Autora repudia artigo sobre mosquitos transgênicos

Artigo
24 set 2019
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Mosquito Aedes aegypti

Parte da mídia – e, em consequência, da população – ficou alarmada em meados de setembro, quando artigo publicado no periódico Scientific Reports apontou a presença, na Bahia, de híbridos de mosquitos geneticamente modificados e nativos. O motivo do alarme é fácil de entender: da forma como foi escrito, o trabalho científico insinua que a mistura entre os dois tipos de mosquito pode ter gerado uma espécie de super-inseto transmissor de doenças. 

Mais alarmada ficou Margareth Capurro, professora do Instituto de Ciencias Biomédias (ICB) da USP, que consta como coautora do artigo. A pesquisadora afirma não ter participado – e muito menos aprovado – da redação final ou da publicação do trabalho. A maioria dos autores brasileiros (seis de um total de oito) entrou com pedido de retratação do artigo em 20 de setembro, logo após constatarem, segundo Capurro, que o texto publicado não era fiel aos resultados apresentados pelo grupo, e que a redação original havia sido alterada. A pesquisadora falou com exclusividade sobre o caso para a Revista Questão de Ciência.

A pesquisadora da USP concorda com o grande número de críticos do trabalho, dentro da comunidade científica, que aponta que a redação do artigo é deficiente. Faltou uma frase crucial no texto publicado pela Scientific Reports: não existem mosquitos transgênicos no céu da Bahia! Também faltou dizer que eventuais mosquitos híbridos encontrados hoje, na cidade baiana de Jacobina, não representam nenhum perigo para a população, não transmitem mais doenças do que os mosquitos comuns e não são resistentes a inseticidas. 

O grupo envolvido com o estudo avaliou o estado atual da população de mosquitos da espécie Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya, quatro anos após a liberação, na área, de mosquitos transgênicos produzidos pela empresa britânica Oxitec. 

O trabalho, de acordo com o relato de Capurro, foi desenvolvido como parte do monitoramento previsto e exigido pela CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) como parte do protocolo de aprovação do mosquito transgênico OX513A. Os autores concluíram que houve transferência, para a população geral, de parte do genoma do mosquito modificado, desenvolvido para reduzir a quantidade de Aedes sp transmissores de doenças  em Jacobina. 

O transgênico foi liberado na região entre 2013 e 2015, em experimento de campo aprovado pela CTNbio, que atestou a segurança e eficácia do procedimento com base em trabalhos assinados pelos  autores brasileiros  . O experimento  foi considerado um sucesso, reduzindo a população de mosquitos locais em 95% durante sua duração. Com o fim da liberação dos insetos geneticamente modificados, houve retomada da população – o que também era esperado.

 O experimento

O mosquito macho da linhagem OX513A carrega um gene artificial, construído em laboratório, que impede que sua prole se desenvolva até a idade adulta. A ideia, portanto, é que, ao copular com as fêmeas locais, os machos modificados reduzam a população, pois a geração seguinte não vai se desenvolver o suficiente para deixar descendentes. O transgene em questão carrega um mecanismo de “desligamento”, e some rapidamente da população. 

O estudo publicado agora na Scientific Reports mostra que partes do genoma do OX513A podem ser encontradas nos mosquitos selvagens da Bahia. Mas o texto, tal como publicado, deixa de mencionar que nenhuma dessas partes transferidas à população local contém DNA manipulado: em outras palavras, são genes comuns e naturais que podem ser encontrados, normalmente, em mosquitos comuns e naturais. 

Este resultado, em si corriqueiro, é apresentado como  “inesperado” no texto que foi publicado, de acordo com Capurro, sem sua concordância. De fato, não são apresentados no artigo nenhuma evidência ou dados para suportar a hipótese levantada de que a transferência genética poderia ter originado mosquitos híbridos mais “robustos”, e talvez até resistentes a inseticidas. 

Se, por um lado, os dados científicos do trabalho estão corretos – houve transferência genética de partes não específicas do genoma, indicando que existem realmente híbridos do OX513A na população atual, as especulações sobre robustez e resistência a inseticidas não passam disso, especulações, que podem ter consequências graves para a formulação de políticas científicas e de saúde pública, se forem mal interpretadas. 

Não há nenhum dado sobre a suposta “robustez” do híbrido, e a linhagem OX513A não apresenta qualquer tipo de resistência a inseticidas, como demonstrado em publicação anterior, aliás assinada pelos mesmos autores. E não há nada inesperado nos resultados: já se sabia que até 4% dos mosquitos machos conseguem se desenvolver até a idade adulta, e era, portanto, esperado que houvesse um certo grau de hibridização com a população local. Isso não quer dizer, no entanto, que os mosquitos locais tenham se “transformado” em transgênicos, e muito menos que os mosquitos transgênicos agora dominem a população. 

Em entrevista para a agencia oficial de notícias alemã Deutsche Welle, o autor sênior, Jeffrey Powell, comenta que os resultados são perigosos porque “inesperados”, e que a hibridização poderia ter dado origem a um vetor “mais robusto”. Também comenta sobre a importância do monitoramento deste tipo de experimento. 

Mas os dados apresentados pelos próprios pesquisadores demonstram que o transgene não está presente na população. Ou seja, não existem mosquitos transgênicos fora de controle e voando soltos por aí.Também demonstram que os mosquitos híbridos não são diferentes dos naturais, em relação à capacidade de transmitir doenças. E a necessidade de monitoramento foi justamente o que motivou o estudo mais recente. Capurro afirma que Powell, à revelia dos demais autores, optou por não explicitar estes dados, e incluiu as especulações alarmistas por sua própria conta. 

