Tudo o que você precisa saber sobre Medicina Tradicional Chinesa

7 abr 2019
Questão de Fato
Loja de produtos de MTC em Hong Kong
Loja de produtos de MTC em Hong Kong

 

[NOTA DO EDITOR: Este artigo foi publicado originalmente no blog Science-Based Medicine. Traduzido com autorização da autora. Reprodução proibida.]

O que é medicina tradicional chinesa (MTC)? E se funciona, por que não estamos todos usando isso? Aqui, uma explicação:

Com a rica experiência acumulada de milhares de anos, MTC é um tesouro para a saúde humana. É um sistema orientado para o paciente, com uma abordagem holística, tratando o indivíduo em vez da doença. MTC tem um amplo espectro de modalidades de tratamento, incluindo a utilização de ervas, procedimentos de Medicina Chinesa de propriedade privada, acupuntura, moxibustão e qigong. A escolha da terapia é customizada para o padrão de desarmonia identificado.

Contudo, a validação científica da MTC está sendo questionada por falta de evidências. Existe, pois, uma enorme demanda de conhecimento sobre evidências científicas em MTC...precisamos encontrar mais evidências de eficácia e segurança para validar seu efeito nos tempos modernos.

As afirmações acima estão repletas de erros:

Experiência, mesmo que “rica”, não permite tirar conclusões científicas, e não substitui testes clínicos controlados.

Ancestralidade não garante validade. Astrologia é antiga, mas é uma bobagem antiga, não sabedoria antiga.

O texto está cheio de chavões enganosos da medicina alternativa: orientado pelo paciente, holístico, tratar a pessoa e não a doença. Ideias que a medicina alternativa cooptou dos objetivos do que seria a melhor prática de medicina convencional.

Acunputura é um placebo teatral.

Procedimentos de propriedade privada? Isso não quer dizer que ninguém sabe o que tem nesses remédios?

Moxibustão?!

Tratamento customizado para padrões de desarmonia? O que diabos isso quer dizer?

 “A validação científica está sendo questionada por falta de evidências!” Claro que está, não tem como saber se um tratamento funciona se não há evidência científica.

 “Precisamos...demonstrar sua validade” Cientistas não saem por aí tentando “demonstrar” a validade de coisa nenhuma. Eles tentam descobrir “SE” alguma coisa é válida.

Fundamentos da MTC

Os conceitos que embasam a MTC são ideias fantasiosas com origem em uma era pré-científica; não têm apoio na realidade. Propõem uma energia vital (qi) que circula por meridianos que se conectam a órgãos vitais. O pensamento é organizado em termos de yin/yang, cinco elementos (madeira, fogo, terra, metal e água). A terapia é baseada em padrões de desarmonia, e os diferentes praticantes identificam diferentes padrões, e prescrevem remédios também diferentes.

Eles examinam coisas como a cor e o formato da língua, o hálito e o som da voz dos pacientes. Alegam ser capazes de identificar 12 tipos diferentes de pulsação, classificando-os como “flutuante, escorregadio, reforçado, alinhado e rapidinho”. Os remédios receitados incluem partes extraídas de animais (muitas vezes de espécies ameaçadas), extratos de plantas e produtos minerais.

Problemas na pesquisa

A evidência de boa qualidade em favor da MTC é, na melhor das hipóteses, escassa. O NIH (National Institute of Health) americano examinou 70 revisões sistemáticas sobre MTC. Em 41 delas, os testes clínicos eram tão pequenos e tão mal planejados que não serviam para nada. Em 29, os estudos até mostravam benefícios, mas tinham problemas com tamanho da amostra e falhas metodológicas, que faziam com que os resultados fossem inconclusivos. Shu-chuen Li, da Universidade de Newcastle na Austrália, demonstrou que apenas um quarto dos estudos mostrava algum benefício, mas mesmo estes eram marginais.

