Ajuste fino, ou a filosofia da poça d'água

17 out 2020
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twilight zone

 

O artigo que escrevi, no feriado do dia 12, sobre a “teoria” do design inteligente (TDI) levou algumas pessoas a discutir, nas redes sociais, um tema correlato, o do suposto “ajuste fino” das leis da Natureza e das constantes da física – “ajuste” que, vai o argumento, torna o Universo capaz de produzir e sustentar formas de vida como nós.

Por motivos não muito claros, um tipo de “criacionismo cósmico” que flerta com o misticismo parece atrair alguns físicos e cosmólogos de destaque. Freeman Dyson (1923-2020), por exemplo, foi por algum tempo uma espécie de “físico de estimação” da galera criacionista, por ter dito coisas gentis a respeito da TDI. Fred Hoyle (1915-2001) foi, ainda que de forma velada, acusado de criacionismo nas páginas da Nature.

Confesso que tenho alguma dificuldade em entender por que algumas pessoas, incluindo cientistas que jamais aceitariam o criacionismo bíblico, parecem cair com tanta facilidade na esparrela do “ajuste fino”. Parafraseando Sherlock Holmes, se de uma gota d’água é possível inferir um oceano, do “ajuste” é possível inferir um “ajustador” ou (pausa dramática, entra a trilha de “2001- Uma Odisseia do Espaço”) um designer.

A questão em si sempre me pareceu um caso de olhar pelo lado errado do microscópio (ou telescópio). Não é o Universo que é adaptado para nós, nós é que somos adaptados para ele. O biólogo Peter Medawar (1915-1987) tinha uma metáfora ótima para isso: o ser humano que se admira de o mundo ser adequado para a vida humana é como uma poça d’água a admirar-se de o buraco no chão onde se encontra ter a forma e o volume exatos, até a décima casa decimal da menor fração de mililitro, para contê-la.

Quem se preocupa com o “problema” do ajuste fino responde que um pré-requisito para isso tudo é o Universo dar à vida a oportunidade de surgir e adaptar-se, e há inúmeras combinações imagináveis de leis e constantes – como a fórmula da atração gravitacional ou a massa do elétron – que nem essa chance inicial fornecem. Citando Dyson, em seu livro “The Scientist as a Rebel” (“O Cientista como um Rebelde”):

“Nossa forma de vida foi capaz de adaptar-se ao Universo em que surgiu, mas não existe jeito de uma forma de vida adaptar-se a um Universo que desmoronou numa singularidade incandescente de espaço-tempo antes de ter tempo de dar à luz estrelas e planetas, ou a um Universo que se expandiu num gás diluído e gelado antes de parir átomos mais pesados do que o hidrogênio”.

Uma tréplica possível é: “e como você sabe?”. O argumento é perfeito para vida tal como a conhecemos, mas quem disse que essa é a única possibilidade? Se vamos especular sobre leis da física alternativas, que tal algumas que permitam a evolução de seres vivos baseados no tipo de matéria esquisita que há de existir dentro de uma singularidade?

Mandando meu lado escritor de ficção científica de volta para a aposentadoria, no entanto, chamo atenção para o fato de que os universos catastróficos descritos também não permitiriam o surgimento de inúmeras outras coisas.

Presumir ajuste e tratar vida (vida humana, em particular) como o alvo do ajustador é filosofar como a nossa amiga poça d’água. Um universo inviável para a vida (como a conhecemos) também é inviável para um monte de outras coisas (como as conhecemos): asteroides, moléculas de metano, flocos de neve, em alguns casos, até luz visível. Se pusermos de lado a presunção biocêntrica e a vaidade humana, veremos que o argumento “o Universo precisa ser extremamente bem ajustado para conter vida” faz tanto sentido quanto “o Universo precisa ser extremamente bem ajustado para conter granito”. O que pode até ser verdade, mas, sério, e daí?

Os proponentes do ajuste fino podem, é claro, insistir: “O granito nos impressiona muito! Qual a probabilidade de o Universo ser exatamente este, e não outro, sem granito?” Aqui chegamos a uma questão filosófica e matemática complicada, a avaliação de probabilidades envolvendo fatos consumados. O Universo que temos é este, logo a probabilidade de ele existir é 1, ou 100%.

E mesmo se a probabilidade prévia de o Universo ser assim como é for muito baixa, eventos altamente improváveis acontecem: o maior prêmio da Mega-Sena já pago, a Mega da Virada em 2017, teve 17 bilhetes premiados, todos os quais acertaram a mesma combinação numérica única entre 50 milhões de possibilidades.

Para tentar estimar a probabilidade, anterior ao próprio Universo, de haver um Universo que contém granito, precisamos de três dados que simplesmente não temos – o número de opções (quantos Universos são logicamente possíveis), o número de tentativas (quantos Universos efetivamente existem, ou quantas vezes o Universo veio a existir) e o número de opções bem-sucedidas (quantos dos Universos possíveis suportariam a formação de granito).

Esses números são (não custa repetir) desconhecidos, então, a rigor, todo papo a respeito de qualquer coisa que dependa deles tem tanta relação concreta com a realidade quanto conversa de botequim sobre se existem unicórnios azuis na galáxia de Andrômeda. Mas ponhamos isso de lado por um momento.

A maioria dos fãs do ajuste fino pressupõe, de modo consciente ou não, que o primeiro número desconhecido (Universos possíveis) é muito grande, o segundo (Universos existentes ou tentados) é qualquer coisa diferente de zero e o terceiro (Universos com granito e/ou vida) é exatamente igual a um. De fato, toda a conversa do “ajuste fino” depende dessas premissas.

Em seu divertido livro “What Does a Martian Look Like” ("Com o que um Marciano Se Parece"), o matemático Ian Stewart e o biólogo Jack Cohen (1933-2019) referem-se a esse ponto de vista como “enganoso, de fato errado, de fato completamente tolo”. Eles explicam com uma metáfora usando automóveis, mas vou adaptar para naves espaciais.

Imagine um ônibus espacial, a máquina mais complexa já criada pela humanidade. Cada uma das peças é perfeitamente adaptada ao conjunto. Se apenas um dos parafusos fosse um pouco mais curto, a nave não voaria ou, pior, explodiria no lançamento ou no retorno à Terra. Mas, e este é o argumento central de Cohen e Stewart, isso não significa que ônibus espaciais são o único tipo de veículo concebível para levar pessoas à órbita terrestre: temos as cápsulas Soyuz. As naves Dragon. Tivemos os projetos Apollo, Mercury. O programa espacial chinês...

Do mesmo modo que existem inúmeros modelos concebíveis de veículo capaz de chegar ao espaço, cada um com suas partes e peças específicas, nada impede que existam inúmeros Universos concebíveis capazes de suportar algum tipo de vida (perdão, granito), cada um com suas leis e constantes físicas peculiares. Para contemplar esse espaço de possibilidades, basta permitir que diversas constantes e leis físicas variem juntas, em vez de cravar todas e fazer com que apenas uma mude, que é o procedimento padrão dos “ajustistas”.

O que nos traz de volta à soberba da poça d’água de Medawar, que também pode se imaginar única e exclusiva, o resultado de uma combinação mágica de largura, profundidade, constantes físico-químicas, temperatura e pressão atmosférica. E perguntar-se, maravilhada: qual a chance de tantas condições tão delicadas manifestarem-se exatamente aqui, e agora?

Pois é. Qual?

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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