Não há motivos para afirmar que estes híbridos seriam mais “robustos” do que a população selvagem: híbridos ocorrem o tempo todo na natureza, e o Aedes não é um gênero original do Brasil. Quanto à resistência a inseticidas, as linhagens cubana e mexicana, utilizadas para desenvolver o OX513A, foram escolhidas justamente por serem mais, e não menos, vulneráveis a esses venenos. 

 

Híbridos brasileiros

Margareth Capurro explica que a linhagem escolhida é, na verdade, um híbrido de mosquitos mexicanos, venezuelanos e do Norte do Brasil. Trata-se de uma linhagem criada em laboratório, e justamente por isso, mais frágil, e muito mais sensível a todos os tipos de inseticida. A pesquisadora contesta as alegações de Powell sobre robustez e inseticidas, e sustenta que os dados do artigo não dizem nada a respeito disso. 

Segundo Paulo Andrade, professor da Universidade Federal de Pernambuco, “o artigo parece irresponsavelmente especulativo quando trata de riscos, além de usar uma linguagem alarmista. Até o título é apelativo: afinal, os mosquitos transgênicos não transferem gene algum para a linhagem local, apenas trocam alelos. O uso da expressão ‘transferência de genes’ atende um apelo popular, mas carece de ciência”. 

Os “alelos” a que Andrade se refere são variações do mesmo gene dentro de uma espécie. Por exemplo, temos alelos diferentes para cor dos olhos. Sempre que há reprodução envolvendo sexo, há troca de alelos, isso é normal e esperado. Para cada gene do corpo humano, recebemos um alelo da mãe e outro, do pai. Uma troca de alelos é bem diferente da introdução de genes estranhos à espécie.

A linguagem usada realmente gera apelo popular. As manchetes sobre o assunto falam em “experimento fracassado” e que os mosquitos da Oxitec “conseguiram se reproduzir e repassaram para novas gerações genes modificados em laboratório”, exatamente o que não aconteceu neste caso. Outros títulos enganosos: “super mosquito da dengue na Bahia”, “prole de mosquito transgênico não morre”, “mosquitos transgênicos se reproduzem no Brasil”, e “modificação genética é passada adiante”.

Alarde e despreparo

Comum a todas as reportagens é a confusão prevista por Andrade: a linguagem especulativa e alarmista do artigo resultou em desinformação. A mídia fala em transferência da modificação genética e mosquitos transgênicos fora de controle – o que não ocorreu – e compra a ideia do híbrido robusto e da suposta resistência a inseticidas. 

Francisco Aragão, pesquisador sênior da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, critica o tom do artigo científico. “Apesar de interessantes, os resultados não são surpreendentes. O problema são as especulações sobre as alterações ocorridas na população de mosquitos, feitas de forma apressada, e não fundamentadas. Já no título, o leitor menos atento pode confundir genes com transgenes. Não se mostrou que há mosquitos transgênicos voando, de forma inesperada, nos céus da Bahia”. 

No caso, o risco nem está no leitor menos atento que lê o paper original, mas o jornalista menos atento, ou com viés ideológico, que ao traduzir o que acha que entendeu do artigo para a linguagem do dia-a-dia adota termos como “super mosquito”, “transgênicos fora de controle”, e “consequências imprevisíveis”. Nenhuma das reportagens publicadas sobre o assunto, até o momento, procurou um geneticista para avaliar o mérito do artigo. Foram entrevistados apenas profissionais com conhecido viés ideológico contrário à tecnologia de modificação genética. 

Técnicas de melhoramento genético são usadas na agricultura e na medicina há anos. Antes de serem utilizadas em escalas que possam afetar o público, passam por avaliações que são feitas caso a caso: nenhuma autoridade, no Brasil, libera transgênicos com base em pressuposições ou apenas na palavra do fabricante. 

 Tamanhas são as falhas e as possíveis repercussões do artigo, que os editores do periódico anexaram uma nota, em 18 de setembro, dizendo que: “alertamos os leitores de que as conclusões deste artigo estão sendo alvo de críticas, sob consideração dos editores. Um editorial de resposta será publicado após a resolução destas críticas”. 

Natalia Verza Ferreira, Diretora da Oxitec no Brasil, lamenta ainda existirem “declarações irresponsáveis e estudos inconsistentes”, publicadas em “revistas indexadas apenas para inspirar manchetes sensacionalistas”.  Ela afirma que “nenhum dos resultados deste estudo é surpresa para a Oxitec ou para os reguladores”. 

 O grupo brasileiro liderado por Capurro pretende publicar os dados de monitoramento, com as conclusões adequadas, em outro periódico e sem a participação de Powell. A pesquisadora da USP insiste que o artigo, em sua redação original, apenas descrevia o monitoramento já previsto por lei, com resultados esperados e favoráveis. 

A biotecnologia é uma das mais úteis ferramentas para um futuro sustentável, com menos destruição do ambiente e maior controle de doenças e pragas. Comunicar a segurança destas técnicas para a população já é um desafio considerável. Poderíamos passar sem o “fogo amigo”. 

Jeffrey Powell foi procurado por Questão de Ciência no início da semana, mas não se manifestou. O artigo será atualizado caso o pesquisador deseje registrar sua visão.

 

Natalia Pasternak é bióloga, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência

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