O preço da imortalidade

22 nov 2018
Questão Nerd
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Cena do filme Highlander, de 1986
Cena do filme Highlander, de 1986

Hoje, definimos o câncer como uma doença causada pelo crescimento descontrolado de células do corpo. Esse crescimento é desencadeado por algumas mudanças no DNA, que afetam especificamente os genes que estimulam a divisão celular.

Se células fossem programas de computador, seria como se algumas delas entrassem em looping infinito na função “divisão celular”.  Nossas células contêm instruções genéticas bem definidas, que regulam tanto a divisão quanto a morte celular. Qualquer “atualização de sistema” que altere o bom funcionamento desses códigos permitirá o surgimento de células que não param de crescer e se dividir.

Existe todo um aparato dedicado a reparar automaticamente instruções danificadas, e há backups dos backups, mas o erro pode atingir o próprio sistema de reparo. Note que não é tão simples uma célula normal perder todos esses controles e se tornar cancerígena.

Quanto mais tempo vivemos, mais nossas células se dividem, gerando cópias de si mesmas. Toda vez que uma nova cópia é produzida, existe a oportunidade de acontecer um erro. Portanto, quanto mais longa a vida, maiores as chances temos de acumular erros nos sistemas. Além do mais, assim como em programação,  não podemos prever tudo que o usuário pode fazer … e com certeza, ele fará bobagem alguma hora, mesmo sem saber que está fazendo.

Pois bem: se a cada ano que vivemos aumentam as chances termos de ter câncer, surge um dilema muito grande para o Homo Deus do Yuval Harari. Nesse livro, o autor levanta hipóteses sobre o futuro da humanidade, e diz que um de nossos maiores anseios, como espécie, é viver para sempre. Se não nos tornarmos inteiramente biônicos e tivermos apenas nossas memórias gravadas em um chip, como na série Altered Carbon, ainda seremos feitos de células. Logo, nossas células irão se dividir, acumular mudanças e, com o tempo, desenvolveremos algum tipo de câncer.

No mundo pop da ficção, temos inúmeros personagens imortais que podem nos dizer algo sobre como evitar essa terrível doença.

Sobre Highlanders e Deadpool

Para começar podemos tentar entender como por que os Highlanders nunca tiveram problemas com câncer… nem mesmo aqueles que ficaram com a cabeça no lugar.

Aqui, vamos falar sobre o filme da década de 80, e não da história original criada por Gregory Widen.

Connor MacLeod mostra sua imortalidade logo no começo do filme. Após sofrer, em uma batalha, um ferimento que seria letal para qualquer ser humano comum, MacLeod acorda repentinamente no dia seguinte, e é acusado de estar possuído pelo demônio. Podemos observar que toda história tem uma  época e lugar certo para acontecer.

O filme mostra apenas alguns guerreiros imortais, e um deles é Juan Sánchez Villa-Lobos Ramírez, interpretado por Sean Connery, que nasceu no Egito em 896 AEC. Levando em conta que a maior parte do filme se passa em 1985, ele tem 2881 anos. Isso seria tempo mais do que suficiente para surgir algum tipo de câncer, caso a biologia dos Higlanders for similar à dos humanos, e vamos considerar que sim.

No filme não se fala muito sobre como surgem os guerreiros imortais, mas MacLeod parece despertar seu poder na hora que mais precisa, que é após o ferimento letal. Tanto é que outros ferimentos, que seriam tão incapacitantes quanto o primeiro, praticamente não são sentidos pelo Highlander, com o passar das batalhas. Além disso, existem guerreiros que aparentam ser mais velhos fisicamente, o que pode indicar um envelhecimento mais lento do que o de um ser humano.

Deadpool, personagem da Marvel
Deadpool, o anti-herói dos quadrinhos Marvel. Reprodução

Esse método de ativar a imortalidade lembra muito o momento em que Wade Wilson, o fanfarão Deadpool, desperta seu poder de cura. Após ser enganado com uma cura milagrosa para o câncer, Wade acaba recebendo uma injeção contendo um soro baseado no fator de cura do Wolverine. O efeito desse soro é ativar qualquer gene mutante escondido em seu DNA quando combinado com o tratamento de estresse extremo. Isso “ligou” os genes dormentes em todas as células do Deadpool, que agora é capaz de inclusive regenerar membros perdidos.

Uma possível explicação para esses dois casos poderia ser baseada na epigenética. Todas as células do corpo humano contêm o mesmo material genético e, mesmo assim, temos aproximadamente 200 tipos diferentes de células. Isso, em parte, se deve à ativação ou repressão seletiva dos genes presentes em nosso DNA.

Epigenética pode ser entendida como um texto grifado. Quando grifamos um texto o conteúdo não é alterado, apenas damos destaque para frases específicas. E esses “destaques” no DNA podem acontecer por algum tipo de estresse, ligando ou desligando a expressão de genes.

Alguns estudos já demonstraram que fatores ambientais podem alterar o funcionamento de genes que estão relacionados à depressão, ansiedade, obesidade e aos sintomas da herpes. Lamarck manda um alô! Ainda tímido, mas manda.

Nesse cenário temos dois personagens com poderes de cura e regeneração. Um que não nunca teve câncer – e aparentemente envelhece mais devagar – e outro que já estava afetado pela doença. No caso do Highlander, não sabemos o quanto é poderoso é o fator de cura, mas pela espadada que o “matou” pela primeira vez, sabemos que eles podem regenerar órgãos (pelo menos internos) em um período curto de tempo. Já o Deadpool regenera até mesmo as mãos, e  temos uma informação importante que foi dita pelo Ajax, o cara que torturou Wade durante o tratamento:

 “Agora suas células mutadas podem curar qualquer coisa, inclusive atacar suas células cancerígenas na mesma velocidade em que estas são formadas”.  Então, o Deadpool não foi curado do câncer, mas o fator de cura consegue combater a doença.

Sean Connery e Christopher Lambert em cena de Highlander
Em Highlander, a única forma de matar um guerreiro imortal é a decapitação

O problema é que o câncer é tão difícil de combater porque evolui dentro do corpo do paciente. Um tumor não é formado por apenas um tipo de célula, ele consiste em populações de células que continuamente se transformam e se adaptam a um ambiente em constante mudança.

E esse processo de evolução pela seleção natural não apenas permite que os tumores fujam do sistema imunológico, mas também que se adaptem às drogas na quimioterapia.

Temos que levar em conta que provavelmente todas as células do corpo do Deadpool tiveram o gene mutante ativado, inclusive as células tumorais que ele já tinha. Com isso, provavelmente o Deadpool teria também um “super-câncer” e certamente morreria em poucas horas.

Com o Highlander não seria diferente: alguma hora, uma célula cancerígena conseguiria se adaptar e vencer o poder de cura dos guerreiros. A não ser que os relâmpagos observados durante a transferência de poderes do imortal abatido em combate para seu algoz também curassem câncer, mas esse tipo de energia milagrosa que cura tudo e todos os tipos de câncer não deve ser considerada, nem mesmo na ficção.

A imortalidade do corpo, enfim, parece ser muito mais desafiadora do que a imortalidade da mente e das ideias.

 


Luiz Gustavo de Almeida é biólogo e pesquisador do Laboratório de Genética Bacteriana do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, coordenador dos projetos Cientistas Explicam e Pint of Science na cidade de São Paulo

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