Em quê o brasileiro confia, quando diz que confia na ciência?

Apocalipse Now
23 ago 2019
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Retrato de alquimista

A Câmara de Vereadores de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, houve por bem homenagear o ufólogo e empresário Urandir Fernandes, autor de um vídeo que propõe demonstrar que a Terra não é nem redonda e nem plana, mas côncava, com o título de cidadão campo-grandense.

O mesmo Urandir, que obteve fama nacional em 2010, ao apresentar o ET Bilu ao povo brasileiro em rede nacional de TV, já havia sido homenageado pela Assembleia Legislativa do MS  no ano passado, em “reconhecimento pela realização de pesquisas em diversas áreas do conhecimento como matemática, física, física quântica, astronomia, geologia, biologia, geografia e paleontologia” (o trecho entre aspas é uma citação direta da justificativa publicada pela Assembleia). 

A homenagem estadual atraiu moção de repúdio  do Instituto de Física da Universidade Federal do MS, que se viu constrangido a reafirmar os fatos fundamentais da ciência. Na época, o empresário disse à imprensa que, além de revolucionar a geografia e a astronomia, estava avançando também em pesquisas para a cura do câncer

Mais ou menos ao mesmo tempo em que os vereadores de Campo Grande decidiam  prestar sua homenagem ao empresário, e na mesma cidade, eram apresentados, durante reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os resultados da mais recente pesquisa sobre percepção pública da ciência – que busca medir o que os brasileiros pensam (ou dizem que pensam) sobre a ciência e os cientistas.

Os números do levantamento, conduzidos pelo Centro de Gestão e Estudos  Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) foram recebidos na SBPC como, em geral, uma boa notícia, a despeito da queda na visão positiva que a sociedade tem dos cientistas: a proporção de entrevistados que diz acreditar que pesquisadores são “pessoas inteligentes que fazem coisas úteis à humanidade” caiu de 52%, em 2015, para 41%, agora.

Mais ênfase foi dada a números que sugerem que a população gostaria de ver ampliados os investimentos públicos em ciência (66% concordam), e ao resultado de que 15% dos brasileiros consideram que os cientistas são fontes de informação altamente confiáveis, diante de apenas 1% que veem os pesquisadores como muito pouco confiáveis. O balanço entre os dois números gera um índice de confiança bem alto – põe os cientistas como o segundo grupo mais “confiável” aos olhos da sociedade, atrás apenas dos médicos.

Mas se o cientista é uma figura altamente confiável que trabalha pelo bem da humanidade, quem é o cientista? Quem veste esse manto? Aqui, o copo meio cheio que se tentou apresentar na reunião da SBPC escapa das mãos, dá duas piruetas no ar, bate no chão e se arrebenta com estrondo ensurdecedor: o brasileiro vivo mais identificado como “cientista” pelo público foi, senhoras e senhores, o dublê de ministro e palestrante motivacional Marcos Pontes.

Aos números: 90% dos brasileiros não se lembram ou não sabem apontar um cientista nacional; e 88% não se lembram ou não sabem indicar instituição brasileira de pesquisa científica. O que se traduz no fato de que 90% dos brasileiros nem sequer desconfia de que as universidades públicas produzem ciência, e de que a maioria dos professores dessas universidades são cientistas. Mas Marcos Pontes é. E, ao menos segundo os parlamentares do Mato Grosso do Sul, também é o senhor Urandir. 

Uma digressão. Dias atrás, estive numa mesa redonda sobre comunicação da ciência no campus de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Um dos outros membros da mesa era um jornalista local – não um jornalista de ciência, mas um jornalista, ponto. 

Jornalista generalista que, por atuar no interior do estado e numa região onde há diversos campi universitários (Unesp em Araraquara, USP e Federal em São Carlos), tem de se desdobrar para falar com o delegado de polícia pela manhã, a respeito do assalto ao posto de gasolina, e com o professor doutor de física à tarde, sobre o mais recente trabalho num laboratório de lasers.  

Senti identificação imediata: vinte e muitos (quase trinta) anos atrás, eu também era um jornalista genérico do interior paulista. E ser genérico é talvez um dos grandes prazeres da profissão: transitar da favela ao palácio, da delegacia ao laboratório, tentando construir uma linguagem comum a todos, que possa costurar o tecido social, é um barato (ainda se diz assim, “um barato”? ou a palavra só é usada hoje em referência aos efeitos de drogas ilegais?).

Outra característica da atuação generalista é que ela mantém o repórter muito próximo do sentimento popular, do que é o senso-comum, o espírito dos tempos de sua área de cobertura. Para mim, portanto, foi um choque e, ao mesmo tempo, uma lição importante quando o colega de Araraquara mencionou a comoção em torno da fosfoetanolamina sintética – a falsa cura do câncer, promovida pelo falecido professor da USP-São Carlos Gilberto Chierice – como um momento de apoio popular à ciência nacional.

Passado o choque, não foi difícil entender como a questão poderia ser encarada sob esse ângulo: havia um cientista brasileiro (Chierice) que por algum tempo foi abraçado como herói por setores significativos da população, por causa de uma suposta descoberta científica (a “cura” do câncer). Nesse contexto, os fatos de que o trabalho de Chierice com a “fosfo” não era nada científico, e de que a população reagia a uma quimera e falsa promessa viravam mero ruído de fundo – “controvérsia”. 

Assim – se o cientista mais reconhecido do Brasil é o ersatz Marcos Pontes; se o senso-comum aponta Gilberto Chierice como bom exemplo de cientista; e homenagens públicas são dirigidas às “pesquisas” de Urandir Fernandes, em quem o brasileiro realmente confia quando diz que confia em cientistas? E o que o brasileiro realmente apoia, quando diz que apoia a ciência?

A autoridade epistêmica da ciência – a noção de que o que cientistas dizem deve ser levado a sério porque, em geral, eles sabem do que estão falando – é hoje, aos olhos da população, um fetiche, uma espécie de espada mágica que qualquer um vestindo um jaleco (ou fantasia de astronauta), com um diploma na parede ou apenas uma boa lábia, pode tirar da pedra. 

O fato de que essa visão mágica, quase supersticiosa, da ciência pode fazer muito bem ao ego do pessoal que não tem mesmo nada mais a apresentar, além do jaleco e do diploma, não deveria nos cegar para o lado sinistro da situação.

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Antes de se dar tapinhas nas costas em congratulação pela boa imagem pública da ciência, a comunidade acadêmica talvez devesse conferir a quem, exatamente, essa boa imagem vem servindo.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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