Queda de um gigante abala a psicologia da saúde

Dossiê Questão
9 dez 2020
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Uma pessoa nervosa é mais sujeita a problemas cardíacos? Um indivíduo tristonho tem mais chances de desenvolver um câncer? Pode uma atitude otimista ajudar a curar uma doença grave? Tais ideias, aqui postas como interrogações, logo são vistas como afirmações no imaginário popular. Mas muito do que as sustentava, em termos científicos, sobre a relação entre personalidade e saúde está ruindo com o abalo provocado pela queda de um gigante da psicologia, num caso também emblemático da crise de reprodutibilidade dos estudos neste campo.


Alemão de nascimento, britânico de formação, Hans Eysenck outrora foi um dos mais citados psicólogos do universo da ciência. Quando de seu falecimento, em 1997, ele perdia apenas para Sigmund Freud, o “pai da psicanálise”, e o especialista em desenvolvimento infantil Jean Piaget em número de citações na literatura da área.

Tremendamente produtivo, Eysenck publicou mais de mil artigos científicos e 80 livros ao longo de seus 50 anos de carreira, focada principalmente em estudos sobre personalidade e sua relação com diversos aspectos da vida. Prolífico, colaborou com cientistas e publicou pesquisas em áreas como condicionamento e resposta, psicologia social, terapia comportamental, genética da personalidade e do comportamento, psicofisiologia da inteligência, criminologia, os impactos da exposição à violência e ao sexo na mídia no comportamento e a ligação entre personalidade e o desenvolvimento e tratamento de doenças graves, como câncer e problemas cardíacos. Neste caminho, acumulou críticas por defender ideias polêmicas, como a influência da raça nos resultados de testes de QI, ou totalmente excêntricas, como a validade da pseudociência da astrologia.

Mas foi a parceria com o sociólogo alemão de origem húngara Ronald Grossarth-Maticek em estudos envolvendo personalidade, câncer e doenças cardíacas, publicados em grande parte nos anos 1980 e 1990, que trouxe para os holofotes suspeitas de má conduta e fraudes científicas sobre Eysenck. A reavaliação de sua atuação já levou à retratação, isto é, à remoção dos anais da literatura científica, de 14 artigos assinados por ele, sozinho ou com outros autores, só ao longo deste ano, bem como alertas de preocupação sobre a validade de dezenas de outros, alguns de mais de 60 anos atrás, lançando uma sombra de dúvida sobre todo trabalho do psicólogo britânico. 

 

O enigma da personalidade

Professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres (hoje Instituto de Psiquiatra, Psicologia e Neurociência do King’s College de Londres) de 1955 a 1983, Eysenck é um dos principais nomes no desenvolvimento de modelos de avaliação e designação da personalidade em “tipos”, de acordo com padrões comportamentais, mentais e emocionais, ou “traços”. Esta abordagem, conhecida como “Teoria dos Traços da Personalidade”, deu origem a diversos questionários de autodiagnóstico e de validade contestada, como o Myers–Briggs.

No modelo de Eysenck, a personalidade seria definida em três “dimensões” segundo níveis de tendência à “extroversão” ou “introversão”; “neuroticismo” – que inclui emoções como ansiedade, medo, raiva, frustração, inveja, e culpa, além de tristeza, solidão e timidez – ou “estabilidade”; e “psicoticismo” – relacionado a comportamentos impulsivos, agressivos, hostis ou de risco – ou “socialização”. Seu “modelo P-E-N” (de “psicoticismo-extroversão-neuroticismo”) foi inicialmente descrito no livro Dimensions of Personality (1947) e depois refinado em The Structure of Human Personality (1952) e edições posteriores, e é a base do Questionário Eysenck de Personalidade (EPQ, na sigla em inglês).

