Conheça o perfil dos primeiros meses da pandemia no Brasil

Questão de Fato
25 set 2020
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Virus amarelo

Os pacientes infectados com o novo coronavírus no Brasil são majoritariamente mulheres (56%) e têm idade média de 44 anos, mas são os homens que morrem mais (55%). Esta é uma das principais conclusões de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que avaliou informações clínicas e demográficas de 28.854 brasileiros diagnosticados com COVID-19.

O trabalho está descrito no artigo Clinical characteristics and outcomes of Brazilian patients with severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 infection: an observational retrospective study, produzido em colaboração por pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas, Escola de Engenharia e Hospital das Clínicas da UFMG e publicado na revista científica São Paulo Medical Journal, da Associação Paulista de Medicina.

A pesquisa da UFMG também detectou os sintomas mais comuns apresentados pelos infectados no momento do atendimento hospitalar. Entre eles estão a tosse (42,39%), a febre (38,03%) ou sensação febril, falta de ar ou dificuldade respiratória com saturação de oxigênio menor que 95% (30,98%) e dor ao engolir (odinofagia).

O estudo também constatou que, de modo geral, a infecção por SARS-CoV-2 foi mais frequente entre adultos com idade entre 30 e 39 anos. Além disso, assim como em outros países, no Brasil a mortalidade é maior em pessoas em faixas etárias mais avançadas, entre 70 e 79 anos, chegando a 8,06%. O tempo médio entre o início dos sintomas e a morte foi de 10,3 dias.

De acordo com a coordenadora da pesquisa, Maria de Fátima Leite, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, os pacientes estudados foram diagnosticados utilizando o teste padrão ouro para a doença, que é o RT-PCR. “Nós analisamos retrospectivamente a progressão da COVID-19, visando avaliar as características da população brasileira com a doença e tentar investigar se existe algum fator que predispõe os indivíduos a desfechos mais graves”, explica.

Ela conta que o estudo foi feito no início da pandemia, de março a maio, durante um período de 60 dias. De lá para cá, com o aumento do número de casos, talvez os dados já possam ser diferentes, mas conhecê-los torna possível uma melhor compreensão da evolução da infecção na população.

Segundo Maria de Fátima, há semelhanças e diferenças com dados de outros países. “Por exemplo, semelhanças com relação a idade”, diz. “Os pacientes acima de 60 anos são os que mais morrem, e o que nós observamos é que aqueles que são admitidos no hospital com falta de ar, com saturação de oxigênio abaixo de 95%, também têm um prognóstico pior, enquanto quem dá entrada com um incômodo na garganta tem um desfecho mais favorável, ou seja, melhora da doença”.

A grande descoberta, no entanto, foi algo característico do Brasil, que é o fato de que mulheres de 44 anos terem sido o principal perfil de pacientes com COVID-19 no início da pandemia. “O que foi assustador é que a taxa de mortalidade naquela época era de 18%, muito alta, e o tempo médio entre os sintomas e a morte era de apenas 10 dias”, conta Maria de Fátima.

A taxa de mortalidade de 18% surpreendeu. “Isso não foi observado em nenhum outro país, nem mesmo naqueles com igual baixo nível de desenvolvimento socioeconômico do Brasil”, diz. “Isso é grave, mostra que o manejo da doença foi inadequado no início da pandemia e que a não utilização de máscaras, o não respeito ao distanciamento social e o não cumprimento de outras práticas certamente contribuíram para essa alta taxa de mortalidade”.

Maria de Fátima diz que vale lembrar que no início da pandemia houve uma divulgação intensa do uso de um medicamento (cloroquina), que não é cientificamente comprovado como válido para o tratamento da COVID-19. “Ele foi muito utilizado no Brasil, em uma dosagem alta, que nós sabemos que tem efeitos colaterais e que pode, de certa forma, ter contribuído para essa alta taxa de mortalidade”, diz. “Todos os pacientes que nós avaliamos vieram da rede hospitalar pública ou privada, 17% deles desenvolveram um quadro severo da doença e, desses, todos morreram”.

O estudo do grupo da UFMG foi um dos pioneiros sobre o perfil dos afetados pela COVID-19 no Brasil. “Atualmente já existem outros trabalhos com a população brasileira sendo publicados, se complementam com o que nós divulgamos agora e são extremamente importantes para o entendimento do percurso da doença no nosso país”, diz Maria de Fátima. “Isso vai ajudar não só a monitorar a COVID-19, mas também, quem sabe, antever possíveis novos surtos. Isso vai ser muito importante, inclusive, para uma melhor cobertura de imunização no momento em que a vacina estiver disponível”.

Evanildo da Silveira é jornalista

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