Por que cientistas desconfiam dos conhecimentos tradicionais?

22 abr 2019
Questionador questionado
Autor
Cláudio Galeno dissecando um macaco, em pintura portuguesa de 1906
Cláudio Galeno dissecando um macaco, em pintura portuguesa de 1906

Existe essa ideia, muito comum, de que a ciência é arrogante e despreza a sabedoria que vem do povo, ou de culturas antigas e tradicionais. Não dá para negar, claro, que existe gente metida a besta trabalhando com ciência – mas, até aí, tem gente metida até no botequim da esquina. A questão com os cientistas é que eles são treinados para desconfiar de tudo que se apresenta como “conhecimento” – seja tradicional ou não.

Por exemplo: novos medicamentos, criados em laboratório, precisam passar por testes de segurança e eficácia. Uma série de procedimentos científicos que busca garantir – dentro das margens de incerteza inerentes a toda e qualquer atividade humana – que esses produtos realmente fazem o bem que se espera deles e que, ao fim e ao cabo, não fazem mais mal do que bem.

Teses assim são importantes porque a intuição humana, sem a ajuda de alguma disciplina crítica e de uma boa dose de matemática, é bem ruim para decidir questões de causa e efeito onde fatores como imediatismo (a causa se segue ao efeito quase no mesmo instante), proporcionalidade (causa e efeito têm magnitudes muito próximas) e excepcionalidade (a causa é muito incomum e o efeito, também) estão ausentes.

Mesmo a presença desses fatores pode, não raro, induzir ao erro. Filósofos e cientistas, de Francis Bacon, no Renascimento, ao nobelista de Física Richard Feynman, no século 20, sempre chamaram atenção para o fato de que a pessoa que cada um de nós consegue enganar com mais facilidade é a si mesmo.

Existe um argumento, que emerge com razoável frequência, de que esses testes de segurança e eficácia são necessários apenas para novos medicamentos: que remédios e práticas terapêuticas tradicionais – que já são parte da cultura de uma comunidade, povo ou nação – deveriam ser isentos desse tipo de exigência, porque já passaram pelo “teste do tempo”.

Não parece haver, no entanto, consenso a respeito de quanto de tempo é necessário para referendar o tal “teste do tempo”: algumas ervas chinesas são usadas há milênios, a homeopatia tem  200 anos, os florais de Bach, menos de 100 e a fosfoetanolamina sintética, que alguns médicos, juízes e políticos consideraram “segura” o suficiente para ser distribuída livremente, sem a necessidade de estudos adequados – por causa do “uso tradicional” somado ao “clamor popular”— começou a circular há apenas duas décadas.

Lógica importa

Para além do caráter nebuloso e indefinido do que seria um período razoável de “uso tradicional”, a história da medicina está repleta de tratamentos que foram validados pela tradição apenas para se provarem inúteis – ou mesmo letais – sob um olhar mais sóbrio e cientificamente engajado.

Sangrias – que reinaram por quase 3 mil anos, até serem desacreditadas no século 19 – são o exemplo óbvio, mas muito da farmacopeia antiga e medieval, coerente com as teorias de Galeno, médico e filósofo grego, sobre a origem das doenças em desequilíbrios “humorais”, era composta de purgantes, diuréticos e eméticos (substâncias que induzem ao vômito).

Galeno, seguindo Hipócrates, propunha que a saúde dependia do equilíbrio de quatro fluidos, os “humores”, que existem no interior do corpo humano: sangue, fleuma, bile negra e bile amarela. O filósofo viveu por volta do ano 200 EC, e seu inspirador, Hipócrates, em cerca de 300 AEC.

As ideias de ambos, portanto, fazem perfeitamente jus ao título de “milenares”. E sob essa lógica milenar, tem todo o sentido tratar doenças reequilibrando os humores, e reequilibrá-los extraindo os que se apresentam em excesso! Sangrias, vômito e visitas forçadas à latrina são apenas as consequências naturais e esperadas de tal abordagem. O problema, claro, é que a lógica está errada, e tratamentos baseados nela levam à desidratação, desnutrição e morte.

Natureza engana

Muitos defensores do tratamento especial para as terapias ditas tradicionais, seja lá onde se ponha a linha de corte – talvez não em anos de existência, mas em número de clientes satisfeitos? – afirmam que, excluídas as obviamente insanas, as demais deveriam contar com o benefício da dúvida: mesmo que, no fim, não gerem benefícios específicos, o simples fato de serem usadas há tanto tempo/terem sido usadas por tanta gente seria um forte indicador de que mal, pelo menos, não fazem.

O que é um raciocínio simpático – para quem não se ofende com a condescendência implícita – mas, no fim, inválido e perigoso. O primeiro ponto a mencionar é que o conceito sobre o que configura um tratamento “obviamente insano” depende do conhecimento científico existente na época que faz o julgamento. A tradição das sangrias é obviamente insana para nós, e muitas terapias herbais “tradicionais” de hoje serão obviamente insanas para observadores baseados no futuro.

Cito terapias herbais porque há uma tendência mais ou menos generalizada de achar que o que vem da natureza é, em essência, “bom”, e se o produto vier recomendado por uma velha senhora ou por um idoso curandeiro, que aprendeu o ofício de seu pai, que aprendeu com o pai dele, melhor ainda. E a verdade é que um grande número de pessoas já pagou com a vida por esse engano.

Duas ervas, dois venenos

Quando se trata de um produto claramente manipulado pela tecnologia, como um herbicida ou um organismo geneticamente modificado, a maioria das pessoas parece capaz de entender bem depressa que, para além do risco agudo – o risco de tocar ou provar o produto e cair morto – é necessário avaliar também o risco crônico, aquele que emerge do contato constante e repetido com o material.

Quando se trata de um produto “natural”, no entanto, essa cautela tende a desaparecer, mesmo sem existir qualquer razão lógica para tal. Tomemos, como exemplo, a erva Aristolochia, que há séculos é usada tradicionalmente na Europa Oriental e na Ásia para tratar problemas de saúde que vão de artrite a dores menstruais (pelo motivo, altamente “científico”, de que o formato das folhas lembra um útero). Na última década, acumulou-se evidência de que a erva é, na verdade, tóxica e cancerígena. Séculos de sabedoria popular não foram capazes de deduzir esse fato, revelado por estudos científicos conduzidos com métodos adequados.

Mais recentemente, descobriu-se que a Psoraleae, uma planta usada tradicionalmente na Ásia, pode causar danos graves ao fígado. A planta contém um sem-número de moléculas biologicamente ativas, muitas das quais podem ser benéficas para a saúde humana, ou venenos; sem estudos adequados, é impossível saber o que é o quê.

Defensores das chamadas medicinas tradicionais gostam de citar o caso da artemisinina, um remédio importante para a malária, isolado a partir de uma erva tradicional chinesa, e cuja descoberta rendeu um prêmio Nobel de Medicina para a farmacologista To Youyou. Nessas horas, é sempre importante relembrar que, embora a tradição chinesa tenha sugerido a Youyou o estudo da planta, foram os métodos universais da ciência que permitiram isolar, testar e validar a molécula com potencial médico. Tradições apontam caminhos e indicam objetos de estudo; ignorá-las ou desprezá-las é, de fato, desperdiçar o poder de observação de incontáveis gerações de seres humanos.

Mas não nos esqueçamos de que incontáveis gerações de seres humanos já estiveram erradas em muitas de suas observações, incluindo quanto ao formato da Terra e seu lugar no Universo. Tradição pode representar um primeiro passo na rota do conhecimento, nunca seu ponto final.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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