Quase 100% dos estudos de MTC na China reportam que a MTC é eficaz. Se algum estudo trouxer resultados negativos, não será publicado. Isso não é só viés de publicação. Uma pesquisa sobre testes clínicos chineses mostrou que existe fraude em grande escala; 80% dos dados são fabricados. Mai Ke, ativista de direitos humanos de Guangdong, diz que existe uma cultura de fraude inserida em todos os produtos feitos na China.

Um estudo conduzido pelo Centro de Medicina Chinesa Baseada em Evidências, na Universidade de Medicina Chinesa de Beijing, encontrou fortes evidências de viés de publicação, manipulação de dados, conclusões positivas baseadas em dados que na verdade não mostram diferença significativa, e outros problemas. Proponentes da MTC gostam de alegar que sua pesquisa é tão boa que até já ganhou um prêmio Nobel.

Tu Youyou ganhou o Nobel pela descoberta da artemisina, uma droga para malária, derivada de uma planta que já havia sido usada para outros fins na MTC. Mas isso não foi, de maneira alguma, uma vitória para MTC ou medicina herbal. Foi uma vitória da mais pura farmacologia científica “ocidental”.

Cautela nos anúncios

Nossos colegas australianos têm avançado no combate à desinformação sobre MTC. A organização Friends of Science in Medicine – FSM (Amigos da Ciência na Medicina) submeteu mais de mil imagens de websites de MTC/acupuntura para o AHPRA, a Agência Regulatória de Práticas em Saúde. Como resultado, o Conselho de Medicina Chinesa da Austrália publicou o seguinte texto na sua Newsletter:

Devido ao alto padrão de evidências necessário para embasar a publicidade ao consumidor, evidências para respaldar as alegações dos anúncios devem ser baseadas em dados de metodologias quantitativas, como revisões sistemáticas de testes clínicos controlados e randomizados de alta qualidade...Todos os anunciantes devem assegurar que quaisquer afirmações ou alegações feitas sobre MTC não são falsas, enviesadas ou enganosas, nem que criem uma expectativa irreal dos benefícios dos seus serviços.

Se o seu anúncio contem alegações terapêuticas sobre o tratamento de qualquer condição de saúde, você deve ser capaz de validar sua alegação com evidências plausíveis. O Conselho está particularmente preocupado com alegações de que acupuntura é um tratamento seguro e adequado para bebês em posição pélvica.

Eles seguem dizendo que os praticantes não devem citar o documento da OMS sobre as condições que a acupuntura pode tratar, pois o documento não é atualizado há cinco anos, e não cumpre os requisitos necessários para constituir evidência aceitável. Eles ainda acreditam que “evidência de uso tradicional” é suficiente para tratar pacientes, mas não deve ser usada em anúncios.

Loretta Marron, da FSM, diz que, em sua opinião, isso “significa que os websites de praticantes de MTC não pode fazer NENHUMA alegação, já que não existe evidência sólida para nenhuma intervenção de MTC.

Doutrinando os jovens

Em um desenrolar preocupante, que gerou muita controvérsia na China, crianças a partir de 12 anos estão aprendendo a praticar acupuntura. MTC foi adicionada ao currículo escolar na província de Zheijang, cem mil livros-texto foram distribuídos, e mais estão a caminho, e há planos de ampliar o programa para o país todo. Nem todo mundo aprova: há comentários sobre o “envenenamento de mais uma geração” e “vamos ensinar também adivinhação e quiromancia”.

Em fevereiro de 2016, o Conselho de Estado publicou um “Plano Estratégico de Desenvolvimento para Medicina Chinesa (2016-2030)”, que visa difundir o conhecimento sobre MTC nos campi de Universidades e nos lares chineses, e também promover MTC internacionalmente.

