Alguém pergunta sobre numerologia e política...

Apocalipse Now
21 nov 2019
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Um leitor que acompanha meus artigos sobre astrologia procurou-me pedindo alguma ajuda para lidar com numerologia, ou mais precisamente, numerologia onomástica: a ideia de que a conversão do nome de uma pessoa em números revela algo sobe sua personalidade e destino. Aparentemente, circula por aí a alegação de que os presidentes do Brasil – atual e recentes – têm todos nomes que se reduzem a “números de poder”, como 1 e 8, e que isso é estranho demais para ser coincidência.

Um dos problemas que me foi apontado é o de que, como a numerologia reduz os nomes a um único algarismo, e cada algarismo tem uma interpretação individual, o caráter múltiplo e genérico que permite que mapas astrológicos criem a ilusão de conter alguma verdade não se aplicaria. Com signo solar, ascendente, lua, planetas, etc., cada um dizendo uma coisa e tudo interagindo, é difícil que, com uma ajudinha da imaginação e da boa vontade, nada se encaixe.

Uma das primeiras coisas que notei foi que a amostra formada por presidentes recentes não é, em si, significativa. Será que todos os 38 brasileiros que governaram o país, desde Deodoro, têm nomes que se reduzem a “números de poder”? E antes deles? Isabel, os dois Pedros, D. João VI, os governadores-gerais? E antes, ainda? E no resto do mundo? 

É um equívoco muito comum – que, em metodologia científica, costuma ser chamado de “double dip”, ou “mergulho duplo” – usar uma observação fortuita para, ao mesmo tempo, estabelecer uma hipótese e comprovar a hipótese. Se, ao ver meia dúzia de borboletas azuis, você especula que, talvez, todas as borboletas da cidade sejam azuis, é óbvio que esse grupo de borboletas original não pode servir de confirmação para a ideia que ele própria sugeriu. É preciso deixá-lo de lado e tratar de expandir o número de observações.

No caso da relação entre governantes e “números de poder”, fica aberta a necessidade de um grupo-controle: se todos os chefes de Estado do mundo tiverem nomes que se reduzem a tais números, o que isso significa? Muito pouco, se o número for prevalente, também, entre pessoas que nunca chegaram a postos de liderança. Saber que, digamos, 90% dos campeões mundiais de boxe eram destros não revela nada de especial, já que 90% da população em geral é destra.

Outra questão: de que tipo de numerologia, afinal, as pessoas que comentam os tais “números de poder” presidenciais estão falando? Diferentemente da astrologia, onde os atributos dos signos e planetas são mais ou menos consensuais e estáveis entre os praticantes, números têm interpretações mais variadas. 

No capítulo sobre misticismo de “Number: The Language of Science”, o matemático Tobias Danzig (1884-1956) descreve assim as características humanas dos algarismos, segundo a tradição pitagórica: “um representa razão; dois, opinião; quatro, justiça, por ser o primeiro quadrado”. Representar a razão talvez seja um atributo de poder, mas isso não parece claro. 

E, enquanto os pitagóricos viam quatro como símbolo de justiça, a alemã Annemarie Schimmel (1922-2003), especialista em misticismo islâmico, aponta esse número como símbolo da “transformação da natureza em civilização”, representante da ordem material, por associação aos quatro pontos cardeais, símbolo da forma do mundo. Na China e no Japão, quatro é um número funesto, ligado à morte.

E outro “número de poder”, o oito? Danzig silencia a respeito, mas Schimmel escreve que ele tende a ser considerado um “número afortunado”, por razões místico-religiosas: o oito é aquilo que está além dos sete planetas conhecidos na Antiguidade e na Idade Média. 

Digressão aritmética: o “Penguin Dictionary of Curious and Interesting Numbers” destaca o oito por ser o único cubo (8=23) menor do que um quadrado (9=32). Também por ser o único cubo na sequência de Fibonacci (ambos os resultados desprezam o 1, claro). O que isto tem a ver com numerologia? Nada, mas é um jeito de pôr alguma conversa racional sobre números neste artigo.