Com esta ferramenta de separação de indivíduos de acordo com “tipos” de personalidade, Eysenck passou a investigar a correlação dessas características com diversas condições ou atitudes pessoais, entre elas, o hábito de fumar. De acordo com seu próprio relato, estas pesquisas o aproximaram, no início dos anos 1960, do médico David M. Kissen, oncologista britânico que comandava uma clínica torácica em Edimburgo, Escócia, interessado no tema de uma possível ligação entre personalidade e câncer. Juntos, eles estruturaram e levaram a cabo o que Eysenck diz ter sido “o primeiro teste objetivo da antiga teoria de que o câncer estava de alguma forma conectado à supressão de emoções e à dificuldade de expressar emoções”.

Publicado em 1962 no “Journal of Psychosomatic Research”, o estudo “Personality in male lung cancer patients” de Eysenck e Kissen, avaliou 116 pacientes homens com câncer de pulmão e 123 controles sem a doença quanto a graus de extroversão e neuroticismo, usando o Maudsley Personality Inventory (MPI), uma versão “bidimensional” de tipificação de personalidades baseada nas teorias do psicólogo britânico. Os resultados relatados pela dupla sugeriam que os pacientes de câncer de pulmão têm traços de personalidade distintos dos fumantes em geral, e dos controles sem a doença e com desordens psicossomáticas comuns, caracterizados por baixa pontuação em neuroticismo, indicativa de supressão emocional.

Era o início da elaboração por Eysenck da tipologia de personalidades que, segundo ele, teriam uma tendência maior ao desenvolvimento de doenças graves e que caracterizou seus estudos em psicologia da saúde. A primeira “identificada” por ele foi a classificada como “personalidade propensa ao câncer” (cancer-prone personality), em suas palavras “frequentemente descrita como apaziguadora, pouco assertiva, excessivamente cooperativa, paciente, harmoniosa, que evita conflitos, obediente e defensiva”.

Tudo isso, ainda de acordo com Eysenck, caracteriza “uma tendência a reprimir emoções como ansiedade e raiva”, que são escondidas sob uma “superfície branda”, e uma “dificuldade em lidar com o estresse, desenvolvendo sentimentos de desespero e impotência e, finalmente, depressão”.

Posteriormente, ela ganhou a companhia de uma “irmã”, a “personalidade propensa a doenças cardíacas”. Esta, por sua vez, tem suas reações às frustrações da vida “governadas pelo trio raiva, hostilidade e agressão, isto é, traços opostos à personalidade repressora de emoções dos pacientes propensos ao câncer”, novamente seguindo as palavras do próprio Eysenck. Ambas, porém, seriam reflexo do mesmo processo básico, o “estresse e a incapacidade de lidar com o estresse” de forma saudável, conforme ele resumiu em seu livro “Smoking, Personality, and Stress”.

 

A serviço do tabagismo 

A hipótese de que câncer e doenças cardíacas poderiam ser atribuídos mais a fatores de personalidade individuais do que ao fumo, apoiada por Eysenck já nos anos 1960, caiu como uma luva para a indústria do tabaco, que já então enfrentava processos de governos e vítimas pelos danos à saúde causados por seus produtos. Não por acaso, documentos revelados no início dos anos 2000 mostraram a disposição das empresas do setor em financiar as pesquisas do psicólogo britânico neste sentido, fruto em grande parte da sua colaboração com Grossarth-Maticek.

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Eysenck e Grossarth-Maticek começaram a trabalhar juntos em 1980. Então, o sociólogo alemão, doutor em ciências médicas pela Universidade de Belgrado, lutava para lidar com a enorme quantidade de dados proveniente de uma coorte de cerca de 1,3 mil pessoas que acompanhava, há mais de uma década, na cidade iugoslava de Crvenka. Com base em questionários aplicados nos anos 1960, Grossarth-Maticek supostamente identificou uma forte correlação entre a supressão de sentimentos e necessidades, estresse, na forma de depressão e desalento, ou raiva e irritabilidade, entre outros traços de personalidade, com a incidência de câncer e outras doenças graves. Essa correlação supostamente permitia prever, com uma taxa de acerto de incríveis 93%, a ocorrência dessas doenças num período de dez anos. Ou, ao menos, é o que ele indica em estudo publicado em 1980 no periódico “Psychotherapy and Psychosomatics”.

