A ética de Papai Noel

Apocalipse Now
19 dez 2020
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santa calus

 

Gostaria de propor, nesta última crônica pré-natalina, uma questão especialmente embaraçosa: qual deve ser a postura do cético racionalista diante de Papai Noel? Pior: qual deve ser a postura do cético racionalista que tem filhos pequenos? É um tema bom para simpósios em botecos. Dada a atual interdição dos simpósios e dos botecos, no entanto, convido o leitor a tratar esta página como uma mesa de bar (traga seu drinque favorito para diante da tela antes de prosseguir, a gente espera).

Faz alguns anos já que li “The Myths that Stole Christmas” ("Os Mitos que Roubaram o Natal"), do filósofo David Kyle Johnson. O livro apresenta alguns fatos já razoavelmente bem conhecidos: por exemplo, que os festejos do solstício de fim de ano (inverno no Hemisfério Norte, verão no Sul) nunca foram e nem são uma exclusividade cristã, que Papai Noel tem muito mais a ver com divindades pagãs como Pã e Odin e, até mesmo, com demônios como o Krampus, do que com sua “inspiração” mais citada, o bispo Nicolau de Mira, que teria vivido no século 4.

Alguns leitores talvez se lembrem do terrível filme “Krampus”, de 2015, sobre o demônio do folclore germânico que pune criancinhas malvadas no Natal. Como costuma acontecer quando o assunto é folclore, a história dessa figura meio-homem, meio-bode (no que lembra imagens clássicas de Pã e também de Satanás) é nebulosa e confusa. Às vezes o Krampus se confunde com Papai Noel (que até o início do século 20 também distribuía castigos, além de presentes, tradição que persiste ainda em algumas partes do mundo), às vezes aparece como assistente de Papai Noel; e às vezes o substitui por completo.

Numa curiosidade histórica, quando os fascistas chegaram ao poder na Áustria, na década de 1930, o Krampus foi proibido por lá (a canalhice altamente disciplinada costuma ter problemas com formas mais anárquicas de fazer o mal), mas um ressurgimento da apreciação pela figura tem sido vista neste século, com resultados pouco salutares.

A história de São Nicolau, ou Nicolau de Mira, também está amarrada a tradições folclóricas e mitos pré-cristãos. Segundo o “Dictionary of Saints” (Dicionário de Santos) da Universidade de Oxford, “a vida de Nicolau, a despeito de ele ser um dos santos mais venerados no Oriente e no Ocidente, é virtualmente desconhecida”. Sua sé episcopal teria sido a cidade de Mira, na Turquia, mas “tentativas de identificá-lo com um dos padres do Concílio de Niceia (no ano 325), que haviam sido presos durante a perseguição [de cristãos pelo imperador romano] Diocleciano, fracassaram por falta de evidência”.

Diversos dos milagres e episódios supostamente biográficos atribuídos a Nicolau pela tradição repetem, ou seguem de perto, episódios narrados na biografia de Apolônio de Tiana (15-100 EC), um filósofo pitagórico tido como mago e, por algum tempo, visto como concorrente de Jesus de Nazaré no mercado de líderes carismáticos do Mediterrâneo greco-romano. O “evangelho” de Apolônio é uma biografia fabulosa, recheada de eventos fantásticos, escrita por Filóstrato (170-250). Assim como Nicolau, Apolônio viveu na Turquia, o que sugere que os biógrafos do santo tinham acesso às narrativas a respeito do milagreiro pagão, fossem as inventadas diretamente por Filóstrato, ou derivadas delas pelo folclore local.

Sobre a metamorfose de Nicolau em Papai Noel, o “Dictionary of Saints” registra que “baseando-se, em última análise, no fato de Nicolau ser considerado padroeiro das crianças, bem como no costume de, nos Países Baixos, presenteá-las no dia de sua festa [o dia de S. Nicolau é 6 de dezembro], [Papai Noel] atingiu sua forma atual na América do Norte, onde protestantes holandeses de Nova Amsterdã [atual Nova York] juntaram-no às lendas do folclore nórdico de um mago que punia crianças malvadas e recompensava as boas com presentes”.



Presentes!

