Suplementos populares contra artrose são só placebos

Questão de Fato
25 jan 2020
Corredor na pista

Você sente dores constantes nas articulações das mãos, joelhos coluna ou quadril? Tem mais de 60 anos? Pratica atividades física repetitivas como corrida, natação ou ciclismo? Está acima do peso? 

Se respondeu “sim” para a primeira pergunta e se encaixa em uma das categorias seguintes, não se sinta só! Talvez você faça parte da parcela da população (15% - 20%) que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima ser afetada pela osteoartrite, também conhecida como artrose.

A estimativa é ainda maior para pessoas com mais de 65 anos, pois cerca de 70% a 80% da população nessa faixa etária tem a doença. Além disso, a importância da artrose pode ser demonstrada através dos dados da previdência social no Brasil, onde a doença sozinha é responsável por 7,5% de todos os afastamentos do trabalho. 

Pessoas com artrose procuram as mais diversas formas de tratamento e estão dispostas a desembolsar um bom dinheiro para se ver livre das dores. Uma das formas mais populares, entre esportistas e pessoas que querem evitar a doença, é a suplementação alimentar com glucosamina e/ou condroitina. 

Mas o que é a artrose, e o que prometem esses suplementos? Assim como fizemos no artigo sobre jogos mentais que prometem melhora a cognição, procuramos as evidências científicas do uso dos suplementos para o tratamento de artrose em humanos, e apresentamos as conclusões para vocês. 

O que é osteoartrite ou artrose

Nossas articulações são revestidas por cartilagens. Sem elas, um osso se chocaria contra outro, o que resultaria em um movimento mais rígido e um estresse físico enorme. A artrose é uma doença que se caracteriza pelo desgaste dessas cartilagens. Como citado anteriormente, a doença é mais prevalente em pessoas com idade avançada, ou obesas, ou praticantes de esportes que geram alto impacto nas articulações. Na imagem a seguir, podemos observar as principais diferenças nas articulações de uma pessoa sem (esquerda) e com (direita) artrose.

diagrama artrose

 

A maioria dos adultos de 40 anos não sente os sintomas da artrose, embora cerca de 80% dessas pessoas já apresentem os primeiros sinais. Os sintomas são rigidez e diminuição dos movimentos articulares, dores durante os movimentos (dor que cessa com o repouso), inchaços e perda de flexibilidade. 

No Brasil, não encontramos estudos epidemiológicos sobre a prevalência da artrose, nem sobre a quantidade de recursos públicos empregada no tratamento da patologia. Nos Estados Unidos, somente no ano de 2004, US$ 86 bilhões foram destinados ao tratamento da doença, e a venda de medicamentos/suplementos para osteoartrose movimentou US$ 760 milhões.

O suplemento popularmente indicado (até mesmo por médicos) para o tratamento de artroses, e que pode ser encontrado facilmente aqui no Brasil, é a combinação de glucosamina e condroitina. Esse suplemento é vendido com a promessa de reparar a cartilagem danificada, nutrir, proteger e restaurar as articulações, além de impedir a progressão da degeneração das articulações.

Caso você já tenha tomado esse suplemento ou conheça alguém que já recomendou/tomou, nosso artigo pode ser interessante para ver o que diversos estudos relatam sobre a eficácia do produto em um número grande de pacientes diagnosticados com artrose. Antes, vamos mostrar qual seria a lógica por trás da utilização desses suplementos.

O que são glucosamina e condroitina?

Ao contrário do que a ingestão de colágeno promete (assunto que já tratamos aqui), a glucosamina é um precursor de outras moléculas importantes para formação da cartilagem. Então, a ideia não é consumir a cartilagem em si e torcer para que ela seja incorporada de alguma forma, mas sim de aumentar sua produção no corpo, oferecendo mais matéria-prima, por assim dizer. 

A glucosamina ocorre naturalmente em conchas de mariscos, ossos de animais, medula óssea e em fungos. A molécula é sintetizada também no organismo humano. Já, os efeitos da ingestão de glucosamina, e o quanto essa ingestão influencia no processo de biossíntese de cartilagem, são questões ainda em aberto.