De acordo com o próprio Eysenck, na época Grossarth-Maticek estava ciente dos rumores que circulavam sobre seu trabalho entre ex-colaboradores e integrantes da indústria do tabaco, que, mesmo satisfeitos com os resultados em apoio à sua tese na defesa nos processos judiciais sobre os malefícios do fumo à saúde púbica, já expressavam preocupação com a validade de seus achados.

“O Dr. Grossarth-Maticek é bem conhecido da mídia na Alemanha e aparentemente tem sólidas ligações com algumas autoridades de saúde provedoras de verbas do governo alemão. Na superfície, seus dados (de Grossarth-Maticek) parecem concordar, ao menos em parte, com a hipótese constitucional (no sentido de intrínseca a cada indivíduo) sobre tabagismo e saúde, em especial com referência aos aspectos psicossomáticos do câncer de pulmão e doenças do coração”, escreveu Frank G. Colby, então diretor científico da gigante americana do tabaco RJ Reynolds, em memorando interno da empresa, revelado no âmbito dos processos judiciais que ela enfrentou.

“Tenho, porém, sempre sido cético sobre a validade ou mesmo a integridade de alguns de seus achados. Por esta razão, no passado não fiz o menor esforço para encontrá-lo. Mas como me foi oferecida a oportunidade de conhecer o Dr. Grossarth-Maticek, e especialmente porque foi iniciativa dele, decidi tomar vantagem da oportunidade. Voltei dessa discussão ainda mais cético, dado que o Dr. Grossarth-Maticek é – no mínimo – altamente neurótico. Também me senti incapaz de decidir se devemos ter pena dele ou desconfiar totalmente dele. Por outro lado, há a possibilidade destes aspectos negativos serem enganosos. Mas, definitivamente, recomendo contra qualquer envolvimento entre o Dr. Grossarth-Maticek e nós, ou a indústria em geral”.

O alerta de Colby, no entanto, não foi suficiente. A Associação da Indústria dos Cigarros da Alemanha, que reunia tanto fabricantes locais quanto multinacionais como a RJ Reynolds, agiu em 1982 para financiar com 300 mil marcos (cerca de R$ 1 milhão, em valores não corrigidos pela inflação na moeda de origem) as pesquisas do sociólogo alemão, que incluíam outra grande coorte na cidade de Heidelberg. Já Eysenck aparece nos documentos dos processos judiciais como destinatário de comunicação pela RJ Reynolds informando um “presente” para o Instituto de Psiquiatria no valor 120 mil libras (cerca de R$ 850 mil, também em valores não corrigidos pela inflação na moeda de origem) no ano de 1986 para apoiar estudos envolvendo a mesma coorte de  Heidelberg.

 

Resultados fantásticos (e suspeitos)

Mais que este evidente conflito de interesses, no entanto, foram os resultados de muitos dos estudos conduzidos pela dupla, junta ou separada, com base nos dados das duas coortes e publicados entre meados dos anos 1980 e início da década de 1990 que chamaram a atenção da comunidade científica e levantaram dúvidas quanto à sua validade. “Bons demais para serem verdade” era o comentário comum, à medida que vinham a público artigos com alegações fantásticas do caráter preditivo de doenças graves de suas abordagem e o potencial milagroso de intervenções simples desenvolvidas por Grossarth-Maticek – como uma espécie de terapia cognitivo-comportamental (TCC) à qual intitulou de “terapia de inovação criativa” - em controlá-las ou mesmo evitá-las.