O livro de Johnson, no entanto, vai além desses mitos mais conhecidos. Seu alvo é, além da figura de Papai Noel, toda a mitologia, na verdade todo o senso-comum construído em torno das celebrações de fim de ano. Ele argumenta, por exemplo, contra o "mito" de que as compras desenfreadas de Natal são boas apara a economia – não são, diz ele, já que envolvem desperdício de recursos, endividamento irresponsável, e abuso do crédito – e ataca o caráter estressante e compulsório dos rituais de troca de presentes.

 

krampus

Quando ele define a compra de presentes de Natal como o ato de "gastar dinheiro que não temos comprando, para pessoas de quem realmente não gostamos, coisas que elas não querem e de que não precisam", torna-se impossível não pensar na enésima iteração do Amigo Secreto da firma.

A afirmação mais polêmica do livro, no entanto, deve ser a de que sustentar a crença das crianças na realidade de Papai Noel é imoral e pernicioso. Imoral porque é uma mentira pura e simples – e os pais não devem mentir para os filhos – e pernicioso por uma série de motivos que o autor vai enumerando.

 

Credulidade estimulada

O primeiro é que faz com que as crianças que realmente acreditam nos pais passem por idiotas: quando os coleguinhas que já perceberam que Papai Noel não existe se põem a humilhá-la, a criança que ainda confia na palavra dos pais se vê punida por sua devoção filial, e essa quebra de confiança entre pais e filhos pode ter consequências dolorosas (o livro cita alguns exemplos).

O segundo é que embota a bússola moral, inicialmente ao vincular virtude a recompensas materiais, e não a valores, e depois por contradição: a criança pobre e decente que vê o "bully" rico ganhar presentes fantabulásticos todo ano tende a acabar se perguntando o que diabo é "bom comportamento" afinal, e para que serve. O terceiro é que torna as crianças gananciosas e ingratas.

O quarto, e talvez mais importante para a comunidade cética, é que o reforço da crença em Papai Noel "adestra" as crianças para um hábito mental de credulidade e atrasa o desenvolvimento do senso crítico, já que, a fim de sustentar a ilusão, muitos pais acabam usando argumentos falaciosos para debelar as dúvidas razoáveis dos filhos. Uma criança que ouve dos pais que "se você quiser acreditar, ele existe" já está pré-programada para cair em engabelações como poder do pensamento positivo, curas quânticas e adjacências várias.

Johnson antecipa a objeção mais óbvia: "ei, mas são apenas crianças!". Em resposta, escreve: "Os anos formativos são os mais importantes (...) As lições que aprendemos na infância são as que ficam conosco. Cada lição ruim sobre pensamento crítico que uma criança aprende será exponencialmente mais difícil de desaprender (...) Não espero que garotos de quatro anos sejam pensadores críticos, mas digo que devemos dar lições de pensamento crítico, recomendar esse tipo de pensamento e encorajá-lo, pelo exemplo, desde cedo. Você não espera a criança saber falar para aí começar a ensiná-la a falar, e você nunca a encoraja a falar errado".

 

Exagero?

É fácil, suponho, admitir que as críticas de Johnson têm algum mérito, mas retrucar que são alarmistas e exageradas. Mas serão mesmo? Eu ainda me lembro de ter me sentido traído quando achei os presentes escondidos no fundo do armário, no dia 23 de dezembro, quarenta anos atrás.

Por outro lado, as objeções que eu até então vinha levantando contra Papai Noel na minha cabeça não eram muito diferentes das que tinha, ainda em forma embrionária, a respeito da mitologia cristã mais “séria”, e o choque de descobrir que elas eram, afinal, válidas no que dizia respeito ao Bom Velhinho talvez tenha aumentado minha confiança em sua aplicação ampla – que só veio meia década mais tarde.

Falando nisso, Johnson nota que a conspiração dos adultos para convencer as crianças da realidade de Papai Noel é mais forte, até, do que a paixão religiosa: outdoors dizendo que Deus não existe são até aceitáveis, ainda que polêmicos, afirma, mas propõe um experimento: tente pôr um cartaz na beira de uma estrada movimentada dizendo "Não existe Papai Noel". O autor aposta que nenhuma empresa aceitará a encomenda e, se o outdoor chegar a ser montado, seu criador correrá sério risco de acabar apedrejado na rua.

Tenho a impressão de que, nisso, ele está completamente certo.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

 

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