Informação sobre ameaças climáticas, por um preço

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30 ago 2019
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Imagem de satélite da região amazônica (cores falsas)

 

Como evitar um futuro em que os melhores dados para salvar vidas e propriedade da destruição climática estarão disponíveis apenas para quem pode pagar? 

Essa é a pergunta que alguns especialistas estão se fazendo, diante da proliferação dos chamados “serviços climáticos”, empresas que fornecem dados de alta qualidade sobre temperatura, chuvas, ventos, umidade do solo, análise de riscos, projeções de longo prazo, produção agrícola e ocupação e áreas de risco, dentro outros. 

O crescimento do setor revela uma mudança profunda em como a sociedade cria e usa a ciência: em vez de focar no impacto regional, nacional ou global da elevação das temperaturas, essas empresas criam dados customizados para os tomadores de decisão, seja ele o prefeito de uma cidade do litoral ou o CEO de uma empresa de energia. 

Elas percebem o enorme potencial de lucro na venda de dados customizados para clientes que querem detalhes específicos sobre como as mudanças climáticas vão afetá-los financeiramente.

Um dos líderes do setor, Rich Sorkin, foi em maio ao subcomitê de Meio Ambiente da Câmara de Deputados dos Estados Unidos, dizendo que usar a ciência do clima produzida por agências governamentais e transformá-la numa avaliação hiper-local é um meio eficaz e essencial para que cidades, estados, empresas e investidores estejam preparados para emergências climáticas. De acordo com ele, sua empresa, a Jupiter, é perfeita para a tarefa. “O governo federal deveria transferir essa área para o setor privado”, declarou. 

Mas esta não é uma opinião unânime. No início do ano, a revista científica Climatic Change fez um número especial sobre essas empresas, levantando algumas questões bem incômodas. Em um dos papers, Svenja Keele, pesquisadora da Universidade de Melbourne, afirma que os serviços climáticos “afasta os incentivos da ciência do clima do interesse público, alinhando-os à busca incessante de lucro”. Eric Nost, professor-assistente da Universidade de Guelph questiona se essas empresas não vão acabar exacerbando vulnerabilidades já existentes.

Sorkin afirma que empresas como a dele – parte de um setor avaliado globalmente, em 2015, em  US$ 2,6 bilhões, com um crescimento anual entre 6% e 10% –  são ágeis e inovadoras, enquanto o governo tende a ser lento e cauteloso. 

“Estamos anos à frente do setor público”, afirmou, comparando o impacto da sua Jupiter, na ciência do clima, à influência que Amazon, Microsoft e Google tiveram no desenvolvimento da supercomputação. “Em praticamente todos os casos, o setor privado lidera a adoção de novas tecnologias, estimulado pela competição brutal por lucros”, disse.

Entre os clientes da Jupiter estão investidores das áreas de petróleo e gás, seguradoras e defesa. Um novo cliente pode desembolsar entre US$ 200 mil e US$ 500 mil para saber como está sua exposição a inundações, calor, incêndios e outros impactos do clima. Uma assinatura anual pode custar a partir de US$ 1 milhão e, segundo Sorkin, para grandes corporações essa cifra é substancialmente mais alta. Outras empresas também estão tentando faturar em cima dos riscos financeiros e da insegurança criada pela elevação das temperaturas globais e pela imprevisibilidade do clima.

 Bom para a sociedade?

Mas quem realmente ganha com isso?

“Essas empresas geralmente são exclusivas e seus dados, acessíveis apenas a quem paga pelos serviços”, explica Marta Bruno Soares, fellow do Met Office, o serviço nacional de meteorologia do Reino Unido, por e-mail. “O que é importante agora é saber como esses serviços são produzidos (...) licenciados e quem tem acesso a quê”.

Mesmo líderes do setor reconhecem o risco de, num futuro não muito distante, ricos e poderosos terem melhores informações e ferramentas para se proteger das devastações climáticas que os pobres e vulneráveis.

“Essa é uma grande preocupação e não vou fingir que tenho a solução”, diz Emilie Mazzacurati, fundadora e CEO da Four Twenty Seven, empresa de serviços climáticos da Califórnia, recentemente adquirida pela Moody’s, do setor financeiro. “Quando se trata de adaptação ao clima, a desigualdade é brutal, e há grandes preocupações que não vamos resolver apenas com dados”, afirma. 

“Esse é um tema de extrema importância, que estamos tentando solucionar”, afirma Sorkin. Sua empresa busca maneiras de ajudar a quem tem poucos recursos, trabalhando com comunidades americanas para retirá-las de áreas de risco climático, em vez de reconstruí-las após um desastre. “Não podemos dizer o que estamos fazendo de graça, mas asseguro que fazemos bastante trabalho beneficente.”

