Mediunidade e Facebook, tudo a ver

Apocalipse Now
12 out 2019
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Mão e caneta psicografando carta

Uma das atrações do programa Fantástico, da TV Globo, da semana passada foi a apresentação da denúncia de que o médium Fernando Ben usa o Facebook e outros recursos de busca online para levantar as informações que coloca em suas cartas psicografadas – isto é, cartas supostamente ditadas pelo espírito dos mortos.

As evidências de fraude apresentadas pelo programa da Globo incluem, além da sobreposição marcante entre o conteúdo dito psicografado e postagens de internet feitas por parentes e amigos do morto, coincidências entre equívocos presentes no mundo online (por exemplo, nomes digitados com erro de grafia) e o material produzido pelo médium sob a suposta inspiração dos “espíritos”. 

Ouvido pela reportagem do Fantástico, Fernando Ben nega qualquer intenção de enganar e diz que a interpretação correta das coincidências embaraçosas apontadas por seus detratores é um mistério, a ser resolvido por meio de fé. 

A resposta soa cínica, mas vamos fazer um exercício de imaginação aqui. E se Fernando Ben estiver cometendo algum tipo de erro honesto, comunicando-se não com os mortos, mas com alguma fonte extrassensorial de informação que engloba o conteúdo da internet, uma espécie de modalidade esotérica de “vácuo quântico” ou um “campo mórfico”? 

Antes que digam que estou forçando a barra, a ideia de que é possível destilar informações sobre os parentes (vivos e mortos) dos outros a partir de “energias quânticas”, ou “mórficas”, difusas no espaço, está na base da doutrina da constelação familiar, prática reconhecia pelo Ministério da Saúde como terapia integrativa e complementar. Resumindo: tem sim gente forçando a barra, e não sou eu.

Informação

Voltando a Fernando Ben, é tentador – cômodo, na verdade – encerrar o caso dele pelo valor de face e, como fez o Fantástico, traçar uma linha demarcatória entre médiuns “reais” e “fraudes”. 

Mas basta arranhar a superfície, levando em consideração tanto o apelo de Ben ao “mistério da fé” quanto o fato de que há quem considere a ideia de campos mórficos razoável – razoável o suficiente para gastar dinheiro público – e ver que uma pergunta fica em aberto: afinal, considerando o fator fé, o que seria evidência suficiente de falsa mediunidade? Ou, excluindo esse fator, de verdadeira mediunidade, por falar nisso?

Muito da discussão, já quase bicentenária, em torno das pretensões científicas de parte do movimento espiritualista/espírita (e da paranormalidade em geral, de fato) tem como fulcro o problema de controlar o fluxo de informação ou, como às vezes é chamado, da possibilidade de “vazamento sensorial”: de o médium saber o que sabe por meios normais e naturais, em oposição a meios paranormais ou espirituais. 

A “prova” se dá por exclusão, seguindo um modo de raciocínio indutivo conhecido como inferência para a melhor explicação: diante dos dados brutos “A”, “B”, “C”, etc., a melhor forma de contar uma história coerente, capaz de explicá-los, é aceitar como verdadeira a conclusão “Z”. 

Estabelecer que esse “Z” é algo de outro mundo, ou que exige uma reinterpretação radical das leis da física, está longe de ser uma tarefa trivial. Há mais de 100 anos, a psicóloga americana Amy Tanner já ensinava, em seu clássico “Estudos do Espiritismo”, que não é correto pressupor que a comunicação com os mortos seja uma explicação em pé de igualdade com hipóteses mais comezinhas (ainda que pouco lisonjeiras, como fraude): antes de acatá-la, é preciso excluir, cuidadosamente, todas as vias materiais e normais. 

Em 2015, um grupo de pesquisadores, financiado pela Fapesp, achou que havia conseguido fazer isso com algumas cartas de Chico Xavier, conclusão de que, humildemente, discordei.

Duplo-cego

Meses atrás, o New York Times noticiou detalhes de uma operação conduzida por céticos, nos Estados Unidos, para demonstrar que um médium popular naquele país realmente tirava as informações repassadas a seu público do Facebook. A Revista Questão de Ciência publicou um depoimento exclusivo da responsável pelo projeto, Susan Gerbic.