MTC é um grande negócio

Um artigo em The Economist descreve uma explosão de MTC na China. Um personagem de destaque é Fang Yuan, que vende chifre de veado (para tratar moléstias de mama!) no maior mercado mundial de MTC, com mais de dez mil comerciantes, na cidade de Bozhou na China. O fungo tibetano de lagartas, o “Viagra do Himalaia”, é vendido, literalmente, por seu peso em ouro. O número de hospitais que oferecem MTC cresceu de 2500, em 2003, para 4000 no final de 2015. Desde 2011, o número de praticantes licenciados aumentou 50%. Sessenta mil remédios de MTC foram aprovados pelo governo chinês, perfazendo aproximadamente um terço do mercado farmacêutico. MTC é atualmente responsável por 16% da saúde pública, em comparação com 14% em 2011.

O presidente da China diz que a MTC está em sua era de ouro, o partido comunista insiste que lhe seja dado o mesmo status da medicina “ocidental”. Novas leis de segurança foram votadas para regulamentar a produção de remédios de MTC, mas os pré-requisitos profissionais para os praticantes foram relaxados. Estima-se que a MTC custe 24% menos do que o a medicina convencional. Mas isto na verdade representa uma falsa economia, já que, como mostra o artigo da Economist, a evidência de eficácia da MTC é pobre.

Loretta Marron (FSM) escreveu num email:

A China está protegendo sua indústria de exportação e vendas de TCM, que movimenta de $40 bilhões, e tentando ampliá-la. Isso vem influenciando nosso país (Austrália, mas provavelmente vários outros também) pela porta dos fundos, dando milhões de dólares para nossas Universidades para o que chamam de pesquisa “colaborativa”, que acabam se traduzindo em hospitais de “pesquisa” de MTC – tanto aqui como no exterior. 

(A farmacêutica Yling, uma indústria que faz medicamentos herbais baseados em receitas tradicionais, movimenta US$3 bilhões! )

Problemas de qualidade

Uma grande parcela de remédios de MTC encontra-se contaminada ou adulterada com produtos farmacêuticos. Uma pesquisa mostrou pelo menos uma substância não-declarada em nove de dez amostras testadas. Foram encontrados DNA de animais e plantas de espécies que não estavam listadas na bula. Também foram encontrados níveis significativos de metais pesados em mais da metade das amostras.

Segundo Edzard Ernst, autoridades chinesas tentaram ignorar ou esconder informação sobre contaminantes, temendo que “sua margem de lucro poderia ser ameaçada se fossem completamente honestos sobre a qualidade de seus produtos MTC para exportação”.

Alerta ao consumidor

Não há evidências suficientes de que remédios de MTC sejam seguros ou eficazes. A acupuntura já foi extensivamente estudada, e demonstrou-se que não passa de um placebo teatral. Alguns “medicamentos” nunca foram efetivamente avaliados, e muitos dos estudos conduzidos são de qualidade ruim, ou até mesmo fraudes. Além disso, nunca se pode ter certeza sobre o que está no frasco: muitos produtos contêm informações erradas na bula, são contaminados ou adulterados. Recorrer à MTC é uma aposta arriscada. Medicina convencional pode não ser perfeita, mas é uma aposta bem mais confiável.

Harriet Hall, MD, também conhecida como a Doutora Cética (SkepDoc) é uma médica de família aposentada que escreve sobre pseudociência e práticas médicas questionáveis. Recebeu seu bacharelado em artes e seu diploma de medicina da Universidade de Washington, fez estágio na Força Aérea (a segunda mulher a conseguir isso) e foi a primeira mulher a se formar na residência em saúde da família da Base Aérea de Eglin. Ao longo de sua carreira como médica da Força Aérea, ocupou vários postos, de cirurgiã de voo a Diretora dos Serviços Médicos da Base, e fez de tudo, de partos a assumir os controles de um B-52. Reformou-se com a patente de coronel. Em 2008, publicou seu livro me memórias, Women Aren't Supposed to Fly.

Tradução de Natalia Pasternak

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