Diagnóstico de câncer muda relação humana com o tempo

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5 jan 2020
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Deanna Ritchie/Unsplash

O tempo é relativo, e não me refiro aqui ao tempo de Albert Einstein, mas ao tempo de todos nós. O tempo daqueles que são jovens e saudáveis é dilatado e parece infinito, enquanto o daqueles com doenças graves, e poucas chances de cura, contrai-se e afunila, transformandoa visão da vida. Pensei nisso quando li, nos últimos dias de dezembro, o belíssimo texto do jornalista Gilberto Dimenstein , às voltas com um câncer de pâncreas e que diz que nunca se sentiu tão feliz. Quando o tempo se contrai e afunila, a vida se foca no presente e coisas que considerávamos importantes tornam-se irrelevantes ou ridículas. O texto de Dimenstein também me remeteu a “O Último Sopro de Vida”, do neurocirurgião americano Paul Kalanithi, que descobre um câncer de pulmão, justamente quando sua carreira está começando a decolar. 

Kalanithi escreve lindamente sobre o tempo e as decisões que esse tempo encurtado nos obriga a tomar. No caso dele, escrever um livro e ter um filho. Meu quase-irmão, Moacyr, também diante de um câncer de pâncreas decidiu usar o tempo que tinha – e foram quase 5 anos depois do diagnóstico – para criar boas lembranças para as duas filhas, Carol e Bela.  Minha amiga de Facebook, Patricia Moratto, com o mesmo câncer, dizia-me sempre: “vou viver até a última gota”. Sinto uma falta imensa de nossas longas conversas sobre morte e vida, sempre temporada com boas risadas de vida e de morte.

O tempo de quem tem um câncer agressivo ou difícil de tratar, o das pessoas com início de Alzheimer e outras formas de demência, o dos portadores de doenças crônico-degenerativas é cheio de decisões difíceis, não apenas sobre tratamento, mas sobre aquelas coisas que complicam a vida, como imposto de renda, deixar a papelada em ordem, decidir se vale a pena recorrer ou não a medidas extremas como ressuscitação cardíaca ou entubação, se lá pelas tantas houver uma parada cardíaca ou respiratória e, principalmente, como viver esse tempo que resta. Sim, é preciso falar sobre a morte, mas também sobre a vida.

Outra coisa me chamou atenção no texto do Dimenstein – e isso sempre me incomoda. Seu primeiro diagnóstico foi o de pancreatite, o mesmo que aconteceu por esses dias com a irmã de uma grande amiga. Essa mulher, que há poucos meses foi diagnostica com um diabetes repentino e glicemia altíssima, perdeu peso, passou a se queixar de dores abdominais intensas, com quadro de urina escura e fezes esbranquiçadas. Diagnóstico? Pancreatite. Um exame por imagem revelou que se trata de adenocarcinoma de pâncreas.

Tenho uma coleção imensa de histórias semelhantes, em que os sintomas apontam claramente para a possibilidade de um câncer, que passam completamente despercebidos pelos médicos. 

No início dos anos 60, havia aqui em casa um exemplar de “O Conselheiro Médico do Lar”, fartamente ilustrado, trancado a sete chaves para que a criança (eu) não ficasse impressionada. Eu li às escondidas, depois de aprender a abrir a fechadura com outra chave. Lembro até hoje da foto de um câncer de língua e de uma ferida provocada por antraz. 

E também me lembro do texto sobre os sinais de câncer: emagrecimento inexplicável, dores que não têm explicação, sangramentos idem, feridas que não cicatrizam, nódulos idem, hematomas que aparecem espontaneamente, pintas que crescem sem explicação, Em saúde, o que não tem explicação precisa ser investigado, examinado, pesquisado.

Mas, na maioria das nossas faculdades de medicina, câncer é tratado como uma doença rara, que aparece durante os seis anos do curso, aqui e ali, numa aula de gastro ou de pediatria, como exemplo de raridade ou curiosidade. Oncologia não é uma disciplina do curso regular, mas uma especialização. Significa que boa parte dos médicos que chegam ao mercado de trabalho desconhece os sintomas básicos da doença, o que pode levar a falhas graves no diagnóstico precoce, fundamental. Os médicos simplesmente não têm as bases para desconfiar que não se trata de gastrite, mas de câncer de estômago, de mera rouquidão, mas de câncer de garganta.

Nesse sentido, somos o contrário dos americanos, que sempre pensam no pior, o que também não é bom. Na medicina americana privatizada, pede-se uma batelada de exames para evitar futuros processos, tanto contra médicos como hospitais, o que encarece demais o sistema de saúde. Aqui, pensa-se em tudo, menos em câncer. 

A irmã de um colega de Estadão, fumante leve, passou três anos com uma dor no ombro “inexplicável” para os vários ortopedistas que consultou. Dois anos depois, perdeu a visão de um dos olhos e, como a família tem histórico de transtorno psiquiátricos, uma junta médica decidiu que o problema era “psicológico”. Dor no ombro é um sintoma clássico de câncer de pulmão, que tende a ter metástase de cérebro e, dependendo da localização desse tumor secundário, causar danos neurológicos como perda de visão. Um derrame a levou para a emergência e, no dia seguinte, quando o quadro se estabilizou, uma tomografia mostrou a causa: um tumor no cérebro do tamanho de uma bola de golfe, e os dois pulmões com nódulos cancerosos. Ela morreu depois de dois dias, deixando um filho pré-adolescente.

Penso constantemente nesses três anos sem diagnóstico correto, em como teria vivido, que decisões teria tomado a respeito do menino e de si mesma, como teria aproveitado esse tempo afunilado, se teria viajado para algum lugar especial, se teria passado mais tempo com a família e o filho, se teria se despedido dos que amava, se teria descartados as desimportâncias e os ridículos da vida e vivido até a última gota.

 

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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