Negar o perigo da COVID-19 foi a maior mentira de 2020

Artigo
1 jan 2021
donald

 

Um motorista de táxi da Flórida e sua mulher viram teorias da conspiração online suficientes para acreditar que essa história de vírus era exagerada e, provavelmente, mentirosa. Então, nada de máscaras para eles. Ficaram doentes. Ela morreu. Um professor universitário teve dificuldade para encontrar seu remédio para lúpus depois que o presidente americano resolveu promover a droga como tratamento para a nova doença. Uma enfermeira teve uma crise nervosa quando um paciente da UTI teimou em dizer que sua doença não passava de uma gripezinha, sem perceber o silêncio das camas do quarto ao lado.    

As mentiras infectaram os Estados Unidos em 2020. As piores não era apenas perigosas, mas letais.  

O presidente Donald Trump disseminou confusão e conspirações desde os primeiros dias da pandemia do coronavírus. Ele abraçou as teorias de que a COVID-19 era responsável por apenas uma pequena fração das milhares e milhares de mortes ocorridas no país. Minou as recomendações dos especialistas em favor do uso de máscaras e chamou Dr. Anthony Fauci de “vira-casaca pouco confiável”.

Agentes anônimos nas redes sociais propagaram pseudociência. "Céticos" online fizeram falsas acusações de que hospitais inflaram o número de casos de COVID-19 para receber pagamentos maiores. Âncoras influentes de rádio e TV disseram a milhões de espectadores que o distanciamento social era uma bobagem e que os estados tinham todo equipamento de proteção de que os profissionais de saúde precisavam, quando na verdade faltavam equipamentos.   

Foi uma sinfonia de contra-narrativa, em que Trump foi o maestro, talvez o próprio compositor. A mensagem: a ameaça à sua saúde foi superexagerada, para comprometer o sucesso político do presidente.  

Todo ano, os editores do PolitiFact fazem uma revisão das declarações mais erradas para eleger uma como A Mentira do Ano, que premia a declaração ou conjunto de afirmações que mais contradiz a realidade.

A seleção tem se tornado cada vez mais difícil, já que comentaristas políticos cínicos não têm o menor pudor em propagar deslavadas mentiras. Desde as eleições presidenciais, denúncias de fraudes extensas, não comprovadas, têm posto as instituições democráticas à prova, qualificando-se com certeza como um acesso de cara de pau histórico e perigoso. Felizmente, os fundamentos constitucionais que sustentam a democracia americana são sólidos.

 

Os caminhos da desinformação  

O coronavírus já matou cerca de 350 mil norte-americanos, numa crise exacerbada pela irresponsável disseminação de notícias falsas.

No dia 7 de fevereiro, numa entrevista para o lendário repórter e escritor Bob Woodward, Trump discorreu sobre os perigos do novo vírus que se espalhava pelo mundo a partir da China Central. Ele explicou ao jornalista que o vírus se disseminava pelo ar, que era tinhoso e “muito mais mortal que a mais forte das gripes”. Mas o presidente disse coisa bem diferente para o público. No dia 26 de fevereiro, Trump apareceu na sala de imprensa da Casa Branca com a força-tarefa encarregada do coronavírus e um repórter perguntou se ele estava dizendo a americanos saudáveis para não mudar seu comportamento. “Lave as mãos, mantenha sua higiene. Quer dizer, encare isso como se fosse uma gripe”, disse.

Três semanas depois, no dia 19 de março, em outra conversa com Woodward, o presidente reconheceu: “Para ser sincero com você, eu sempre quero minimizar o perigo, porque não quero criar pânico”. Seus acólitos na política e na mídia seguiram o exemplo à risca. No dia 24 de fevereiro, o radialista conservador Rush Limbaugh disse a sua audiência de 15 milhões de pessoas que o coronavírus estava sendo usado como arma contra Trump, embora fosse “apenas uma gripe comum, gente”. Não é verdade - mesmo nas primeiras semanas da pandemia já se sabia que o vírus era muito mais letal que o da gripe, com potencial para efeitos colaterais bem piores.

Enquanto o vírus se disseminava, espalhava-se também a mensagem para minimizar o perigo. “Há muitas fontes de desinformação e há muitos representantes eleitos, além de Trump, que não levaram o vírus a sério e disseminaram informações falsas”, disse Brendan Nyhan, professor de política do Dartmouth College. “Esta não é apenas uma história de Trump, e é importante não ignorar os outros disseminadores dessa narrativa”.

