O fim de um ano trágico para o Brasil

Artigo
6 jan 2021
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Fim de um ano trágico, onde a doença e a morte cavalgaram soltas pelo mundo. Mas nada, nem em tempos apocalípticos, é simples ou unidimensional.

A ciência, ou melhor, os cientistas mostraram que nada é impossível, e que mesmo durante uma pandemia pode-se desenvolver uma vacina.

O presidente Jair Bolsonaro mostrou que, num país rico, belo, criativo e cheio de talentos de todas as cores, o chefe do governo pode ser ignorante, cultuar a tortura, desprezar a vida e pautar o discurso com elementos que entusiasmam os desinformados.

Em São Paulo, centro da criação de ciência do Brasil, tivemos que sair em defesa das universidades e da Fapesp, sob ataque de um governador que se diz admirador da ciência.

O Instituto Butantan, que mostrou ao mundo que o Brasil pode vacinar todos os que precisam, ano após ano, contra influenza, com uma vacina feita em São Paulo, caiu na armadilha de emaranhar-se em questões políticas e, assim, embaralhar a relação da sociedade com uma das vacinas contra a COVID-19. Com isso, o Butantan reforçou as dúvidas da parcela da população que, seguindo as diretivas de Bolsonaro, desconfia das vacinas. Mas, a despeito dos erros políticos e de comunicação, o pessoal da produção, do desenvolvimento e dos ensaios clínicos do Butantan deve garantir que a vacinação ocorra, e com um produto confiável.

O pessoal da saúde, que está desde março na linha da frente no combate ao coronavírus, mostrou, mais uma vez, que no Brasil temos heróis que não aparecem na novela e nem ganham salários milionários perseguindo uma bola. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos, pessoal da limpeza, enfim, todos que salvaram milhões de vidas estes meses têm o nosso respeito, carinho e admiração.

Que dizer, então, dos lixeiros, dos motoristas entregadores de comida, dos que nos atendem nas farmácias e nos supermercados. No meio da tragédia estamos rodeados de super-mulheres e super-homens.

Claro que no meio disto se organizam carreatas da morte, festas faraônicas para superinfectar, aglomerações desmascaradas, todos sintomas de um país sem liderança.

Mas em alguns túneis tem luz no fim, e não é o farol do trem vindo na direção oposta. No Diário Oficial do Estado de São Paulo do dia 31 de dezembro de 2020, reconhece-se que ciência e ensino superior público e gratuito trazem esperança para a população. O Decreto Nº 65.438, de 30 de dezembro de 2020 mostra no Artigo 3º - “Em cumprimento ao disposto no § 5º do artigo 11 da Lei nº 17.309, de 29 de dezembro de 2020, no artigo 271 da Constituição do Estado de São Paulo e no artigo 5º da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021 (Lei nº 17.286, de 20 de agosto de 2020), as dotações dos órgãos e unidades ficam suplementadas conforme o Quadro 3”.

Com este Decreto se eliminam da Lei nº 17.309, de 29 de dezembro de 2020, “que Orça a Receita e fixa a Despesa para o exercício de 2021” as ameaças de interferência na autonomia Constitucional da Fapesp e das universidades públicas estaduais. O governo do estado, pois, reconhece, no apagar das luzes do ano, que a Fapesp e as universidades públicas paulistas merecem o investimento que o contribuinte faz nelas. A pressão dos que se manifestaram de formas diversas, a persistência dos negociadores da Fapesp e das universidades, e de alguns membros do governo, permitiram que neste ano trágico algo importante seja, pelo menos por ora, salvo das investidas irracionais.

Estes são os momentos finais de uma volta pandêmica ao Sol, onde perdemos centenas de milhares de brasileiros. Escutamos do nosso presidente palavras chulas que resumem o seu estilo de liderança ideológica. Vimos o mundo, com raras exceções, se afastar da democracia e das lideranças racionais. Mas, como bem dizia a minha mãe, e reafirmava com força a minha sogra, a esperança não é a última que morre, a esperança simplesmente nunca morre. 

O ano de 2021, portanto, traz esperança, sem ingenuidade, pois as evidências da existência de heróis, como o pessoal da linha de frente, a organização solidária que tantas vezes se viu no Brasil, o incrível esforço dos cientistas por colocar o conhecimento a serviço da Humanidade, enfim, por cada gesto de carinho, de compreensão e de apoio que vimos acontecer durante este ano, creio que podemos esperar que, vacinados, poderemos construir um novo, e melhor, normal.

Hernan Chaimovich é Professor Emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo

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