Entre os críticos mais ativos já à época estava o psiquiatra e epidemiologista britânico Anthony Pelosi. Em 1992 e 1993, ele e o colega Louis Appleby, psiquiatra e professor da Universidade de Manchester, no Reino Unido, publicaram no prestigiado "British Medical Journal" (BMJ) duas críticas aos estudos da dupla, destacando o caráter irreal dos números apresentados. Nelas, relatam, por exemplo, que, a depender dos cálculos de Eysenck e Grossarth-Maticek, pessoas com uma “personalidade propensa ao câncer” apresentariam um risco cerca de 120 vezes maior de desenvolver a doença do que indivíduos com uma personalidade dita “saudável”. Já em um outro estudo citado nas críticas, os dois autores chegavam a afirmar que a aplicação do tratamento psicológico “profilático” desenvolvido por eles conseguiria reduzir a mortalidade entre pessoas supostamente propensas ao mal em mais da metade num espaço de 13 anos, de 82% para 32%, entre outros resultados.

“Fossem reais, seriam algumas das descobertas mais surpreendentes e importantes já publicadas na história da medicina”, comentou Pelosi em entrevista à Revista Questão de Ciência. “A força destas associações são simplesmente insanas. E não uso esta palavra à toa. Sou um psiquiatra, lembre-se. Mas estes números são uma loucura. A ciência da saúde nunca mais seria a mesma com os efeitos da personalidade em doenças do tamanho que eles encontraram”.

Mas, apesar das observações e alertas de Pelosi e numerosos outros especialistas, a dupla seguiu produzindo e tendo aceitos para publicação, em diversos periódicos, trabalhos alegando achados espetaculares com base nos dados das duas coortes, já então suspeitos e ainda nas mãos de Grossarth-Maticek. Segundo o psiquiatra, pesquisadores que tiveram acesso à documentação, ainda àquela época, como o psicólogo holandês Henk van der Ploeg, relataram terem observado rasuras, repetições e inconsistências nas tabulações que foram ignoradas por publicações e revisores.

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“Analisei com cuidado por todos os lados, e não consigo achar outra explicação a não ser que esses resultados fantásticos são baseados em dados fraudulentos”, conta. “Algumas pessoas tiveram acesso aos dados e viram que eles foram claramente alterados. Nomes foram mudados, a tinta apagou com o tempo, por exemplo. Não posso dizer exatamente o que aconteceu e como aconteceu, mas a verdade sobre os dados está em algum lugar na relação entre Eysenck e Grossarth-Maticek. Acho, porém, que foi sob influência de Eysenck que Grossarth-Maticek mudou os dados de forma a apoiar suas alegações”.

 

Eysenck se defende 

Eysenck, por sua vez, se aferrou na defesa da validade dos dados e das conclusões deles derivadas. Em resposta às críticas de Pelosi e Appleby, também publicada no BMJ no início dos anos 1990, o psicólogo britânico afirmou “haver boas evidências para apoiar todas” suas alegações de que “fatores psicossociais (personalidade e estresse) têm um importante papel no desenvolvimento de câncer e doenças do coração”, que estes fatores são “diferentes entre as duas condições e “podem ser medidos em pessoas saudáveis”, de forma que “terapia comportamental adequada (administração do estresse) pode agir profilaticamente para fazer com que pessoas com tendência ao câncer ou doenças do coração tornem-se menos sujeitas a desenvolver cada doença”, bem como “prolongar a vida de pacientes com cânceres inoperáveis”.

“Pelosi e Appleby sugerem que ‘deve haver um reexame total e análise apropriada dos dados originais desta pesquisa’”, escreveu Eysenck. “Concordo plenamente. Grossarth-Maticek sempre se mostrou disposto a permitir que críticos competentes acessem seus dados [como Van der Ploeg acabou fazendo], e é desnecessário que Pelosi e Appleby peçam isso em termos que sugerem a falta de disposição para tanto da parte do investigador. De fato, tanto Grossarth-Maticek quanto eu sempre pressionamos para a replicação destes estudos por um grupo independente”.