Comercialmente, a glucosamina é oferecida principalmente de três formas: a glucosamina hidroclorídrica (retirada da casca de caranguejo), a glucosamina sulfatada (retirada da casca de camarão) e a glucosamina sintética.

Já a condroitina é uma molécula encontrada em diversos tecidos, inclusive na cartilagem hialina – que recobre os ossos longos (como o fêmur), costelas, nariz e a traqueia. Quem promove a condroitina  diz que ela pode funcionarassociada à atividade anti-inflamatória, ao estímulo da síntese de componentes da cartilagem e à diminuição da atividade de enzimas que danificam a matriz cartilaginosa. O problema, como veremos adiante, é que ninguém provou que ela funciona.

A maioria das condroitinas comerciais é provavelmente produzida a partir de extratos de tecidos cartilaginosos de vaca e porco (traqueia de vaca e orelha e nariz de porco), mas outras fontes como cartilagem de tubarão (péssima ideia, já que a pesca de tubarões para extração de cartilagem está pondo algumas espécies em risco de extinção), peixe e pássaro também podem ser utilizadas.

As duas substâncias normalmente são combinadas em um único suplemento e são vendidas custando desde R$ 20,80 até R$ 599,90, dependendo da marca. 

Dado esse brevíssimo panorama sobre a artrose, glucosamina e condroitina, vamos ao principal que é verificar as evidências científicas sobre a suplementação alimentar de glucosamina e condroitina com o intuito de evitar ou tratar a artrose em humanos. 

Conclusões pouco promissoras

Os médicos ortopedistas Osmar Valadão Lopes Júnior e André Manoel Inácio fizeram  uma ótima revisão da literatura para responder exatamente ao que desejamos saber.  Todas as conclusões que eles avaliaram foram retiradas de meta-análisesestudos clínicos ou revisões sistemáticas publicadas em revistas renomadas da área médica. Os parâmetros avaliados nestes estudos incluem dor, tamanho do espaço articular entre os ossos, e/ou o Western Ontario e o McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) que nada mais são do que um conjunto de questionários padronizados, amplamente utilizado por profissionais da saúde para avaliar a condição de pacientes com osteoartrite do joelho e quadril, incluindo dor, rigidez e funcionamento físico das articulações.

Independentemente da forma utilizada pelos estudos para avaliar a eficácia da suplementação alimentar com glucosamina e condroitina, o veredito ficou claro: “frente às melhores evidências existentes até o momento, o uso da glucosamina sulfatada/hidroclorídrica e da condroitina não produz benefícios clinicamente relevantes em pacientes com osteoartrose do joelho e do quadril”.

Recomendamos a leitura da revisão, muito bem feita pelos autores. Aqui, trouxemos apenas alguns dos estudos analisados em detalhe, para ilustrar que devemos sempre lembrar que ciência é feita por humanos, e humanos são gente complicada.

O poder do placebo

Um dos estudos avaliados chamou bastante atenção por um detalhe curioso. O ensaio clínico, publicado em 2006 em The New England Journal Medicine, contou com uma amostra de 1583 pacientes com artrose no joelho. Estes pacientes foram distribuídos aleatoriamente em grupos que receberam:

Glucosamina

Condroitina

Glucosamina e condroitina

Celecoxibe (anti-inflamatório)

Placebo

 

Após 4, 8, 16 e 24 semanas os pacientes foram avaliados em relação à dor e às respostas ao WOMAC. 

Em geral, decorridas as 24 semanas, os resultados mostraram que a glucosamina e a condroitina, isoladas ou em associação, não se mostraram melhor do que o placebo ou o celecoxibe no controle global da dor. Apenas em um subgrupo de pacientes, com artrose classificada como moderada ou severa, a diminuição da dor foi significativamente maior, na comparação com o grupo placebo. Porém, o estudo não havia sido pensado para avaliar apenas esse grupo específico, e o número de pessoas que se encaixava ali era muito pequeno. Um novo estudo específico para pacientes com artrose moderada ou severa, e com mais pacientes, precisaria ser realizado para tirar conclusões mais concretas. 

