Cientistas tentam medir impacto político das redes sociais

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27 jul 2023
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As redes sociais promovem a formação de bolhas de informação, construindo câmaras de eco em que os usuários veem e interagem majoritariamente com publicações de pessoas com opiniões e interesses parecidos com os seus. Estudos iniciais sobre a forma como o público usa as redes, e como as empresas responsáveis por elas - as chamadas "Big Techs" - ajustam seus algoritmos para manter as pessoas circulando e engajadas nas suas plataformas, alimentando seus lucros, ajudaram a levantar a hipótese de que estes fenômenos também estariam contribuindo para o aumento da polarização política que hoje ameaça as democracias ocidentais, notadamente em países como os EUA e o Brasil, onde falsas alegações de fraudes nas eleições pelos respectivos ex-presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro fomentam uma desconfiança das instituições que abastece discursos extremistas e incita ações violentas, como as invasões do Capitólio em Washington em janeiro de 2021 e das sedes dos três Poderes em Brasília, no início deste ano.

De olho nisso, a Meta, dona do Facebook e Instagram, se juntou a acadêmicos de diversas instituições de pesquisa dos EUA em um projeto para analisar o papel das redes sociais na democracia americana, por ocasião das eleições presidenciais de 2020 no país. Os primeiros resultados deste esforço estão sendo publicados nesta quinta-feira em uma série de artigos nas prestigiosas revistas científicas Nature e Science. Com um acesso sem precedentes aos dados dos usuários e a possibilidade de mexer nos sistemas das redes, os cientistas puderam observar o comportamento das pessoas e testar os efeitos de mudanças nos algoritmos nos feeds de notícias, nas formas de interação e no posicionamento político dos usuários.

Como esperado, as análises mostram que os algoritmos têm uma forte influência sobre o que os usuários veem nas redes sociais e como se comportam nas plataformas, com uma segregação ideológica significativa na exposição a notícias e conteúdos de natureza política. Os experimentos, no entanto, sugerem que embora os ajustes nos algoritmos possam alterar substancialmente o que as pessoas veem e seu nível de engajamento nas plataformas, estas modificações, conduzidas ao longo de três meses, não foram capazes de afetar de maneira notável suas atitudes políticas com base em desfechos como polarização afetiva, extremismo ideológico, crenças sobre o sistema eleitoral, suas regras e resultados, coerência nos posicionamentos pessoais e avaliação dos adversários e candidatos.

Para a Meta, os resultados destes primeiros estudos são positivos. Em um comunicado para a imprensa, Nick Clegg, presidente de Assuntos Globais da empresa, destacou que "estes achados se somam a um crescente número de pesquisas mostrando que há poucas evidências de que as mídias sociais provocam uma polarização afetiva danosa ou tenham impacto significativo em atitudes, crenças e comportamentos políticos importantes".

"Nova luz também foi lançada sobre a alegação frequente de que as mídias sociais - e os algoritmos da Meta especificamente - servem às pessoas conteúdos que as mantêm divididas e, assim, as polariza", acrescentou. "De fato, as evidências nestes estudos sugerem algo completamente diferente: quando os participantes observaram uma redução da quantidade de conteúdos de fontes que reforçam suas visões, eles na verdade ficaram mais propensos a engajar com os conteúdos de opinião parecida que viam. E, ainda assim, não houve impacto detectável em sua polarização, atitudes políticas ou crenças".

Nem todos, porém, compartilham desta leitura. Em comentário sobre o estudo publicado na Nature, que testou o impacto da diminuição da exposição dos usuários participantes a publicações de amigos, grupos ou fontes com as quais têm maior afinidade política, David Garcia, pesquisador do Departamento de Política e Administração Pública e do Centro para Humanos, Dados e Sociedade da Universidade de Konstanz, Alemanha, não envolvido no projeto conjunto da Meta com acadêmicos, afirma que os experimentos e seus resultados não são suficientes para descartar a influência das redes sociais e do modo como empregam seus algoritmos no crescimento da polarização política, mantendo a necessidade de medidas como a regulamentação das plataformas.

"Se pensarmos na polarização como um comportamento coletivo que gostaríamos de moderar, a ausência de efeitos algorítmicos nas atitudes e opiniões não é assim surpreendente", avaliou. "Vamos considerar uma analogia com as mudanças climáticas: imagine uma política que reduza as emissões de carbono em algumas poucas cidades. Comparando com um grupo controle de cidades, é pouco provável que encontremos um efeito sobre as anomalias na temperatura, mas a ausência de efeitos não seria uma evidência de que as emissões de carbono não causam as mudanças climáticas. De forma similar, estes experimentos nas mídias sociais não descartam a possibilidade de que os algoritmos dos feeds de notícias contribuem para o aumento da polarização. Ainda assim, ambos exemplos mostram como há um limite para a eficácia de soluções que trabalhem no nível dos indivíduos, quando se tenta alterar um comportamento coletivo. Estes limites devem ser superados pelo uso de abordagens coordenadas, como regulação ou ações coletivas".

Outro que defendeu a regulamentação das redes sociais foi Michael Wagner, professor da Escola de Jornalismo e Comunicação em Massa da Universidade de Wisconsin-Madison, EUA, que atuou como relator independente do projeto, avaliando sua estrutura e condução tanto para reforçar a confiança do público e acadêmicos nos resultados quanto para orientar futuras parcerias entre academia e empresas no estudo das redes sociais. Em texto publicado em conjunto com os artigos na revista Science, Wagner classificou a colaboração da Meta com acadêmicos de fora da empresa como uma "independência sob permissão", em que embora a Meta tenha concedido um acesso inédito aos seus dados e sistemas para a produção dos estudos, seus funcionários falharam em informar e guiar os cientistas pela multitude de dados disponíveis para que melhor elaborassem seus questionamentos e pesquisas.

"Uma das deficiências de modelos de colaboração em pesquisas entre a indústria e a academia, e que se reflete nestes estudos, é que elas não se debruçam de modo aprofundado sobre a complexidade da arquitetura de dados e dos códigos de programação em corporações como a Meta", considerou. "Simplesmente, os pesquisadores não sabem o que não sabem, e não há incentivos claros para que os parceiros na indústria revelem tudo que sabem sobre suas plataformas".

Segundo Wagner, em tempos nos quais lideranças políticas adotam um discurso contra a ciência e o conhecimento e atacam instituições de pesquisa, a independência da academia se torna ainda mais importante, algo que a regulamentação pode proporcionar, no caso dos estudos sobre as redes sociais.

"No fim, a independência sob permissão não é nada independente. Pelo contrário, é um alerta sobre o que está por vir na academia: dados e oportunidades de pesquisa incríveis serão oferecidos para uns poucos acadêmicos selecionados, às custas de sua real independência", critica. "A academia não é totalmente independente se os dados são controlados por corporações que visam o lucro, nem é independente quando estas mesmas corporações podem limitar a natureza do que é estudado. Parcerias mais criativas entre mídias sociais, academias e financiadores ou, mais provavelmente, a regulamentação por governos e requisitos de compartilhamento de dados (como, por exemplo, a Lei de Serviços Digitais da União Europeia) que também protejam a privacidade, assim como estruturas bem definidas que encorajem os pesquisadores empregados pela indústria a colaborar e os protejam, são necessários para fomentar oportunidades de estudos inovadores e abrangentes que não necessitem da permissão das plataformas de mídias sociais".

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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