 

O sequestro dos números 

Em agosto explodiu no Twitter um movimento que questionava as descomunais taxas de mortalidade da COVID-19 nos EUA. Os "céticos" citavam os dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), afirmando que apenas 6% das mortes poderiam ser realmente creditadas ao vírus. No dia 24 daquele mês, o apresentador da BlazeTV Steve Deace amplificou a ideia postando para seus 120 mil seguidores no Facebook: “A porcentagem de pessoas que morreu por causa da COVID sem ter comorbidades é de apenas 6%, segundo o CDC”.

Trata-se de uma distorção da realidade. O CDC sempre disse que pessoas com comorbidades eram mais vulneráveis em caso de COVID-19, e o relatório afirmava que 6% dos atestados de óbito que mencionavam COVID-19 não mencionavam qualquer condição pré-existente. Mas para os negacionistas, os dados confirmavam suas crenças. Usuários do Facebook compartilharam a postagem, bem como influenciadores digitais como Amiri King, que tinha 2,2 milhões de seguidores antes de ser banido da rede.   

“Eu vi estatísticas bem interessantes mostrando que apenas 6% das pessoas realmente morreram por causa da COVID-19, a maioria morreu por outras causas”, disse Trump para Laura Ingraham, âncora da FoxNews, no dia 1º de setembro. Anthony Fauci, diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, falou sobre isso no mesmo dia, no Good Morning America. “O CDC está tentando mostrar que uma porcentagem dos mortos não tinha nada além da COVID. Isso não significa que uma pessoa que sofria de diabete ou hipertensão e morreu não tenha morrido de outra coisa que não a COVID”, explicou.

Trump retweetou mensagens de uma conta que usava símbolos e palavras de ordem da QAnon, um movimento conspiracionista que alega que as elites democratas e de Hollywood são membros de um grupo de pedofilia secreto. Informações falsas passaram das redes sociais para Trump e a TV, criando uma dinâmica própria de retroalimentação. “Donald Trump estava em busca de informações que ecoassem entre seus seguidores e servissem a seus propósitos políticos. E seu público quer que certas mensagens sejam amplificadas, de forma que tem incentivos para fazer com que essas coisas cheguem a ele”, disse Kate Starbird, professora assistente da University of Washington e especialista em desinformação.

 

Boicotando o uso de máscaras

No início da pandemia, o CDC disse que pessoas saudáveis não precisavam usar máscaras e que era melhor deixá-las para os profissionais da saúde na linha de frente. Mas, no dia 3 de abril, a agência mudou sua orientação, afirmando que todos deveriam usar máscaras não-médicas em público. Trump anunciou a orientação do CDC e depois desconversou. “Então, é voluntário. Você não é obrigado a usar. A sugestão vale por algum tempo, mas é voluntário”, disse numa entrevista coletiva. “Acho que não vou usar”.

Em vez de ser uma ferramenta de prevenção, o uso de máscaras se tornou um marco da divisão entre o calculismo político de Trump e sua tomada de decisão como presidente. Os americanos só viram Trump usar máscara em julho, durante uma visita ao Walter Reed National Military Medical Center.

Enquanto isso, negacionistas inundaram a internet com afirmações absurdas. Máscaras reduzem a oxigenação. Máscaras acumulam fungos. Máscaras acumulam coronavírus. Máscaras não servem para nada. Em setembro, o CDC mostrou a correlação entre pessoas que frequentaram bares e restaurantes, onde o uso de máscaras está longe de ser consistente, e testagem positiva para COVID-19. Blogueiros e mídias negacionistas distorceram a pesquisa. No dia 13 de outubro a história chegou ao Tucker Carlson Tonight da Fox News. Durante o programa, Carlson afirmou que “quase todo mundo que pegou coronavírus – 85% dos que pegaram - em julho estava usando máscara. Então, fica claro que as máscaras não funcionam como eles dizem”.

Isso, claro, está errado e representa um pequeno grupo de pessoas - as que deixaram a máscara de lado quando foram a bares e restaurantes. Especialistas em saúde pública e infectologistas repetem desde abril que o uso de máscaras está entre os melhores meios de evitar a transmissão da COVID-19. Mas dois dias depois do programa de Carlson, Trump repetiu a história dos 85% durante um comício e uma entrevista para Savannah Guthrie, da NBC. “Eu falo para as pessoas usarem máscaras, mas outro dia mesmo mostraram que 85% das pessoas que usam máscara pegam COVID-19”, disse na entrevista.

