Os omissos, os célebres e João de Deus

13 dez 2018
Editorial
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O mágico James Randi demonstra o truque da "cirurgia espiritual"
O mágico James Randi demonstra o truque da "cirurgia espiritual"

Conhecido e aclamado internacionalmente, João de Deus já foi também denunciado e exposto, tanto pela mídia internacional  como nacional, várias vezes. Os supostos poderes de cura do autoproclamado médium já atraíram celebridade e presidentes, e um número sem fim de pessoas comuns, nestes 40 anos de exercício da profissão, na cidade de Abadiânia, Goiás. Lá, João Faria, que se intitula – e certamente acredita ser – “de Deus”, atende em uma casa que lembra muito um hospital.

O médium pratica operações espirituais, que podem ser visíveis ou invisíveis. Nas visíveis, que são muito impressionantes, munido de uma bandeja de instrumentos cirúrgicos muito parecida com a que vemos em filmes e hospitais de verdade, João faz cortes, “extrai tumores”, introduz fórceps pelas narinas dos pacientes e bisturis diretamente em seus olhos, provocando reações de espanto e admiração de sua plateia.

Todos esses procedimentos incríveis e impressionantes são, para quem os assiste, idênticos a truques circenses ordinários, alguns dos quais descritos pelo mágico Harry Houdini (1874-1926), um notório expositor de charlatões, há quase cem anos no livro Miracle Mongers and Their Methods (“Mercadores de Milagres e Seus Métodos”).

De fato, qualquer mágico competente é capaz de produzi-los, como já foi demonstrado por especialistas e investigadores como os americanos James Randi (na foto acima) e Joe Nickell, ambos mágicos treinados. Aqui no Brasil, o programa Fantástico, em 2012, também apresentou uma visão parcialmente crítica.

Mas nada que se compare ao programa de TV australiano jornalístico 60 Minutes, que fez uma série de reportagens expondo o lado menos luminoso do suposto médium. Nestas reportagens, fica claro também o enorme mercado que gira em torno das atividades de João, com a venda de produtos associados, apesar de o “tratamento” ser gratuito.

Ainda assim, ao longo das décadas a mídia, principalmente a nacional, retratou-o, de modo preponderante, como herói, santo, mestre, um asceta humilde, desprovido de interesses mundanos. Um ser iluminado. Ele já cuidou da alma do ex-presidente Lula, da apresentadora americana Oprah Winfrey, e de diversas outras figuras públicas que, assim, emprestaram sua credibilidade (merecida ou não) ao homem de Abadiânia.

Mesmo quando veio à tona a surpreendente decisão do médium de tratar o próprio câncer com medicina de verdade, em vez de confiar-se aos espíritos, a revista Veja ainda se deu ao trabalho de retratá-lo como um líder espiritual abnegado, que só recorreu à medicina tradicional porque “um barbeiro não corta o próprio cabelo”.

Os jornalistas, embevecidos por esse pérola de sabedoria imortal, não se lembraram de que barbeiros não cortam o próprio cabelo, mas procuram outros barbeiros – então, por que o médium não procurou outro médium?

Recentemente, mais de 200 mulheres denunciaram João de Deus por abuso sexual durante as “consultas”. De acordo com as denúncias, os abusos ocorrem desde 1980. O padrão de conduta relatado é consistente . O médium escolhe a vítima, faz com que se sinta especial, escolhida para a cura, e a leva para uma sala separada, onde a induz a praticar atos sexuais. Os relatos mostram mulheres de todas as idades e classes sociais, confusas e perplexas, sem perceber ao certo como e por que aquele homem “puro e santo” estaria fazendo aquilo.

O que torna esse tipo de absurdo possível é a combinação de fé acrítica e adoração. Todas as reportagens sobre o escândalo, até o momento, tomam extremo cuidado de não colocar em dúvida os poderes curativos de João de Deus e a fé de seus seguidores. A fé das pessoas certamente precisa ser respeitada. Mas por que esse cuidado para não expor, juntamente com as acusações de conduta sexual imprópria, as bases frágeis e contraditórias da fé depositada, especificamente, neste homem?

Por 40 anos, João de Deus tem praticado técnicas invasivas com instrumentos cirúrgicos, sem o devido treinamento, licença ou diploma. Não se sabe quantas infecções decorreram de suas práticas, quantas sequelas deixou, e principalmente, quantas pessoas abandonaram seus tratamentos convencionais para tratar-se com o “medico espiritual”.

Por quatro décadas, a imprensa, o establishment médico e as autoridades brasileiras trataram a situação anômala criada por João de Deus em Abadiânia com complacência – numa atitude que ia da omissão, passava pela condescendência e, não raro, chegava aos endossos mais entusiasmados. É nossa opinião que, ao agir de tal forma, essas instituições falharam gravemente para com o público a que deveriam servir.

Se um trabalho correto, crítico, competente e livre de assombros tivesse sido realizado por jornalistas e autoridades, quando ainda era tempo, será que inúmeras mulheres não teriam sido poupadas de abusos?

Muitas das vítimas que confiaram em João de Deus provavelmente não confiaram apenas nele – confiaram também nos políticos e celebridades que se consultaram com o médium, confiaram nos jornalistas que se referiam a ele como “homem simples, franciscano”, confiaram nas autoridades  que permitiam que continuasse a operar.

No fim, coube às vítimas, às mulheres, que estavam fragilizadas, traumatizadas e assustadas, reunir a coragem de fazer o trabalho que tantos homens, em 40 anos, em posições de poder, não fizeram.

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