A operação conduzida por Gerbic tem semelhanças com a denúncia veiculada pelo Fantástico, mas o grupo americano também tomou precauções para evitar que o médium em questão, Thomas John, pudesse se refugiar na “fé” ou em algum suposto fenômeno paranormal como telepatia ou “campos mórficos”. 

Os detalhes estão no link dois parágrafos acima, mas resumindo: o grupo americano criou uma série de perfis falsos no Facebook, representando pessoas inexistentes, e depois enviou gente, que se fazia passar pelos personagens fictícios dos perfis, para conversar com o médium. 

O toque de gênio: os “agentes secretos” conheciam apenas dados elementares sobre o que estava nos Facebook. Assim, qualquer informação mais detalhada que John oferecesse seria ou um chute de sorte, ou teria sido levantada diretamente dos perfis falsos. 

Nenhuma desculpa do tipo “li sua mente” ou “captei isso do campo quântico” iria colar porque, no primeiro caso, as pessoas que fingiam ser os donos dos perfis não sabiam nada que o médium pudesse “ver” em suas mentes (exceto o fato de que eram fraudes, mas isso ele não notou); no segundo, porque os donos dos perfis e seus supostos parentes mortos não existiam, logo não haveria nada no “campo” para John captar (exceto, mais uma vez, a informação de que estava sendo engabelado). O esquema era duplo-cego!

Macetes da profissão

Claro, como o caso das cartas de Chico Xavier, citado acima, bem exemplifica, videntes e médiuns já impressionavam seus clientes com informações altamente precisas e “impossíveis” antes de o mundo ser tomado de assalto pelas redes sociais e as pessoas decidirem que não há nada de mau, bizarro ou perigoso em compartilhar seus pensamentos e emoções mais íntimos com milhares ou milhões de desconhecidos. 

Historicamente, as técnicas mais utilizadas recebem os nomes de leitura quente leitura fria

A leitura fria é uma forma de arte: consiste em usar um mínimo de bom-senso (“sua mãe te ama”), em “sacar” alguns detalhes fundamentais sobre o cliente (prestando atenção nas roupas, idade, linguagem, trejeitos) e, a partir daí, conduzir a conversa de forma a pescar o máximo de informação possível – informação que depois será devolvida ao consulente, junto com doses cuidadosas de especulação razoável, sob a forma de revelações espirituais, astrológicas, numerológicas, etc.

Para quem quiser se aprofundar, The Full Facts Book of Cold Reading, do mágico mentalista britânico Ian Rowland, vai do bê-á-bá da técnica a algumas aplicações avançadas. Outro livro, Psychic Blues: Confessions of a Conflicted Medium, do mágico (e ex-médium) americano Mark Edward, é a autobiografia de alguém que durante anos ganhou a vida dessa forma.

Já leitura quente é pesquisar a vida do cliente e, em condições ideais, ter um relatório a respeito lido e memorizado antes que ele entre no consultório. Arthur Ford, um médium que fez sucesso na televisão americana no fim dos anos 60, meditava “lendo poemas” antes de receber clientes. Informações sobre os “espíritos” que ele deveria receber durante a sessão estavam escondidas entre as páginas dos livros de poesia.

Outros truques comuns incluem espalhar comparsas do médium na sala de espera ou na fila de entrada do evento, para puxar conversa com as pessoas que esperam ser atendidas e levantar alguma informação.

O Facebook é apenas a ferramenta mais recente (e poderosa) desse instrumental. Outro médium americano arrependido, M. Lamar Keene, conta em seu livro The Psychic Mafia como igrejas e centros espiritualistas, nos Estados Unidos, montam e trocam dossiês sobre seus fiéis e clientes. Quando um médium ou vidente de expressão local encaminha um consulente para algum figurão de fama nacional, uma ficha detalhada viaja em paralelo.

Com tudo isso em mente, e levando em consideração o princípio de Amy Tanner – é preciso eliminar todas as explicações normais antes de abraçar o extraordinário – fica difícil estabelecer condições suficientes, além de fé pura e simples, para que uma psicografia, ou qualquer outro tipo de fluxo de informação sobrenatural, possa ser levada a sério. Nesse aspecto, a defesa apresentada por Fernando Ben é perfeita.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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