrio nesta diversidade, e pode algumas vezes levar a doenças como a síndrome do intestino irritável, ou abrir caminho para colites ulcerativas causadas por bactérias oportunistas. O abuso de antibióticos, aliás, pode inclusive contribuir para uma disbiose. Quando usamos muitos antibióticos, seguidamente, acabamos matando nossa microbiota residente, abrindo espaço para esse desequilíbrio.

Tão grande é a importância do microbioma que cientistas acreditam que, sem esses microrganismos, não sobreviveríamos. Para ter certeza, precisamos estudar um ser humano sem microbiota, um tipo de garoto da bolha, isolado do mundo em um ambiente estéril. Obviamente esse é um experimento inviável para fazer em humanos. Animais que não têm microbioma, no entanto, são conhecidos dos cientistas há décadas. Esses animais são chamados de germ-free (livres de germes ou “axênicos”, em português). São mantidos em um ambiente estéril e isolado do mundo.

Pesquisas mostram que esses animais possuem muitas deficiências em relação aos animais colonizados por microrganismos. Os animais axênicos são mais magros, mesmo sendo alimentados com uma dieta mais calórica que os normais. O sistema imune é mais frágil e suscetível a doenças autoimunes, assim como a bactérias e vírus patogênicos. Também apresentam vários defeitos de desenvolvimento, nos ossos, nas mucosas do intestino e até no sistema nervoso central. Muitos desses problemas se resolvem quando permitimos que os animais axênicos entrem em contato com um animal normal e sejam “contaminados” pelo microbioma do colega.

 

O sabonete

A pele é o órgão que recobre o corpo e tem função protetora e sensorial. Um ser humano adulto tem uma área de aproximadamente 2 m2 de pele, e toda essa extensão é habitada por microrganismos. Existem múltiplos habitats na pele, desde planícies secas, como o antebraço, até os pântanos úmidos das axilas.

A quantidade de microrganismos na pele vai variar de acordo com a região, e pode ser influenciada por diversos fatores como umidade, disponibilidade de nutrientes, densidade de glândulas e de pelos. A estimativa atual do número de microrganismos habitando a pele humana é de 100 trilhões de células por metro quadrado. Um sabonete antibacteriano que mate 99,9% das bactérias da pele ainda vai deixar 100 milhões de bactérias vivas. Com a velocidade que esses microrganismos se dividem, em menos de uma hora a população volta ao tamanho original. Quanto aos vírus, ninguém sabe exatamente quantos estão presentes na pele, e tampouco os testes de laboratório disponíveis conseguem avaliar o efeito desses sabonetes na viabilidade dos vírus.

Mais importante do que o número é a identidade dos microrganismos que vivem na pele. Um microbioma saudável é composto por muitas espécies diferentes de microrganismos, mas em geral as bactérias são mais abundantes e diversas. O equilíbrio entre essas espécies é essencial para a saúde, e muitas bactérias são hóspedes muito bem-vindos, enquanto outras são indesejáveis. Algumas espécies são patogênicas, e podem causar problemas de saúde, leves ou graves. Muitas resistem a diferentes tipos de antibióticos.

Para manter bactérias patogênicas sob controle, o corpo emprega muitas estratégias. Uma das mais eficazes é a competição entre as espécies bem-vindas da microbiota e bactérias “de fora”. Nossas bactérias residentes não querem perder espaço para as invasoras. Um sabonete antibacteriano que mata bactérias indiscriminadamente e destrói a microbiota, portanto, elimina defesas naturais da pele e facilita a vida das bactérias invasoras..

Um antibiótico ou um sabonete antibacteriano não conseguem distinguir quais são as bactérias benéficas e as bactérias que causam doenças, todas serão igualmente destruídas. O resultado é que muitas vezes a emenda sai pior que o soneto. Por isso, o uso de antibióticos e substâncias antibacterianas deve sempre ser supervisionado por um profissional médico.