 

O ataque aos hospitais 

No dia 24 de março, a enfermeira Melissa Steiner cumpriu seu primeiro turno na nova UTI para COVID-19 em um hospital de Michigan. Depois de 13 horas cuidando de dois pacientes em estado crítico, postou um vídeo: “Honestamente, gente, foi como trabalhar numa zona de guerra. Eu fiquei isolada da minha equipe, os recursos, os suprimentos eram limitados, as respostas dos médicos eram limitadas, porque eles também estão sobrecarregados”, disse. “Por favor, gente, leve isso a sério, porque é ruim demais”. O apelo de Steiner foi apenas um dentre os muitos postados por pessoal de saúde sobrecarregado, pedindo que a ameaça fosse levada a sério. Os negacionistas rapidamente organizaram o contra-ataque.

Quatro dias depois, o radialista conservador Todd Starnes postou um vídeo no Twitter feito do lado de fora do Brooklyn Hospital Center, onde havia poucos carros. “Esta é a tal zona de guerra aqui no Brooklyn”, disse em tom sarcástico. O vídeo teve 1,5 mihão de visualizações e é um dos primeiros exemplos do #FilmYourHospital (#FilmeSeuHospital), uma tendência conspiracionista que se alastrou pelas redes sociais, que negava que os hospitais estavam lidando com o aumento rápido de pacientes com COVID-19. Influenciadores digitais pediam que as pessoas saíssem e gravassem seus próprios vídeos. O resultado foi uma enxurrada de vídeos feitos do lado de fora dos hospitais, de onde não era possível ver a resposta à pandemia. Depois de uma semana, os vídeos #FilmYourHospital estavam no YouTube e dali para o Facebook e Tweeter, em dezenas de milhares de postagens.

Duas semanas e mais de 10 mil mortos depois, a Fox News entrevistou um médico que iniciou um novo ataque de desinformação contra os hospitais. Dr. Scott Jensen, médico de Minnesota e senador estadual republicano, disse a Laura Ingraham que os hospitais estavam inflando o número de casos de COVID-19 porque vinham recebendo mais dinheiro por esses casos através do Medicare – como resultado da lei de estímulo ao combate do vírus. Ele não tinha nenhuma prova disso, mas a história decolou. 

Trump usou a falsa informação durante a campanha eleitoral para continuar minimizando o número de mortos. “Nossos médicos ganham mais dinheiro se alguém morre de COVID”, disse Trump no comício em Waterford, Michigan, no dia 30 de outubro. “Vocês estão sabendo disso, né? Nossos médicos são muito espertos. Então eles dizem ‘sinto muito, mas todo mundo morre de COVID’”.

 

The Plandemic

A maior desinformação viral da pandemia foi encenada para parecer que tinha as bençãos daqueles em que os americanos confiam: cientistas e médicos. Num vídeo de 26 minutos, Plandemic: The Hidden Agenda Behind COVID-19, uma ex-cientista do National Cancer Institute afirmava que o vírus tinha sido manipulado em laboratório, que a hidroxicloroquina era eficaz contra os coronavírus e que as máscaras faziam as pessoas adoecer. Mais de 8 milhões de pessoas viram o vídeo conspiracionista de Judy Mikovits, fenômeno de audiência em parte creditado à máquina do ódio online – dos ativistas antivaxx, grupos anti-lockdowm e adeptos da QAnon — que empurrou a desinformação para o mainstream. O vídeo circulou num efeito coordenado para promover o lançamento do livro de Mikovits. Mais ou menos na mesma época, outra ação propagou, em questão de horas e para milhões de pessoas, um vídeo de médicos negacionistas. No dia 27 de julho, Breitbart – outlet de notícias da extrema-direita – publicou uma coletiva de imprensa organizada por uma certa America’s Frontline Doctors, filmada na frente da Suprema Corte. Parecendo autoridades no tema e usando jalecos brancos, esses médicos desencorajaram o uso de máscaras e mentiram que já havia cura para  COVID, a hidroxicloroquina.  

Trump, que vinha falando na hidroxicloroquina desde março e dizia que estava tomando o remédio preventivamente, retweetou o vídeo, antes que o Twitter o removesse por não falar a verdade sobre a COVID. Não satisfeito, Trump defendeu os “médicos respeitados” numa coletiva de imprensa no dia 28 de julho.

