Quando chega a hora de dizer “basta”

Editorial
3 abr 2019
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Ilustração de livro de alquimia

As opiniões expressas no parágrafo abaixo não correspondem, de modo algum, à realidade:

"O médico colombiano, Dr. Roberto Giraldo, trabalhou nos Estados Unidos 20 anos, trazendo-nos a ideia de Béchamp (França), Enderlein (Alemanha) e Claude Bernard (França) sobre a inexistência de bactérias nos glóbulos sanguíneos, mostrando que só tem servido para aumentar o lucro dos Laboratórios ao se ensinar, invertidamente, que as doenças viriam do ambiente externo (bacilos) — e não que esses elementos patológicos sejam ocasionados pelos sentimentos ruins do interior do ser humano. Em minha pesquisa mostro que toda a ideia da Medicina, de ver a doença vinda de fora, constitui um desvio da verdadeira realidade."

A peça de fantasia acima é apresentada – como fato indisputável – num jornal que é distribuído gratuitamente em diversos pontos da cidade de São Paulo, e que também pode ser encontrado online, aqui. Usamos o excerto para introduzir e contextualizar este editorial, que tem o objetivo explicitar qual o limite acreditamos que deve haver, se algum, para a aceitabilidade de temas e disciplinas nas universidades públicas, financiadas pelo dinheiro do cidadão.

Recentemente, recebemos uma manifestação acerca do editorial "O escândalo da pseudociência na universidade pública". Esta revista não tem seção de cartas ou comentários abertos nos textos que publica. Adotamos esta política por considerar que debates em caixas de comentários tendem a gerar mais atrito do que esclarecimento, e consomem uma energia melhor utilizada para outros fins. Além disso, a internet é grande o suficiente para que vozes discordantes se apresentem e ocupem seus próprios espaços.

O texto recebido, que discorda – de forma inteligente, educada e ponderada – do editorial, discorre sobre o chamado problema filosófico da demarcação (como separar ciência de pseudociência) e termina por defender que "a universidade deve ser aberta a todas as vozes".

Martin Gardner (1914-2010), talvez o primeiro grande polemista a dar combate à infiltração social das pseudociências no século passado, já dizia que ciência e pseudociência parecem existir numa espécie de contínuo, onde os extremos (digamos, astronomia de um lado, o terraplanismo do outro) são bem marcados, mas com diferentes gradações pelo caminho e muita confusão ao centro.

Não precisamos, porém, de um consenso filosófico, que dificilmente será alcançado, para adotarmos uma atitude pragmática a fim de decidir o que deve ser ensinado na universidade pública.

A partir do momento em que reconhecemos que uma série de recursos indispensáveis – verbas, professores, horas/aula; a atenção, o tempo e a paciência dos alunos – existem sob um estrito regime de escassez, e que a universidade pública, por ser universidade e pública, tem responsabilidades inescapáveis tanto sobre o uso desses recursos quanto sobre o impacto social do que faz, aceita e legitima, a questão da “demarcação do currículo” assume um caráter eminentemente prático.

Imaginamos que seja pacífico que a doutrina exposta no início deste editorial, de que todos os males, inclusive os de natureza infecciosa, são psicossomáticos e de que os micro-organismos patogênicos não passam de mentiras e ilusão, certamente deve ficar de fora dos currículos de medicina e biologia. Mas, por quê? Não é necessário manter sempre a mente aberta? Sugerimos dois motivos.

Primeiro, porque a teoria dos germes já está suficientemente bem embasada. Embasada, como? O número de tecnologias bem-sucedidas que dependem logicamente dela (vacinas, antibióticos, antissépticos, processos industriais de fermentação, etc.) é enorme; a quantidade de observações independentes dando conta da existência de micróbios e da presença de micro-organismos em doenças como sarampo, aids ou gripe é incontável; a coerência com resultados de outras áreas de conhecimento, como a física e a química, é perfeita.

Segundo, porque o impacto social da notícia de que uma universidade pública de prestígio decidiu levar a sério – e ensinar – a hipótese de que micróbios não existem e, portanto, não podem causar doenças seria inominável. De repente, todos os princípios fundamentais da higiene e do saneamento básico entrariam em questão, na mídia e nos meios políticos.

Esses fatos não fazem da teoria dos germes um dogma; toda verdade científica é essencialmente provisória. Mas o que está em questão no momento não é o status filosófico da teoria dos germes das doenças infecciosas. O que está em jogo é o dispêndio racional e responsável de recursos públicos escassos; entre eles, do capital de reputação de entidades que o público acostumou-se a respeitar e a levar a sério.

Sob essa óptica, afirmamos que a evidência acumulada é suficiente para determinar que a teoria dos germes merece ser ensinada nas universidades públicas e a alternativa, não – ou, se for, apenas como curiosidade histórica.

Usando esse critério de corte, onde ficam as Práticas Integrativas e Complementares (PICs) de saúde? Muitas delas, como as diversas modalidades de terapias “energéticas”, apelam para o vitalismo, a ideia mística de que a vida e a saúde seriam uma espécie de fluido que pode ser canalizado e redistribuído por gestos e procedimentos mágicos ou quase-mágicos.

Afirmamos que a aplicação de recursos escassos no ensino (e “pesquisa”) de base vitalista configura desperdício, se não malversação, desses recursos. Além disso, a aceitação implícita desses princípios pela universidade tem o potencial de gerar efeito semelhante, em certos setores da sociedade, ao da hipotética negação da teoria dos germes. Estudo internacional mostra que a adesão a práticas “complementares” compromete a sobrevivência de pacientes com cânceres curáveis.

 A homeopatia, para ficar num exemplo que parece ser especialmente popular, depende, ainda mais do que a teoria da inexistência dos germes, de uma violação radical de princípios da física, da química e da biologia assentados em sólidas massas de evidência: a ideia da cura pelos similares e a de que diluições seguidas de uma substância ganham poder de cura, até o ponto em que moléculas de água, impossíveis de distinguir, por qualquer método analítico, das que saem da torneira, são vistas como remédios poderosos para problemas de saúde específicos.

Além disso, 200 anos de esforço em busca de efeitos específicos atribuíveis aos medicamentos homeopáticos – em oposição ao efeito placebo produzido pelo modo atencioso e carinhoso com que os homeopatas tradicionalmente recebem seus pacientes – não geraram nenhuma evidência positiva convincente, mas uma enorme quantidade de evidência negativa, como apontam por exemplo, este levantamento, e este outro.

No mundo concreto de responsabilidades e escassez, dois séculos de mãos vazias, somados à implausibilidade fundamental das premissas, deixam claro que o lugar da doutrina é nas aulas de história da ciência – não nas de prática médica.

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