 

Replicações fracassadas

Desafio que foi aceito por Manfred Amelang, então professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Heidelberg, e tão prontamente que ele chega a ser citado no texto de defesa de Eysenck no BMJ, como líder de um dos grupos que estavam justamente fazendo isso. Em uma primeira avaliação com nova coorte de 1.858 indivíduos de 39 a 68 anos, também recrutados na cidade alemã, Amelang relatou que embora os participantes que sofressem com o câncer ou doenças do coração no grupo pesquisado fossem diferentes em personalidade dos indivíduos saudáveis, esta diferença não se deu “na direção prevista” pelos estudos da dupla, com os resultados sugerindo que “a alegada validade discriminatória do preditor de doença de Grossarth-Maticek é altamente improvável”.

Mas Amelang não parou por aí. Em 1996, iniciou outro estudo que contou, originalmente, com a participação de mais de 5 mil pessoas avaliadas por meio de questionários de personalidade, estilo de vida, estresse funcional e outros fatores, para replicar a classificação de personalidades propensas a doenças de Eysenck e Grossarth-Maticek. Num período de 10 anos, pouco mais de 250 dos participantes morreram, e 4 mil foram novamente contatados.

Amelang verificou então que só a chamada labilidade emocional – mudanças repentinas e abruptas de humor – apresentou relação com o desenvolvimento doenças do coração, e nenhum dos fatores supostamente preditivos da condição defendidos por Grossarth-Maticek se mostrou válido para estas condições. Já quanto ao câncer, “não pôde ser previsto por qualquer fator de personalidade”, relatou em artigo publicado em 2006 na revista "Zeitschrift für Gesundheitspsychologie".

“Não conheço nenhuma outra área de pesquisa em que a mudança de uma entrevista para um questionário cuidadosamente construído para medir a mesma estrutura (psicológica) levou a uma alteração de uma previsão quase perfeita para uma quase nula”, comentou Amelang em ainda outra análise das hipóteses de Eysenck e Grossarth-Maticek, usando sua coorte “paralela” em Heidelberg.

 

Estatístico desconfiado

Outro nome citado por Eysenck na sua defesa publicada no BMJ em 1992, como trabalhando na comprovação de seus achados, e que também encontrou problemas em série nos dados foi o estatístico alemão Hermann Vetter. Em mais de uma ocasião ao longo dos anos 1980, Vetter foi chamado pelos próprios autores para supervisionar a integridade das informações levantadas nas duas coortes e verificar as análises. Em 1988, Vetter começou a desconfiar da veracidade dos números.

Repetições nos padrões de respostas nos questionários e outras coincidências suspeitas como endereços, datas de nascimento e até resultados de exames médicos para sujeitos que ora integravam os grupos de indivíduos com tendência a doenças, ora os ditos possuidores de personalidades “saudáveis”, além da inclusão de novas variáveis preditoras e avaliações psicológicas a posteriori foram alguns dos problemas relatados por Vetter. Vendo o que chamou de sinais claros de que os dados foram “produzidos artificialmente”, ele acabou se juntando à legião de críticos dos estudos de Eysenck e Grossarth-Maticek.

 

Instituições imóveis

Enquanto isso, porém, instituições e entidades de classe como a Sociedade Britânica de Psicologia (BPS, na sigla em inglês) desconsideravam as denúncias de irregularidades e possíveis transgressões éticas e científicas nos estudos da dupla, lembra Pelosi, que em 1995 apresentou uma queixa formal à BPS sobre estas pesquisas.

“É difícil fazer com que organizações investiguem seus próprios integrantes”, avalia. “Um outro cientista pode vir e começar um debate, mas, se você não faz nada, o assunto ‘morre’. É preciso o escrutínio público para que a ciência e suas instituições se corrijam. Isso porque as instituições enfrentam conflitos de interesse para investigar acusações assim, no sentido de que isso é ruim para suas reputações. É ruim para a Sociedade Britânica de Psicologia que se ataque a reputação de sua ciência e da psicologia da saúde”.

