O método por trás do método

Artigo
22 jun 2022
Autor
Imagem
homem zodiacal

 

Com a disseminação das vacinas para COVID-19 e o subsequente arrefecimento tanto da pandemia, ao menos no que diz respeito a seus efeitos mais graves – hospitalizações, mortes –, quanto da promoção psicopática, histriônica, por parte do governo federal e de seus lambe-botas na mídia, no empresariado e na academia, de falsas “curas” para a doença, o amplo consenso na classe intelectual em torno do papel inegociável da pesquisa científica de qualidade para a validação de medicamentos e tratamentos de saúde parece estar desvanecendo.

Passadas as Guerras Cloroquínicas, as Escaramuças Ivermectinais e a Incursão Proxalutamídica, muitas vozes que até ontem se apresentavam como campeãs intransigentes da boa ciência como condição necessária para a oferta responsável de medicamentos começam agora a reatar os casos de amor que, antes de Jair Bolsonaro abrir a temporada de caça às emas, mantinham com “epistemologias alternativas”, “outras formas de saber” e terapias baseadas em impressão pessoal.

De forma inadvertida e talvez sem identificar a contradição e a ironia involuntária embutidas nas próprias declarações, muitos veteranos das trincheiras azitromicinais agora articulam, em defesa de suas terapias de estimação, os mesmos questionamentos usados pelos mais afoitos cloroquiners: o uso do método científico para testar medicamentos é sempre necessário? Será que esses protocolos da ciência não são apenas “check-lists” burocráticos, regras frias e cruéis que negam o benefício da cura a seres humanos vulneráveis?

O problema desse tipo de pergunta é – como era no auge da pandemia, como sempre foi e continuará sendo – o de embutir a falácia de petitio principii, presumir o que deveria demonstrar: sem testes adequados, é impossível afirmar que há “benefício da cura”. Ao pedir testes, não se está negando “benefício” nenhum a ninguém, porque sem testes, ninguém realmente pode saber se algum benefício de fato existe.

A ciência é muitas vezes acusada de arrogância, mas na verdade os métodos que adota nascem de um profundo gesto de humildade, do reconhecimento de que nossa visão do mundo é sempre parcial, incompleta e colorida por desejos e preconceitos. Pessoas se enganam. Tratamos esperanças como certezas, expectativas como fatos, coincidências como provas. Testes científicos são a melhor ferramenta que temos para filtrar as fontes de erro inerentes à condição humana e chegar o mais perto possível de uma descrição objetiva do que realmente acontece quando usamos uma intervenção X para lidar com um problema Y.

Além de permitir olhar para a existência (ou não) de benefícios sem as lentes cor-de-rosa da expectativa positiva, testes científicos também reduzem o impacto de outra fonte de erro, menos citada, mas também insidiosa: a cegueira para riscos. Um argumento comumente mobilizado em defesa da tolerância para com tratamentos sem benefício demonstrado é de que “pelo menos não fazem mal”. Eu me pergunto como quem alega uma coisa dessas pode realmente saber do que está falando: há casos confirmados de plantas “aprovadas” por séculos de uso tradicional que se revelaram perigosamente tóxicas quando submetidas a testes adequados. Até mesmo a homeopatia, que é feita de nada, pode ser perigosa.

Duas objeções comumente levantadas contra a necessidade de testes científicos são a da urgência e a analogia do paraquedas. A da urgência é autoexplicativa: existe um problema, ele está na nossa cara, não há bons testes que indiquem o que quer que seja, mas precisamos fazer alguma coisa, qualquer coisa!

É uma situação perfeitamente possível e plausível, mas assim como o assassinato em legítima defesa, muito mais rara do que algumas pessoas gostariam de nos fazer acreditar. A força emocional do senso de urgência não deveria nos cegar para o risco muito real de que “fazer qualquer coisa” irá piorar tudo ainda mais.

Nos Estados Unidos, no século 18, um médico heroico decidiu testar um “qualquer coisa” para salvar seus pacientes de febre amarela. Sua taxa de mortalidade foi de 50%, ante 33% dos doentes em geral. Não é à toa que um dos princípios básicos da ética médica é primum non nocere ou, em minha tradução particular, “antes de mais nada, não piore a situação”.

A analogia do paraquedas lembra que há intervenções cujo sucesso é garantido por leis fundamentais da natureza (no caso dos paraquedas, as leis de Newton) e que exigir que sejam testadas pode ser até antiético (não seria de bom tom jogar pessoas sem paraquedas de aviões, para comparar sua taxa de sobrevivência à de pessoas com paraquedas). Da mesma família da analogia do paraquedas é o argumento de que existem tratamentos cujo efeito benéfico é tão grande, óbvio, claro e imediato que testá-los seria pedantismo – vitamina C para escorbuto, por exemplo.

São pontos válidos mas, assim como a urgência, de aplicação extremamente limitada. Um levantamento da literatura científica conduzido em 2018 mostrou que a esmagadora maioria dos tratamentos considerados, em algum momento, análogos a paraquedas não são nada do tipo. “A maioria das analogias com paraquedas na medicina é inadequada, incorreta ou mal utilizada”, concluem os autores.

O mesmo, suspeito, vale para intervenções que talvez pareçam “óbvias, claras e imediatas” – e acabam não sendo (lentes cor-de-rosa, lembre-se). E se forem: é, de qualquer maneira, preciso avaliar riscos e efeitos adversos.

Todas essas considerações seguem válidas não importa se quem propõe o tratamento é um brucutu de direita, um esquerdomacho, uma terapeuta holística, um curandeiro tribal, uma professora de universidade, o governo da China, o príncipe de Gales ou o ET Bilu. A pandemia nos ensinou a importância de desconfiar de terapias que não foram devidamente testadas. Isso inclui também as “de estimação”.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem"(Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), ganhador do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

11 95142-8998 

11 95142-7899