Por fim, cheguei ao sempre confiável Richard Cavendish (1930-2016), historiador britânico que, sem assumir uma postura ostensivamente cética quanto à eficácia (ou não) de seu objeto de pesquisa, produziu muito material descritivo, de boa qualidade, sobre aquilo em que acreditam os praticantes de magia e ocultismo.

Em “The Black Arts”, Cavendish tem um capítulo sobre numerologia em que 1 é identificado com firmeza de propósito e personalidades “poderosas, obstinadas, assertivas”. E o 8 “representa poder e dinheiro”. Ora! Então talvez a numerologia usada para “ler” os líderes políticos brasileiros use as mesmas regras descritas por esse historiador?

Mas, outra vez, problemas: aparentemente, existem (pelo menos) duas escolas de pensamento sobre como atribuir valores numéricos às letras de um nome, uma baseada na ordem do alfabeto romano e outra, na correspondência clássica entre números e letras encontrada nos alfabetos grego e hebraico. A segunda parece ter melhor pedigree, mas a primeira é mais universalmente usada, provavelmente por ser bem mais fácil. 

“Luiz Inácio Lula da Silva”, por exemplo, é um sólido 8 empoderado no método mais mundano, mas um reles 3, no clássico. Novo problema: as definições dos números não são tão claras quanto aparentam. O oito, por exemplo, inclui dinheiro e poder, sim, mas também “tem capacidade para enorme sucesso, contudo enfrenta a constante possibilidade do fracasso retumbante”. Resumindo, vai dar certo, mas pode ser que não. Começa, mesmo, a soar como astrologia.

Aliás, escrevi “reles 3”, mas na verdade os únicos números, segundo as descrições de Cavendish, que não embutem alguma promessa, ou algo que possa ser interpretado como uma promessa, de poder ou sucesso são dois e quatro. O três é um tipo carismático. O oito, rabugento. Lula poderia ser qualquer um dos dois, mas também um cinco (irrequieto, impaciente, gosta de viajar). E assim por diante. 

O Efeito Forer – descrições vagas que, no entanto, soam específicas e, com um pouco de imaginação, se encaixam em qualquer um – emerge aí, em toda sua glória. 

Cavendish ensina, ainda, que uma leitura numerológica completa deve envolver também contagens separadas de vogais (sua “personalidade oculta”) e consoantes, e levar em conta o equilíbrio numérico de cada nome: há dígitos sobrando ou faltando? Data de nascimento pode ser importante. 

Há, ainda, quem recomende fazer as contas não sobre seu nome legal completo, mas o nome que você usa no mundo – então talvez devêssemos ter feito as contas usando apenas “Lula”? ou “Lula da Silva”? “ex-presidente Lula”? Títulos não são comumente levados em conta, mas alguns cálculos sobre Hitler, por exemplo, usavam “Der Fuehrer”, porque era assim que o povo se referia a ele. Se fôssemos usar Bolsonaro como exemplo, seria “Bolsonaro”, “Jair Bolsonaro”, “Jair Messias Bolsonaro”, “Presidente Bolsonaro”? 

As semelhanças com o modus operandi astrológico só crescem: inúmeras interpretações, infinitas combinações, coincidências que se tornam inevitáveis à medida que os estudos e análises progridem.

Desnecessário dizer que, assim como a astrologia, a numerologia carece que qualquer base ou plausibilidade científica. Na verdade, um teste semelhante ao sugerido no início deste artigo foi realizado no Reino Unido em 1993, com resultados negativos.

O que dizer do interesse em numerologia ligado aos nomes de líderes políticos? Espero que as artes divinatórias não estejam ensaiando um retorno à esfera política, onde seu potencial para causar estrago é assombroso. No livro “Ancient Astrology”, a historiadora Tamsyn Barton conta como, durante o reinado do imperador Tibério, a elite romana temia uma espécie de (com o perdão do anacronismo) “gestapo astrológica”, dedicada a identificar e eliminar figuras proeminentes que tivessem um mapa astral em conflito com o do monarca.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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