Emilie Mazzacurati fundou a Four Twenty Seven depois que o furacão Sandy devastou Nova York, em 2012. “O que mais me impressionou foi o caos que um evento climático extremo impôs a uma das cidades mais ricas, poderosas e organizadas cidades do mundo, e a suas maiores empresas”, lembra. Diante de parte de Manhattan alagada e sem energia elétrica, Emilie se perguntou por que o setor financeiro – que precisa entender riscos para sobreviver – não se preparou para uma clara ameaça climática. 

“Os cientistas diziam ‘Sabíamos que isso podia acontecer”, afirma Emilie Mazzacurati. “Havia uma desconexão entre os dados disponíveis, as projeções sobre riscos das mudanças climáticas, e o fato de eles não estarem integrados sistematicamente na maioria das organizações.” 

A Four Twenty Seven se apresenta como provedora de “inteligência de mercado”, mas opera no pressuposto de que corporações e investidores que ficam cientes de perigos super-específicos das mudanças climáticas – seja o risco de uma fábrica ser inundada ou um investimento com alta emissão de carbono que pode desvalorizar um portfólio – não vão apenas proteger seu patrimônio, mas também exercer pressões por soluções climáticas amplas.

“Precisamos das duas cosas, de uma ação global e de corporações preparadas para impactos específicos”, afirma Mazzacurati. “A percepção da complexidade e dos altos custos desses impactos deveria impulsionar um maior engajamento nas políticas climáticas.”

Enquanto gerenciava a equipe de serviços climáticos do Met Office Hadley Centre, Carlo Buontempo fez um projeto sobre o impacto das mudanças do clima em corporações e empresas de petróleo. “Quando você muda a narrativa e começa a discutir o impacto que as alterações climáticas terão sobre elas, em vez de insistir em dizer como são más, você tem uma conversa completamente diferente,” conta. “É bem provável que isso as faça agir.”  

Mas só até certo ponto. Em 2017, a Royal Dutch Shell desistiu de um investimento de US$ 7,25 bilhões em areias betuminosas no Canadá, depois de perceber como uma reviravolta do mercado rumo à energia de baixo carbono poderia prejudicar seu modelo de negócios. Ainda assim, na mesma época, a empresa comprou o BG Group, um gigante dos combustíveis fósseis, por US$ 53 bilhões. 

Recentemente, a revista The Economist noticiou que a Shell “está destinando a maior parte de seu orçamento de despesas de capital, de US$ 30 bilhões anuais, para projetos que envolvem combustíveis fósseis” no período 2021-2025.

Os críticos se perguntam se é correto supor que o interesse de corporações e outros atores poderosos do cenário econômico se alinham com os interesses da sociedade como um todo.

“Precisamos estar alerta para a possibilidade de esse modelo das empresas de serviços climáticos – e toda sua linguagem de livre iniciativa, eficiência, utilidade, customização e flexibilização – serve apenas para fortalecer o status quo, em vez de dar apoio a respostas transformadoras e equitativas para as mudanças climáticas,” escreveu Keele no Climatic Change. 

Defensores das novas empresas questionam as premissas dessas críticas, a de que o crescimento do setor se dá às custas da pesquisa tradicional. “Nós não substituímos a pesquisa básica que instituições e cientistas do governo fazem,” assegura Mazzacurati. “Somos usuários dos dados que produzem, e ajudamos a levá-los ao mercado.” Na verdade, os ataques do governo Trump à ciência climática dos EUA – incluindo a proposta de corte de US$ 1 bilhão no orçamento da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) – são péssimas notícias para o setor. “Estamos muito preocupados com esses cortes no orçamento,” admite Mazzacurati.

Ainda assim, Sorkin reconhece que é pouco provável que a abordagem do setor privado atenda às necessidades das populações mais vulneráveis do planeta. “Não vemos países ou comunidades subdesenvolvidos como geradores de lucro para nós”, diz. De acordo com ele, projetos para esse tipo de público só fariam sentido, financeiramente, com governos ou ONGs como parceiros.

O fato é que décadas de alertas de cientistas do clima ainda não produziram as ações necessárias para evitar catástrofes. 

Buontempo afirma que empresas que reagem em defesa de seus interesses muito particulares são uma faceta de uma mudança desesperadamente necessária para atividades que gerem menos carbono, aliada a estratégias para lidar com os impactos em que já estamos enredados. “Para mim, o envolvimento do setor privado é inevitável”, afirma. “Não há acadêmicos suficientes trabalhando com clima para desenvolver todos os serviços de que a sociedade precisa atualmente.”

Se é este o caso ou não, a dúvida permanece: em última análise, quem vai se beneficiar desse envolvimento, a sociedade como um todo ou apenas os ricos e bem relacionados?

Geoff Dembicki é jornalista e escritor especializado em questões climáticas. Este artigo foi publicado originalmente em Ensia. Reproduzido sob licença Creative Commons  Attribution-NoDerivs 3.0 Unported license. O original em inglês pode ser lido aqui.

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