O “paradoxo” do coronavírus: do individual ao coletivo

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12 mar 2020
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Há um par de informações, ambas verdadeiras mas aparentemente contraditórias, sobre a COVID-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus descoberto na China, que está confundindo muita gente e dando margem a teorias de conspiração: uma, que se trata de uma doença leve, que o risco individual de complicações ou morte é muito baixo; que a maioria das pessoas que contrair o vírus provavelmente nem sequer apresentará sintomas.

A outra, que medidas de isolamento social, incluindo o cancelamento de espetáculos, eventos esportivos, viagens e aulas podem ser necessárias para conter a disseminação da doença. 

A aparente contradição se desfaz quando levamos em conta outro par de fatores: um, que o risco de complicações e morte é baixo, mas existe – e pode ser especialmente alto em certos grupos vulneráveis, como pessoas doentes ou idosos. Dois, que o vírus é muito eficiente em se espalhar. Tendo tudo isso em mente, podemos estabelecer o seguinte cenário:

 

A maioria das pessoas que contrai o vírus não apresenta sintomas ou só apresenta sintomas muito leves, como os de um resfriado comum;

Em condições normais (sem medidas de isolamento), essas pessoas continuam a circular normalmente, indo trabalhar, ao cinema, pegando ônibus, etc;

Ao fazer isso, elas aumentam as chances de o vírus chegar a outras pessoas, e a outras e a outras, até atingir aquelas que podem ser vulneráveis a complicações;

As pessoas vulneráveis contaminadas sofrem complicações, procuram hospitais e podem precisar de recursos escassos, como leitos de UTI;

Como o vírus se dissemina com muita facilidade, ainda que apenas uma pequena fração do público seja vulnerável, se permitirmos que ele circule desimpedido, incorremos no risco de sobrecarregar sistema de saúde: mesmo se apenas 0,5% da população sofrer complicações, 0,5% de 200 milhões (a população brasileira) ainda é 1 milhão, e não há 1 milhão de vagas de UTI no Brasil. Em 2018, o total era de cerca de 44 mil, sendo pouco mais da metade no SUS. E, claro, os diversos outros problemas de saúde que requerem UTI não deixam de existir só porque tem vírus novo na praça.

 

Esses pontos todos explicam o gráfico que vem circulando online, sobre a importância de “achatar a curva” do número de casos ao longo do tempo. Medidas de precaução (a principal delas, lavar bem as mãos) e contenção (evitar aglomerações de pessoas em lugares fechados) reduzem a velocidade com que o vírus se dissemina, o que faz com que menos pessoas precisem de atendimento médico a cada momento e reduz a pressão sobre o sistema de saúde. 

Repare que esse raciocínio todo é estritamente utilitário: nem leva em conta questões humanitárias e éticas, como o imperativo de proteger idosos e portadores de diversos problemas de saúde, como doenças cardíacas, de um contágio que, para eles, pode ser letal.

Assim, a aparente dissonância entre “parece que não é pior do que um resfriado” e “pode ser preciso cancelar eventos e fechar escolas” se resolve: a primeira frase vem da perspectiva de um cidadão jovem e saudável; a segunda, da visão do impacto social mais amplo, que considera não só a gravidade da doença para o organismo humano individual, mas também a velocidade e a facilidade com que se dissemina. 

Mais coisas a levar em conta

A situação brasileira é diferente da vivida nos países do hemisfério norte em pelo menos um aspecto: estamos no verão. As condições ideais para a transmissão desse tipo de vírus são as de clima frio, que favorecem aglomerações humanas em espaços fechados. Além disso, este coronavírus específico parece não resistir bem ao calor.

Ainda assim, restrições a reuniões e grandes eventos podem ser necessárias. Para citar o velho princípio de Paracelso, a diferença entre remédio e veneno está na dose. Uma vez que as autoridades se convençam de que é preciso adotar medidas de contenção, definir, de modo racional, a forma e a amplitude dessa contenção é importante.  

Simplesmente fechar escolas públicas talvez não seja uma boa ideia, já que isso priva crianças da merenda, por exemplo. E o timing também precisa ser considerado: por exemplo, medidas tomadas muito cedo podem acabar se prolongando demais. Nosso inverno ainda não chegou, afinal. Os impactos sociais e econômicos de medidas açodadas e mal planejadas também podem custar vidas.

Também vale a pena lembrar que existem epidemias “nativas” em curso no Brasil, como a de dengue, com quase 800 mortes em 2019, e que a falta de leitos em UTI no país já custa vidas mesmo em tempos normais.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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