Quando Olga Lucia Torres, da Columbia University, ouviu Trump promover a hidroxicloroquina em março, logo percebeu que teria problemas para obter o remédio que toma para o lúpus. A fala do presidente promoveu uma corrida às farmácias e deixou americanos com condições crônicas sem a medicação de que realmente precisam. Torres precisou esperar 3 semanas para receber a medicação pelo correio. “Muita gente que precisa ficou sem remédio porque as pessoas correram para pedir receita para os seus médicos”, disse,

 

O mesmo Trump

No dia 26 de setembro, Trump recebeu mais de 150 convidados na Casa Branca para anunciar sua indicação de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, para a vaga da juíza Ruth Bader Ginsburg, que tinha morrido. Quase ninguém usava máscara na recepção no Rose Garden, onde as cadeiras foram colada uma ao lado da outra, sem distanciamento. Nas semanas seguintes, mais de 24 pessoas próximas a Trump e da Casa Branca positivaram para a COVID-19. E no início de outubro, o próprio Trump contraiu a doença.

Aqueles que esperavam que, após a internação e o bem-sucedido tratamento no Walter Reed, Trump mudasse sua visão sobre o coronavírus se decepcionaram. O presidente americano continuou a minimizar a gravidade da COVID-19 já em seus primeiros minutos de regresso à Casa Branca, onde arrancou sua máscara e gravou um vídeo.

“Não deixe que ela domine você. Não tenha medo”, disse Trump, descrevendo as terapias experimentais que recebeu, fora do alcance da maioria dos mortais. “Você vai vencê-la”. Na narrativa do presidente, sua hospitalização não foi resultado de um péssimo julgamento sobre aglomerações, como a cerimônia no Rose Garden, mas consequência de liderar com coragem. E ainda por cima, começa a dizer que é imune ao vírus.

Na manhã seguinte a seu retorno à Casa Branca, Trump posta no Twitter que a gripe mata cerca de 100 mil pessoas por ano e que a COVID é bem menos letal para a maioria das populações. É mais uma afirmação falsa que contraria os dados – na última década a gripe matou cerca de 36 mil pessoas por ano nos Estados Unidos e, segundo especialistas, a COVID-19 é mais letal que a gripe em todas as faixas etárias acima dos 30 anos.

Quando Trump deixou o hospital, os EUA contavam mais de 200 mil mortos pela COVID-19, total que hoje supera os 346 mil. E em dezembro, Trump promoveu uma série de festas de fim de ano nos salões da Casa Branca.

 

A guerra da vacina 

A campanha de falsas informações sobre as vacinas começou em abril e ainda não parou. Em abril, blogs e mídias sociais anunciaram falsamente que os democratas e figuras poderosas como Bill Gates queriam usar microchips para rastrear os americanos vacinados contra o coronavírus. Essas mesmas alegações falsas são feitas, agora, contra a vacina da Pfizer e outras. Um blogueiro disseminou a informação falsa de que o chefe de pesquisa da Pfizer teria dito que a vacina pode causar esterilidade em mulheres. Um site de “saúde alternativa” afirmou que a vacina causava uma lista de efeitos colaterais graves, que poderiam levar à morte, e que a FDA sabia disso.  Vários usuários de redes sociais especularam se o governo poderia obrigar a população a tomar vacinas, algo que jamais foi mencionado nem por Trump, nem pelo presidente eleito Joe Biden. Além disso, o governo federal americano não tem poder legal para tornar a vacinação obrigatória.

A estratégia da informação falsa é sempre apresentá-la com uma máscara de certeza. “As pessoas estão ansiosas e assustadas”, disse a dra. Seema Yasmin, diretora dos programas de pesquisa e educação do Stanford Health Communication Initiative. “Elas estão em busca de um quadro completo da situação”. A maioria das pesquisas de opinião mostra que os americanos estão longe de uma aceitação universal das vacinas, apenas de 50% a 70% das pessoas dispostas a tomar vacina. Afro e hispano-americanos são os menos dispostos a aceitar as vacinas.

O curso da COVID-19 nos Estados Unidos depende de os americanos levarem a sério as recomendações dos especialistas em saúde. Segundo projeções do Institute for Health Metrics and Evaluation, sem uso obrigatório de máscaras e adesão rápida à vacina, o número de mortos pelo coronavírus deve chegar a 500 mil em abril. “Como podemos lidar com isso se as pessoas estão vivendo em realidades informacionais diferentes?”, pergunta Kate Starbird.

Daniel Funke e Katie Sanders tiveram a colaboração da pesquisadora Caryn Baird para esta matéria, todos do PolitiFact, site de checagem de fatos, que analisa política. O texto foi publicado também na Kaiser Health News.

 

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