O primeiro ET "grey" de todos os tempos surgiu em série de TV

Questão Nerd
18 mai 2019
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O alienígena de luz do episódio The Bellero Shield

Semana que passou finalmente consegui assistir a The Bellero Shield, clássico episódio da primeira temporada da série dos anos 60 “The Outer Limits” (Quinta Dimensão, no Brasil). Assim como a mais famosa “Twilight Zone” (Além da Imaginação), “The Outer Limits” era antologia – um seriado que apresentava histórias diferentes e independentes entre si, muitas vezes adaptadas de obras literárias. Diferente de “Twilight Zone”, essa série tinha ênfase muito maior na ficção científica do que na fantasia ou na alegoria.

O episódio The Bellero Shield, que foi ao ar em 10 de fevereiro de 1964, teve um impacto cataclísmico sobre a cultura popular do século 20, e que se perpetua neste 21. E não é porque promoveu a reunião improvável de Martin Landau (que depois ficaria famoso como o mágico e “homem de mil faces” Rollin Hand, em “Missão Impossível”) com Neil Hamilton, um ex-galã do cinema mudo que, também mais tarde, teria um segundo momento de fama como o levemente atarantado Comissário Gordon da série “Batman”, de 1966-1968. Não: The Bellero Shield entrou para a história por marcar, até onde se sabe, a primeira aparição de um ET “grey”.

Os “greys”, para quem não está familiarizado com o folclore ufológico, são os alienígenas cabeçudos, de pele cinzenta e olhos amendoados – que parecem se prolongar até as têmporas – geralmente tidos como responsáveis por sequestrar e conduzir experimentos médicos em vítimas de abdução. O relato arquetípico de abdução por “greys” foi feito pelo americano Barney Hill durante uma sessão de psicoterapia com regressão hipnótica.

O caso de abdução do casal Betty e Barney Hill é um dos grandes clássicos da ufologia. Os eventos teriam ocorrido em setembro de 1961, enquanto o casal voltava para casa à noite, de carro, retornando de uma viagem de férias ao Canadá. No início, o casal tinha a descrever, apenas, o avistamento de um objeto estranho no céu.

Nos dias e meses seguintes, porém, a narrativa evoluiu, à medida que Betty começou a sofrer com pesadelos envolvendo o sequestro e exames por parte dos ocupantes da “nave” – que, nesses relatos iniciais, eram seres humanos. A figura alienígena com olhos que chegam às têmporas só surge na sessão de hipnose conduzida com Barney Hill em 22 de fevereiro de 1964. Abaixo, um desenho feito pela artista Diane Prentice com base na descrição do casal:

Retrato falado do ET do caso Hill

A  pesquisador americano Martin Kottmeyer notou que a regressão hipnótica aconteceu exatamente 12 dias após a exibição de The Bellero Shield; a imagem do alienígena que aparece no episódio (interpretado por John Hoyt) abre este artigo. A figura do alienígena cabeçudo, por sua vez, já estava presente na cultura pop americana pelo menos desde 1957, ano em que foi lançado o filme “Invasion of the Saucer Men”.

Nada disso tende a sugerir que os Hill estivessem deliberadamente mentindo: apenas, que é possível que tenham interpretado algumas experiências traumáticas e ressignificado algumas fontes de estresse psicológico de acordo com os signos e símbolos disponíveis na cultura da época.

E a situação dos Hill era estressante. Eles eram um casal interracial (Betty branca, Barney negro), na fase mais tensa da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos (Martin Luther King havia sido preso durante um protesto em 1961, e veio a receber o Prêmio Nobel da Paz em 1964). Barney tinha problemas de saúde, e a família passava por dificuldades econômicas.

cartaz de filme de ficção científica de 1957

Mesmo o ufólogo britânico Hilary Evans, não exatamente um pesquisador cético, aponta inconsistências na história e lembra que “revelações” hipnóticas não representam necessariamente a verdade; de fato, a literatura científica registra o efeito da de hipnose na distorção de lembranças ou na criação de memórias falsas. O psicólogo Joseph Barber, da Universidade de Washington, descreve a hipnose como uma “condição em que a realidade dissolve-se no pano de fundo da consciência, sendo substituída, no primeiro plano, por um faz-de-conta que mistura fantasia e realidade”.

Essa relação entre fenômenos ufológicos e cultura pop parece ser universal. Há alguns anos, o Comando da Aeronáutica divulgou uma série de documentos sobre casos envolvendo óvnis no Brasil. Os números gerais contêm dois picos pronunciados: nos anos de 1977-78 (onde concentram-se 22,3% de todos os eventos ufológicos registrados pela Força Aérea entre 1954 e 2000) e nos de 1996-97 (18,27%).

Juntos, os dois biênios somam mais de 40% do total de casos comunicados às autoridades em 46 anos. Curiosamente, em 1977 estrearam nos cinemas "Guerra nas Estrelas" e "Contatos Imediatos de 3º Grau". Em 1996, não só houve o lançamento do filme de invasão alienígena "Independence Day", como ocorreu a explosão de popularidade da série de "TV Arquivo X" no Brasil.

Mas, afinal, de que trata The Bellero Shield? Nesse episódio, uma “ponte de raios laser” experimental entre a Terra e o espaço captura, inadvertidamente, um alienígena – o careca de olhos amendoados – que se apresenta como uma espécie de “ser de luz”, capturado pelo laser por conta de sua “afinidade” com a energia do raio.

Para um espectador brasileiro moderno, chamam atenção, além do aspecto “grey”, o discurso místico-espiritualista do ET, bem como sua identificação como “ser de luz”, elementos que se encontram em certos círculos nacionais que misturam religião e ufologia.

No episódio, o alienígena tem um escudo de invulnerabilidade que gera a cobiça de Judith Bellero, esposa do cientista criador da ponte luminosa. A mulher é interpretada por Sally Kellerman, mais conhecida por sua participação no episódio-piloto de "Star Trek", em 1968, e pelo papel da enfermeira Major Margaret “Hot Lips” Houlihan na comédia "MASH".

A despeito da roupagem de ficção científica, o episódio é mais uma peça moral do que uma aventura com seres do espaço, memorável apenas por reunir um grupo especial de atores – e por deixar uma marca indelével, ainda que não intencional, no universo das pseudociências.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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