 

De volta ao tema, anos depois

Diante disso, e pressionado pela necessidade de se dedicar à sua prática clínica, às próprias pesquisas e à família, Pelosi confessa que acabou desistindo e deixando o assunto de lado. Mas a questão não saiu da sua cabeça, e quando em 2016 foi contatado pelo editor convidado Philipp Corr para escrever um artigo de contraponto ao trabalho de Eysenck na área por ocasião da publicação de uma edição especial comemorativa do centenário de nascimento do psicólogo do periódico "Personality and Individual Differences" – não por acaso, por ele fundado -, viu uma oportunidade de trazer suas objeções de volta à cena.

“Fui completamente sincero com ele. Disse que era um duro crítico do trabalho de Eysenck, e acho que cheguei até a usar a palavra ‘fraudulento’ para descrevê-lo. Mas ele respondeu que tudo bem, que queria que eu escrevesse um artigo para a edição especial. Então escrevi o artigo”, recorda.

Dito e feito, Pelosi fez um texto que acabou sendo classificado como muito forte por Corr, que pediu que “amenizasse” as críticas. O psiquiatra conta que aquiesceu, mas mesmo assim o então editor-chefe do periódico, Tony Vernon - que ainda ocupa o cargo -, vetou sua publicação.

“Penso que eles achavam que eu escreveria algo na linha ‘especialistas discordam’ (de Eysenck), ou que há muita controvérsia sobre ele, mas eu não queria fazer isso. Eu disse que ele era fraudulento, que havia algo próximo de criminalmente negligente num dos experimentos dele”, lembra, citando estudo da dupla com pacientes vítimas de hipertensão maligna – na qual a pressão sanguínea sobe a níveis extremamente perigosos – no qual descrevem terem usado apenas psicoterapia, apesar dos claros sinais de os pacientes em plena crise hipertensiva, necessitando de medicamentos, no consultório.

“O que acontece é que não acredito que este experimento aconteceu de verdade, pois o que o artigo descreve é criminosamente negligente”, ressalta. “Eles descrevem num artigo científico atender a pessoas nessas condições, um paciente tendo uma crise hipertensiva, e o tratam com psicoterapia. Se você está no seu consultório, chega um paciente, você tira a pressão e ela está em 210, você olha nos olhos deles com um oftalmoscópio e seus vasos estão estourando, tudo que você deve fazer é dizer: ‘vou chamar uma ambulância, você tem que ir para um pronto-socorro’. Ou então dizer para ele: ‘você entra no carro agora com sua esposa, seu acompanhante, e não vai para casa, não faça uma mala. Só vá direto para o hospital’. A pessoa pode ter um derrame ali na sua frente. E isso tudo está descrito no artigo. Acho que Eysenck e Grossarth-Maticek simplesmente não sabiam sobre o que estavam falando (quando abordaram a hipertensão maligna). Eles só estavam tentando publicar num periódico de psicologia algo do interesse de Eysenck. É absolutamente, inacreditavelmente, ridículo”.

Mas, com disposição renovada e um novo artigo revisando os trabalhos de Eysenck e Grossarth-Maticek pronto em mãos, Pelosi então partiu em busca de algum outro periódico que aceitasse publicá-lo. Mais uma vez, porém, enfrentou barreiras institucionais nas negativas de mais de uma dúzia de editores ao longo dos três anos seguintes.

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“Ouvi uma ampla gama de boas desculpas”, relata. “Diziam que temiam uma ação legal, pois as acusações eram muito fortes, que ia dar muito trabalho, que Eysenck era ‘notícia de ontem’, que ninguém acredita mesmo nestes trabalhos e nestes resultados. Ao que eu respondia que não, que muitas pessoas ainda acreditam neles, que meta-análises e revisões, que são o padrão ouro das pesquisas clínicas, ainda são feitas incluindo-os”.

