Comissão do Senado aposta em negação da ciência

Editorial
16 jul 2019
Roleta de cassino

É bastante comum que a história da ciência seja contada por meio das histórias de grandes cientistas: Isaac Newton. Charles Darwin. Marie Curie. Jocelyn Burnell. Carlos Chagas. Embora essa abordagem possa render grandes filmes e minisséries, além de algumas biografias fantásticas, ela põe em segundo plano (quando não deixa totalmente de fora) um dos aspectos mais importantes da ciência: seu caráter coletivo e social.

Nenhuma das figuras geniais citadas no parágrafo acima seria mais do que uma nota de rodapé na história da ciência se seus insights brilhantes, seus experimentos elegantes, suas hipóteses ousadas ou suas alegações revolucionárias não tivessem sido testados, examinados e criticados por uma comunidade de pares – e sobrevivido ao processo.

Falamos nas leis do movimento “de Newton” ou na evolução “de Darwin”, mas esses são meros honoríficos, indicadores históricos: as leis são da comunidade global dos físicos e dos engenheiros, das gerações e gerações que as testaram e testam-nas ainda, cada vez que planejam um voo à Lua, erguem um prédio, balançam um pêndulo. Assim como a evolução é das gerações de biólogos, paleontólogos, agrônomos, que a põem à prova cada vez que selecionam sementes, estudam genes, analisam fósseis.

O baú das ideias abandonadas, que não viraram “leis” ou “teorias” porque não sobreviveram ao teste da comunidade de pares, contém curiosidades e becos sem saída como os “Raios N” ou a memória da água.

Nesse aspecto, faz sentido dizer que a ciência é “socialmente construída”, mas não da forma que a moçada pós-moderna imaginava. Como escreve a filósofa Helen Longino, “a objetividade da pesquisa científica é uma consequência do fato de que essa pesquisa é uma empreitada social, não individual”. 

A razão é simples: o cientista individual pode estar errado, pode ser vítima (inconsciente ou não) de preconceitos, paixões e interesses que o levam a ignorar ou distorcer a evidência. A atitude científica é a de desconstruir crenças com base na evidência empírica. Mas cada um de nós pode ser alvo de vieses que prejudicam nossa capacidade de reconhecer ou interpretar a evidência.

Porém, as pressões e preferências que distorcem as conclusões deste cientista podem ser muito diferentes das que atuam sobre aquele, que vive em outro país, tem outra etnia, um gênero diferente. Sendo plural e universal, a comunidade científica é muito menos vulnerável a vieses e interferências do que qualquer homem ou mulher isolado. 

Por tudo isso, o consenso da comunidade científica geralmente representa o mais próximo da verdade objetiva a que o ser humano pode chegar.

É possível encontrar exemplos de momentos históricos em que o consenso esteve errado? Claro que sim. Mas também é possível encontrar exemplos de pessoas que quebraram a banca do cassino de Monte Carlo: a Wikipedia registra quatro casos desde a inauguração da casa de jogos, em 1863. Também existem pessoas que passam incólumes por relâmpagos. O Livro Guinness dos Recordes reconhece o americano Roy Cleveland Sullivan como o homem que foi atingido por raios sete vezes, e sobreviveu a todas. Mas esses casos excepcionais, pinçados a dedo, não mudam em nada o fato de que jogos de azar são extremamente eficientes em esvaziar – não encher – a carteira dos jogadores, e de que descargas elétricas intensas fazem muito mal à saúde. 

É irresponsável e irracional construir planos e políticas em cima de excepcionalidades históricas e eventos raros. Não é racional tentar multiplicar as economias de uma vida apostando-as na roleta: o risco de perder tudo é astronomicamente maior. Também não é seguro desprezar os riscos de uma tempestade elétrica. Do mesmo modo, não faz sentido apostar contra o consenso científico e desprezar riscos apontados pela comunidade global de especialistas, quando há vidas e propriedades em jogo. 

Que é exatamente o que fazem as autoridades públicas que se fiam no negacionismo do aquecimento global causado pela atividade humana. 

Recentemente, foi divulgado que a Comissão de Relações Exteriores do Senado fará um seminário com negacionistas da mudança climática. Esta publicação já tratou do assunto do aquecimento global antropogênico em outras ocasiões (por exemplo,aquiaqui), e sugerimos que o leitor interessado em rever os fatos da questão tire alguns minutos para consultar o material dos links oferecidos.

(Uma nota sobre terminologia: o serviço de comunicação do Senado refere-se aos cientistas convidados como “céticos da mudança climática”, mas o termo correto é “negacionistas”. Um “cético” é alguém que espera evidência antes de formar uma opinião; um “negacionista” é alguém que já tem uma opinião calcificada e está disposto a negar toda e qualquer evidência contrária à sua tese do coração. Há pelo menos uma década que não há mais espaço para ceticismo legítimo no caso da mudança climática.)

Esta publicação, assim o Instituto do qual faz parte, sempre defendeu e defende que autoridades eleitas deem ouvidos a cientistas e especialistas, antes de tomar decisões sobre temas em que a ciência e o conhecimento especializado têm contribuições importantes a dar. É, portanto, com um senso agudo – e amargo – de ironia que nos vemos na obrigação de denunciar o seminário do Senado como uma pantomima, um ato de propaganda ideológica fantasiado de informação sobre ciência, às custas do contribuinte.

Trata-se de uma manobra para dar visibilidade e plataforma a posições insustentáveis do ponto de vista científico – a ideias que, confrontadas pela crítica da comunidade universal dos especialistas, a mesma comunidade que garante a objetividade da ciência, foram rejeitadas, mas que ainda agradam a certos ouvidos e, principalmente, interesses.

Quem tem alguma familiaridade com a história da ciência logo reconhece o padrão do pesquisador que, incapaz de convencer os que entendem do assunto tanto ou mais do que ele, passa a pregar para os leigos. Da fusão a frio à fosfoetanolamina, os resultados são sempre os mesmos: alvoroço na opinião pública e resultados nulos.

O caráter farsesco do “seminário” proposto é reforçado por sua unilateralidade: se uma comissão do Senado Federal acha que deve ouvir vozes que se opõem ao consenso científico – sem que seus membros disponham da competência técnica necessária para julgar os argumentos que serão apresentados – o mínimo que a honestidade intelectual exige é a presença de alguém capaz de fazer a crítica desses argumentos, para melhor instruir os legisladores. 

Há no Brasil (sem, portanto, a necessidade de onerar o erário com passagens aéreas internacionais) cientistas de renome plenamente capazes de desempenhar este papel. Mas nenhum deles consta da lista de convidados.

Essa notável omissão apenas torna mais evidente o caráter propagandístico da iniciativa: de oferecer a pesquisadores, cujas teses são inconsistentes demais para convencer os pares, a oportunidade de confundir os brasileiros.

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