Se a Lua afeta as marés, ela não afeta também o corpo humano?

Questionador questionado
14 nov 2020
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lua

A atração gravitacional da Lua afeta o ciclo das marés, influenciando os oceanos, mas não tem efeito nenhum sobre os líquidos e fluidos do corpo humano – mesmo levando-se em conta o fato de que somos feitos de 70% de água. Muitas pessoas têm a impressão errada de que existe alguma contradição aí – que essas duas afirmações não poderiam ser, ambas, verdadeiras. Mas a aparente contradição reflete apenas uma incompreensão de como a força da gravidade funciona na prática.

Por exemplo:

 

“A força gravitacional da Lua não influencia até as marés? Então, se ela consegue mover toda aquela quantidade de água pra cima e pra baixo pela força da gravidade, por que você acha que não vai influenciar nas nossas vidas? A gravidade da Lua pode também afetar a circulação do sangue nos nossos órgãos e no nosso cérebro, entende? Por isso que eu acredito em astrologia”.

 

Esse foi o argumento de uma seguidora da Revista Questão de Ciência, após ler um dos artigos que questionam a validade científica da astrologia. Bom, ninguém está aqui pra dizer no que cada um deve ou não acreditar, mas é importante as pessoas saberem que, do ponto de vista da ciência, o raciocínio acima não faz sentido. E pelos seguintes motivos:

A Lua é o nosso satélite natural e está a uma distância média de 384.400 km da Terra. Mas como a trajetória lunar é elíptica, a distância real varia de 363.100 km a 404.700 km ao longo da órbita, que dura cerca de 29,5 dias. Se a personalidade das pessoas dependesse da atração gravitacional lunar, não apenas a posição da Lua num mapa astral, mas também sua distância da Terra, deveria ser considerada, já que quando o satélite está mais perto, sua influência gravitacional é maior e quando está mais longe, é menor.

Além disso, com o passar dos dias e dos meses, a Lua, como vista da Terra, desloca-se para Oeste ou para Leste, dependendo da estação do ano, além de nascer cerca de 45 minutos mais tarde no horizonte a cada dia, o que faz com que a posição da Lua, relativa à Terra, que nós vemos hoje, neste exato horário, dificilmente volte a se repetir.

Por exemplo, no dia em que escrevo, 07/11/2020, a Lua minguante convexa nasce a Leste às 12h45, na posição azimutal de 105 graus, e se põe a Oeste às 11h40 do dia 08/11. Ela está com 60% de sua superfície visível para nós iluminada, e a uma distância de 382.530 km, na constelação de Câncer. Outra Lua minguante convexa só vai ocorrer, num dia 07/11, daqui a 19 anos, mas uma hora e meia mais cedo do que em 2020.

Isso é chamado de ciclo Metônico, em homenagem ao seu descobridor, o astrônomo e matemático grego Meton de Atenas, no ano de 432 AEC. Mas devido a essa uma hora e meia de diferença, são necessários cerca de 304 anos para a Lua surgir com a mesma fase, no mesmo dia e horário. Porém, mesmo após esse ciclo de 304 anos, a Lua não terá retornado à mesma distância da Terra em que estava no último 7 de novembro.

Você imagina quando essa configuração vai se repetir, exatamente dessa forma, num dia 7 de novembro, para que a atração gravitacional da Lua tenha exatamente a mesma intensidade? Provavelmente, nunca mais. Afinal, a Lua se afasta de nós a uma taxa de 3,74 centímetros ao ano. Parece pouco? Então considere que a astrologia repete as mesmas afirmações a respeito do efeito lunar sobre a personalidade humana há, pelo menos, 2.000 anos.  

Mas se fosse só isso, você podia pensar “ah, então se eu conseguir medir todos esses valores no momento do nascimento de um bebê, então eu...”. Na verdade, não.

Quando alguém diz que se a força de atração da Lua influencia as marés, então pode influenciar o nosso organismo, isso é só meia verdade. Uns 350 anos atrás, um camarada chamado Isaac Newton descobriu a existência da atração gravitacional e explicou como ela funciona. É mais ou menos assim: a força da gravidade é diretamente proporcional à massa dos corpos e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Isso quer dizer que se a massa de um par de corpos dobra, a atração gravitacional entre eles também dobra. Mas se dobramos a distância entre esses corpos, a atração será dividida por quatro. Se aumentarmos a distância dez vezes, a atração cai a 1% (é dividida por 100, ou dez ao quadrado). E assim por diante.

Já as forças de maré geradas pela atração gravitacional dependem não só das massas e das distâncias entre os centros dos corpos, mas também do tamanho do corpo onde queremos medir a influência. Ela cai não com o quadrado, mas com o cubo da distância entre o centro dos corpos: se dobramos a distância, as forças de maré são divididas por oito. Se aumentamos a distância dez vezes, são divididas por mil.

Como a Lua está a uns 400.000 km de nós, ela só vai conseguir exercer seu poder de atração de modo significativo sobre corpos da Terra que tenham muita massa. Massa suficiente para compensar essa distância enorme. O oceano, por exemplo. Isso mesmo, no singular.

Afinal, se você olhar para o mapa-mundi, vai perceber que todos os oceanos da Terra são um único corpo de água. A massa desse imenso oceano é de 1,260 quintilhão de toneladas! Imagine uma piscina olímpica, que contém no mínimo, 2 milhões e 500 mil litros de água, uma massa de 2,5 mil toneladas. Qualquer um pode abrir uma espreguiçadeira, deitar ao lado da piscina, ficar esperando as mudanças de fases da Lua e ir anotando as alterações que ocorrerem no nível da água. Vai acontecer o seguinte: nada. O nível vai ser sempre o mesmo. Não vai ter maré cheia e nem vazante na piscina.

Sabe por quê? Porque a massa de 2,5 milhões de litros de água, junto com a massa da Lua (73 milhões de quintiliões de toneladas), são incapazes de gerar uma atração gravitacional significativa através de uma distância de 400.000 km. Imagine que um ser humano adulto tem, em média, míseros 5 litros de sangue em seu corpo (uma massa de 5 kg, ou cerca de 7% da massa de uma pessoa de 70 kg). Ou seja, os poucos litros de sangue no corpo humano não vão sofrer influência alguma da atração gravitacional lunar. O que parece ser muito bom, afinal provavelmente seria bem desconfortável sentir o sangue inchando o cérebro e os pés durante a Lua cheia (ou o peito e as nádegas, para quem estiver deitado).

Muito mais poderia ser dito. O Sol influencia as marés terrestres tanto quanto a Lua, mas isso não mudaria em nada o fato de que não importa se a Lua está cheia ou minguante, nem se a maré está alta ou vazante, astrologia continua não tendo fundamentação científica.

 

Roger Bonsaver é divulgador científico e membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Divulgadores de Ciência

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