Tudo mudou de cenário, no entanto, quando, em 2019, Pelosi encontrou David Marks. Fundador e editor do "Journal of Health Psychology", o também britânico e psicólogo Marks não só topou publicar seu artigo crítico de Eysenck sem retoques como escreveu um editorial com uma carta aberta ao King’s College de Londres instando a instituição a investigar as graves acusações nele contidas. Pressionada, foi o que a universidade britânica fez, dando início ao efeito dominó que levou à retratação, até o momento, de 14 artigos científicos, bem como chamadas “expressões de preocupação”, isto é, suspeitas quanto à validade e confiabilidade, de mais de 70 outros.

 

Acusações e defesa

De acordo com o relatório da comissão de inquérito reunida pelo King’s College divulgado em maio de 2019, a investigação focou apenas nos artigos assinados em conjunto por Eysenck e Grossarth-Maticek, principalmente estudos observacionais ou que descrevem os impactos positivos na saúde e prevenção de doenças graves do tratamento psicológico desenvolvido pelo alemão, grande parte baseados em dados de uma ou ambos estudos de coorte tocados por ele na Iugoslávia e Heidelberg. A instituição reconheceu que as preocupações com estes trabalhos eram antigas, envolvendo tanto a validade dos conjuntos de dados quanto a implausibilidade dos resultados.

Após também mencionar o fracasso de Amelang em replicar as alegações de Eysenck e Grossarth-Maticek, a comissão de inquérito do King’s College decidiu então classificar 26 artigos publicados pela dupla em 11 periódicos ainda existentes como “inseguros” (unsafe), e informar os respectivos editores das suspeitas, além de contatar a direção de ética em pesquisa da Universidade de Heidelberg para confirmar a afiliação do cientista alemão e questionar seus procedimentos para a investigação das alegações de má conduta.

Em sua defesa, Grossarth-Maticek publicou uma resposta às alegações de Pelosi e Marks no site de sua clínica Krebs & Chancen (Câncer e Oportunidade, numa tradução livre) – na qual oferece sua terapia de “Treinamento Autônomo” psicológico como tratamento “complementar” para prevenção e controle do câncer. No texto, Grossarth-Maticek destaca a posição de Eysenck como fundador da terapia comportamental e um dos mais citados psicólogos do mundo, e reclama da descrição que recebeu no artigo e editorial do "Journal of Health Psychology".

Segundo Grossarth-Maticek, ele e Eysenck tiveram uma colaboração “igualitária” e “muito criativa” que levou a desenvolvimentos importantes em pesquisas multifatoriais na psicologia e epidemiologia. Ele classificou o retrato pintado por Pelosi e Marks como “difamatório e discriminatório” e lamentou que Eysenck, já falecido, não possa se defender. Ainda de acordo com Grossarth-Maticek, nenhuma tentativa de replicação desabonou seus achados, a não ser o que considerou os “fracos estudos” de Amelang.

Em textos mais recentes publicados em seu site pessoal em novembro último, Grossarth-Maticek vai além. Neles, afirma ser alvo de uma “organização internacional” focada em destruir a reputação de Eysenck e seu trabalho no desenvolvimento de um tratamento complementar multifatorial do câncer, ora formada por Pelosi, Marks e Edward Byrne, reitor do King’s College de Londres, ora pelo três com apoio de Amelang e Van der Ploeg.

 

Toda uma vida sob suspeita

Pelosi, porém, não se dá por satisfeito. Segundo ele, a reação limitada do King’s College e o lacônico relatório da comissão de inquérito tentam "jogar a culpa" de tudo em cima de Grossarth-Maticek, e deixam de fora muitos artigos e livros com alegações fantasiosas relativas ao risco de câncer e doenças cardíacas, sua possível “prevenção” com determinada terapia psicológica de “modificação de personalidade” e dissociação de outros riscos, em especial o tabagismo, assinados por Eysenck sozinho, além de ignorar a sombra que tudo isso põe sobre o trabalho do psicólogo como um todo.

