Recuperação após Brumadinho é lenta e cheia de incertezas

Questão de Fato
25 jan 2020
Portal da cidade de Brumadinho (MG)

Um ano depois do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG), ocorrido no dia 25 de fevereiro do ano passado, as marcas da destruição em terra e nos córregos e rios da região, causada pelas 14 milhões de toneladas de lama e rejeitos de minério jogadas no ambiente, seguem visíveis. Há, é verdade, sinais de melhora, mas os danos vão demorar para ser reparados – se é que um dia serão -, sem falar nas cerca de 250 pessoas que perderam a vida.

O estudo mais recente das consequências de uma das maiores tragédias ambientais do Brasil foi feito pela Fundação SOS Mata Atlântica, na bacia dos rios Paraopeba e Alto São Francisco. O levantamento foi realizado entre os dias 8 e 17 de janeiro deste ano, por uma equipe da organização, que percorreu cerca 2.000 km por estradas da região atingida, passando por 21 cidades, entre Brumadinho e Felixlândia. O objetivo foi analisar a qualidade da água em 356 km dos rios afetados.

De acordo com o relatório divulgado no dia 23 pela Fundação, foram realizadas coletas de água em 21 pontos ao longo dos 356 km percorridos pela expedição. “Os resultados mostram que a água é imprópria para uso em toda extensão monitorada”, diz Marcelo Naufal, monitor do projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica. “Em nove pontos, os índices encontrados foram péssimos, em 11 ruins e apenas em um foi regular. Todos os locais analisados apresentaram padrões em desconformidade com a legislação.”

Em 2019, cinco dias depois do acidente, a situação era pior. Na ocasião, pesquisadores do Instituto Butantan, de São Paulo, e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fizeram um estudo coletando água e lama em seis pontos ao longo de 176 quilômetros do Paraopeba, desde 26 km acima do local aonde os rejeitos chegaram ao rio, para ser usada como controle, até 150 km abaixo. Os resultados mostraram a alta toxicidade da água e da lama.

As amostras indicaram níveis de ferro 100 vezes acima do que é considerado seguro pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), 1.000 de alumínio e 720 de mercúrio. Este último elemento não veio dos rejeitos da barragem, pois ele não é usado na mineração de ferro. O mais provável é que a enxurrada tenha revolvido a lama do leito do rio, liberando o mercúrio ali depositado durante antigas minerações de ouro.

Dados de um levantamento feito pela Fundação SOS Mata Atlântica, em 2019, mostraram que a turbidez do rio, um dos principais parâmetros utilizados para avaliar a qualidade da água doce superficial, chegou, nos piores trechos, a estar 96 vezes acima do valor máximo permitido pela legislação ambiental. “A turbidez elevada, além de alterar drasticamente a cor da água, impede a passagem da luz e a fotossíntese, causando a morte da vida aquática”, explica Neufal. 

No estudo realizado em 2020, o Paraopeba mostrou grande capacidade de recuperação, com redução deste indicador, ainda que insuficiente. “As concentrações ao longo de todo trecho estudado continuam altas, variando entre 5 e 13 vezes acima do limite máximo definido na legislação”, conta Naufal. “Com o período chuvoso e a ocorrência de temporais na região de Brumadinho, o carreamento de rejeitos pelo rio avança para o Baixo Paraopeba, no Reservatório de Retiro Baixo aumentando o risco de comprometimento da qualidade da água no trecho inicial do reservatório de Três Marias.”

Apesar de a situação estar um pouco melhor hoje, em todo o trecho analisado pela Fundação SOS Mata Atlântica, o rio Paraopeba não apresenta condição adequada de vida aquática. “Não podemos dizer que está morto, no entanto, pois os cursos d’água possuem capacidade de se regenerar com o passar do tempo. Corredeiras, afluentes e outros rios contribuintes ajudam a aumentar os níveis de oxigênio dissolvido na água. Em razão disto, em dois trechos no baixo Paraopeba (Cachoeira do Choro e margem esquerda do reservatório de Retiro Baixo e um ponto no Alto São Francisco), constatamos a presença de peixes e alevinos, embora poucos, demonstrando tendência de lenta recuperação. Mas, ele continua impróprio e com qualidade de água péssima.”

De acordo com o pesquisador Jefferson de Lima Picanço, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em relação à turbidez das águas, o rio está com uma aparência “normal”. “Mas o Paraopeba está com os sedimentos oriundos dos rejeitos da barragem depositados na barra do Córrego do Feijão no Rio Paraopeba”, explica. O pesquisador também é integrante do Centro de Apoio Científico em Desastres, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e do Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Impactos e Riscos associados a Barragens (CRIAB), composto por pesquisadores de várias instituições do Brasil.

Picanço explica que o material está se movendo lentamente e demorará muitos anos para descer o rio. “No entanto, apesar dos minérios de ferro serem relativamente inertes no ambiente natural, não se sabe como tamanha quantidade de material vai reagir quimicamente com as águas e com as margens, bem como com os animais e vegetais do entorno, nem quais serão as consequências”, diz. “Isso deverá ser objeto de pesquisas a serem realizadas.” 

Além das águas do rio Paraopeba, o trabalho da Fundação SOS Mata Atlântica, em colaboração com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com o Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil (MapBiomas), composto por universidade, organizações não governamentais e empresas, analisou os danos à cobertura florestal da área atingida pelos rejeitos da barragem. 

O levantamento de 2019 constatou a destruição de 112 hectares de florestas nativas, dos quais 55 eram áreas bem preservadas. “Em 2020, a cicatriz continua aberta, mas há indícios de um processo de regeneração”, conta Naufal. “Verificou-se também, por imagens de satélite, uma nova supressão de vegetação nativa de 1,8 hectare para abertura de uma estrada, mas a razão e impactos de tal mudança da paisagem ainda precisam ser averiguadas em campo.”

Picanço tem outros dados. Segundo ele, na bacia do Córrego do Feijão, a destruição nas margens foi total, acabando com instalações industriais, casas e plantações. “A paisagem natural foi completamente alterada”, diz, “Lá, foram depositados milhões de toneladas de rejeitos.”

Ali, de acordo com ele, a vegetação já começa a crescer. “Isso é normal em nosso clima”, explica. “A vegetação recupera estas áreas. Não sabemos, no entanto, qual vai prosperar a médio e longo prazo, nem nada sobre a toxicidade desses materiais, embora, a principio, os rejeitos da barragem sejam relativamente inertes no meio ambiente. Também não sabemos muito como será a reação deste material no solo, em interação com as águas abaixo do lençol freático.” 

Evanildo da Silveira é jornalista

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