Mas o que achei interessante ressaltar é o seguinte dado: o número de pacientes do grupo placebo que relatou uma diminuição da dor chegou a pouco mais de 60%! Ou seja, mais da metade das pessoas que acreditaram estar recebendo um medicamento, mas que na verdade estavam tomando uma pílula inerte, passaram a sentir menos dor! Por isso, um grupo placebo é fundamental em qualquer estudo clínico.

Uma crítica que o estudo recebeu de diversos cientistas foi provocada pelo fato de os autores terem utilizado glucosamina e condroitina que passaram pela supervisão da agência federal americana Food and Drug Administration (FDA)que tem papel similar ao da Anvisa no Brasil. Porém essas duas substâncias são vendidas como suplemento nos Estados Unidos, e a FDA não tem jurisdição plena sobre esse mercado. Sendo assim, o controle de qualidade é bem menos rígido. Portanto, o suplemento que chega ao consumidor final provavelmente não tem uma qualidade tão boa quanto o utilizado no estudo, e deve ter um efeito ainda mais próximo ao do placebo.

Conflito de interesses

Outra análise, igualmente interessante, foi  publicada por “The Cochrane Library” em 2009. A revista é reconhecida pela produção de meta-análises e revisões sistemáticas que resumem e interpretam os resultados de conjuntos de pesquisas médicas sobre um mesmo tema. 

Esta revisão analisou 25 estudos que avaliaram apenas o uso da glucosamina no tratamento da osteoartrose quanto à dor, função, mobilidade, redução do espaço articular e satisfação do paciente com o tratamento.  O curioso dessa revisão é que ela inclui 14 estudos (56%) que foram financiados por, ou cujos autores tinham alguma relação com, a indústria farmacêutica que produz a glucosamina. E o mais curioso é que os mesmos 14 estudos apontaram um maior efeito do suplemento contra a artrose. 

Levando em conta apenas os estudos que não tinham conflito de interesse, a conclusão foi de que, até o momento, não havia evidências suficientes que justificassem o uso da glucosamina.

Uma outra revisão da literatura, também feita por pesquisadores com conflito de interesse, sugere que os efeitos dos suplementos ainda não foram observados porque a dose utilizada nos estudos é baixa. Dose essa que foi avaliada pelo FDA como sendo segura para o uso humano. Os autores da revisão publicaram o artigo com um título bem, digamos, curioso:

"Glucosamine for the Treatment of Osteoarthritis: The Time Has Come for Higher-Dose Trials" 

Algo como “Glucosamina para o tratamento da osteoartrite: chegou a hora dos ensaios com doses mais altas.” Vale ainda ressaltar que um dos autores é proprietário e diretor científico de uma empresa “nutracêutica” que produz glucosamina desde meados de 1990.

Veredito final

Levando em conta os inúmeros estudos que analisaram o efeito da suplementação de glucosamina e condroitina, podemos apenas concluir que faltam evidências científicas que comprovem a eficácia da suplementação para o tratamento da artrose.

Lembrando que essa não é a opinião de um microbiologista que não entende nada de reumatologia, mas sim o consenso da comunidade científica, que pode mudar caso novas evidências bem fundamentadas sejam relatadas a partir de experimentos controlados.

Para finalizar, o site da Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda que a única recomendação “de dieta” que comprovadamente  diminui a incidência de artrose nos joelhos é a que promove a redução preventiva do peso corporal. Inclusive em caso de pessoas já diagnosticadas com artrose, essa é uma indicação importantíssima do tratamento. O site ainda alerta:

Não há nenhuma prova científica de que qualquer outro tipo de dieta tenha influência significativa no tratamento da osteoartrite (artrose).”

 

Luiz Gustavo de Almeida é doutor em microbiologia e pesquisador do Laboratório de Genética Bacteriana do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e coordenador nacional do festival Pint of Science

 

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