“O que o King’s College fez foi apenas revelar a ponta do iceberg. Eles têm sido muito tímidos neste processo”, diz. “Eysenck publicava muito. Ele tinham uma habilidade imensa: era capaz de chegar no trabalho e ditar todo um texto de um artigo acadêmico, que repassaria para suas secretárias para e datilografá-lo e então submeteria para publicação. Por isso, era tão prolífico em sua produção. Ele escreveu mais de 60 artigos apenas no grupo de pesquisa com Grossarth-Maticek e há também muitos estudos, artigos, com estes mesmos dados em que Eysenck é o único autor. E o King’s College não analisou nada disso. É inacreditável”.

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Assim, embora admita que o King’s College possa alegar ter apenas “herdado um problema”, já que só assumiu o antigo Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres no fim da década de 1990, após a morte de Eysenck, Pelosi cobra uma investigação mais ampla de toda a produção do renomado psicólogo britânico.

“Não há dúvidas de que tudo que Eysenck escreveu sobre câncer, tabagismo, doenças cardíacas e saúde em geral deve ser revisado, mas agora todo o trabalho dele em diversas outras áreas também está sob suspeita. Tudo mais que ele fez deve ser revisto”, defende. “Parte do trabalho de Eysenck vai se mostrar perfeitamente bom. Tenho certeza de que muita coisa em que ele colaborou com outros bons cientistas vai ficar bem, mas não podemos mais confiar no que quer que ele tenha dito ou escrito, especialmente em assuntos muito controversos, como sobre inteligência e raça”.

Desconfiança que já vinha de alguém bem próximo do renomado psicólogo britânico há algum tempo também. Em resenha de “Playing with Fire: The Controversial Career of Hans J. Eysenck” (“Brincando com Fogo: A Controversa Carreira de Hans J. Eysenck”, biografia dele escrita por Roderick D. Buchanan, professor de história da psicologia da Universidade de Melbourne, Austrália), seu filho, Michael Eysenck, comenta que a maior limitação de seu pai como cientista foi a de encampar “pontos de vista controversos (tipicamente apoiados por pesquisas internas) que fracassaram totalmente em resistir ao teste do tempo”, dando como exemplos, entre outros, a ligação da personalidade com a longevidade e o fumo como um fator de risco menor no desenvolvimento de doenças. “Nenhum outro proeminente psicólogo esteve tão errado tão frequentemente. Surpreendentemente, algumas vezes já havia evidências convincentes de que suas visões estavam erradas na época em que ele as expressava”, acrescentou.

 

Uma nova era para o campo

Quase 30 anos depois de iniciar sua batalha pela revisão do trabalho de Eysenck sobre personalidade e doenças, Pelosi espera agora “passar o bastão” da briga. Ao mesmo tempo, ele revela não duvidar completamente de uma possível associação, ao menos com problemas cardíacos, embora em proporções longe das alegadas por Eysenck e Grossarth-Maticek, como a mostrada por Amelang na “coorte paralela” de Heidelberg.

“Uma das razões que fiquei tão furioso e incomodado com o trabalho de Eysenck por todos estes anos é porque ele mina e enfraquece o bom trabalho que muitas pessoas estão tentando fazer neste campo, para identificar este tipo de associação”, diz. “Temos muitos cientistas sensatos, trabalhadores e honestos estudando esta questão, com resultados interessantes sobre se a personalidade poderia ser um fator porque certas pessoas desenvolvem certos tipos de doenças cardíacas. São pesquisas que agora podem ganhar o destaque que merecem. Digo que o trabalho de Eysenck neste sentido também prejudicou a saúde pública”.

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de CIência
 

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