Antibióticos em si não são um problema, mas sim o seu uso exagerado. Muitos autores acreditam que o uso corriqueiro de antimicrobianos na clínica médica tem contribuído para aumentar a resistência a antibióticos nos microrganismos em geral e para diminuir a diversidade das espécies que vivem no corpo humano. Mas não podemos esquecer que muitas substâncias antimicrobianas também podem ser encontradas em produtos do dia a dia, como shampoos e sabonetes, e também são usadas na criação de animais para o consumo humano.

Esses produtos antimicrobianos também são despejados no meio ambiente por meio de dejetos sanitários, onde podem entrar em contato com bactérias ambientais e da microbiota de animais selvagens. Essas bactérias podem desenvolver o que os cientistas chamam de resistência cruzada, ou seja, ao se defenderem de um tipo de molécula, acabam se tornando mais resistentes a outros antimicrobianos. Isso acontece quando o mecanismo molecular de resistência é similar para as duas moléculas. É como se a bactéria adquirisse um canivete suíço com múltiplas funções.

Uma das substâncias antibacterianas mais popularmente encontradas em produtos para o consumidor é o triclosan, que tem o nome químico de 5-cloro-2-(2,4-diclorofenoxi) fenol. O triclosan é um agente antimicrobiano de amplo espectro e desde a sua descobertas foi considerado seguro para uso em humanos. A indústria rapidamente incorporou o triclosan em muitos produtos de higiene pessoal, incluindo sabonetes, desodorantes, géis de banho, enxaguantes bucais e pastas de dente.

No entanto, além de não existirem provas de que o triclosan traz mais benefícios do que um sabonete comum, o produto é justamente um desses antimicrobianos que podem desencadear a seleção de bactérias resistentes a si mesmo, e a outros antibióticos, pelo mecanismo de resistência cruzada. O triclosan foi banido nos EUA em 2016.

Mesmo sabendo de todos esses problemas, vale a pena usar sabonetes antibacterianos? Essa resposta é um pouco mais complexa porque, em certas situações, realmente é necessária uma assepsia mais rigorosa da pele, como no caso de preparação de um paciente para uma cirurgia. Já para o banho do nosso dia a dia, o uso de sabonetes antibacterianos não traz benefícios. Além disso, o uso de produtos antissépticos no dia a dia não é recomendado, justamente porque, além de eliminar as bactérias forasteiras que podem fazer mal, eliminam as residentes. E já vimos que isso abre caminho para as patogênicas se instalarem.

Qualquer sabonete comum já faz o necessário para a limpeza do dia a dia. O sabão comum já ataca as membranas dos microrganismos, causando sua ruptura e morte.

Para conseguir uma limpeza efetiva, o tempo que gastamos lavando as mãos é muito mais importante do que a composição do sabonete. Esfregar as mãos com sabonete normal por 15 segundos basta para reduzir o número de bactérias em 90%. Adicione mais 15 segundos e esse número sobe para 99,9%, exatamente o mesmo que prometem os sabonetes antibacterianos, com a vantagem de eliminar mais bactérias estranhas do que as residentes, e não causar problemas de resistência.

Além disso, o preço dos sabonetes normais costuma ser menor do que o dos antibacterianos. Então, não se preocupe com a composição do seu sabão, mas lembre-se de esfregar as mãos por 30 segundos. Para cronometrar, cante “Parabéns a Você” duas vezes enquanto lava as mãos. Seu bolso vai agradecer.

 

Leandro Lobo é microbiologista, professor do Instituto de Microbiologia (Paulo de Góes) da UFRJ e produtor e apresentador do Podcast Microbiando

Natalia Pasternak é microbiologista, pesquisadora associada do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência, membro do Committee for Skeptical Inquiry e colunista do Jornal O Globo

 

 

REFERÊNCIAS

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4991899/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21407241/

https://www.nature.com/articles/nrmicro.2017.157

 

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