Protetor solar: não é tão simples assim

Artigo
20 jul 2019
Mulher exposta aos raios solares

 

Quem não gosta de tomar um pouco de sol? A não ser que a pessoa tenha alguma doença que a torne muito vulnerável à luz, expor-se ao sol com moderação é uma das atividades mais gostosas e saudáveis. Mas também não restam dúvidas de que o excesso de exposição ao sol causa problemas. Essas observações fazem parte do senso-comum e, no entanto, muitas vezes as diretrizes que alcançam as pessoas diariamente não condizem com isso. 

Por exemplo, a Academia Americana de Dermatologia continua a encorajar a proteção diária contra os raios solares na faixa do ultravioleta (UV), que é invisível ao olho humano, manifestando tolerância zero à exposição solar. Infelizmente, a maioria das sociedades profissionais de saúde segue diretrizes semelhantes. As campanhas de fotoproteção são mais ou menos tolerantes com níveis moderados de exposição ao sol, mas são, invariavelmente, focadas nos efeitos negativos da radiação solar.  

Consequentemente, essas campanhas sempre estimulam o uso de filtros solares sem restrição. Pouco ou nada se comenta a respeito dos efeitos saudáveis da exposição ao sol, nem se menciona o fato que filtros solares não protegem totalmente dos efeitos da radiação solar.

Comecemos analisando as atuais estratégias de fotoproteção. Estudos epidemiológicos têm mostrado que as taxas mundiais de incidência de câncer de pele não têm diminuído, pelo contrário, alcançam níveis epidêmicos. E por que isso tem acontecido? 

Embora muitos digam que a razão é que as pessoas não estão usando ou não saibam usar filtros solares, muitos pesquisadores concluem que a resposta, em grande parte, está na ausência de embasamento científico das atuais diretrizes de fotoproteção, que além de ineficazes, ignoram o balanço positivo da exposição equilibrada ao sol, sem proteção. 

Tem algo que os filtros solares atuais fazem bem: eles evitam que as pessoas fiquem vermelhas durante a exposição solar. Porém, não evitam que as pessoas fiquem bronzeadas. Já se perguntou o porquê? 

Primeiro, é necessário explicar que o eritema, ou vermelhidão da pele, decorre principalmente dos efeitos dos raios UVB, que causam danos diretos no DNA das células, iniciando processos inflamatórios agudos, que deixam as pessoas vermelhas. A vermelhidão é uma proteção, pois sinaliza o excesso de exposição solar e a necessidade premente da pessoa sair do sol. 

A melanina protege especialmente contra os efeitos dessa radiação UVB, de tal forma que, quanto mais melanina houver na pele, menor a vermelhidão. As pessoas que têm mais melanina na pele podem se expor mais ao sol, sem sentir seus efeitos agudos. Isso também não quer dizer que estarão imunes aos efeitos crônicos da exposição, mas esse tema fica para uma outra ocasião. 

A pigmentação da pele também é uma proteção, decorrente de respostas protetivas contra o excesso de exposição ao sol.  Os filtros solares atuais evitam que os raios solares UV (UVB e UVA, que somam 5% da fluência solar) penetrem na pele, mas não fazem nada contra os raios solares na faixa do visível (45% da fluência solar) e do infravermelho (50% da fluência solar). 

Sob exposição solar, a pele “protegida” pelos filtros solares atuais sofre os efeitos do visível e do infravermelho, que não são desprezíveis. 

Nosso grupo de pesquisa tem mostrado que a luz visível (com comprimento de onda na faixa de 400-750 nm) possui efeitos similares aos do UVA, induzindo a formação de espécies oxidantes – moléculas ávidas por elétrons e muito reativas  – que causam muitos danos na pele, incluindo lesões no DNA potencialmente mutagênicas. Como consequência, a pele, mesmo exposta ao sol filtrado pelos filtros atuais, continua a preparar defesas contra os efeitos da luz visível, sendo, uma delas, a indução de pigmentação: o bronzeado. 

O infravermelho também contribui para o efeito do sol na pele, pois atua principalmente no aumento da temperatura local, adicionando reatividade às espécies oxidantes. 

Agora imagine uma pessoa que fica na praia por horas, usando de forma rigorosa os filtros solares disponíveis atualmente. 

São bilhões de bilhões de fótons atingindo a pele por segundo e por centímetro quadrado de área exposta. Cerca de 5% (UV) destes fótons são filtrados ou refletidos. Os outros penetram livremente na pele. Essas pessoas não ficam vermelhas (o UVB não entra) e até podem pegar um “belo bronzeado”. No entanto, não são informadas que esse bronzeado vem em resposta a danos na pele, inclusive nas camadas mais profundas da derme. 

Então, a razão pela qual os filtros solares disponíveis atualmente não deixam você ficar vermelho, mas permitem o bronzeamento, é que atuam somente numa faixa pequena do espectro luminoso do sol. Será que isso ajuda a explicar os níveis atuais de câncer de pele? Muitos cientistas estão trabalhando para responder a esta pergunta. 

Há diversos outros problemas com os atuais filtros solares. De maneira contraproducente, muitos deles apresentam moléculas orgânicas tóxicas à pele, como a oxibenzona. A FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos (agencia federal responsável pela regulação segurança de alimentos e fármacos nos EUA) está pedindo mais dados de segurança sobre 12 ingredientes encontrados em filtros solares: ensulizol, octisalato, homosalato, octocrileno, octinoxato, oxibenzona, avobenzona, cinoxato, dioxibenzona, meradimato, padimato O, sulisobenzona.

Os efeitos negativos dos filtros solares incluem danos severos ao meio ambiente. Estima-se que cerca de 14 mil toneladas de filtros solares entrem nos oceanos anualmente, via atividades recreativas de banhistas e efluentes de esgoto doméstico. 

Estudos recentes têm mostrado que compostos orgânicos presentes em filtros solares estão implicados no branqueamento e morte dos corais. Países como Havaí e Austrália, com suas famosas barreiras de corais, baniram a oxibenzona das formulações de produtos de proteção solar. 

Além disso, evitar totalmente o sol tem consequências nefastas para a pele e para as pessoas, pois a radiação solar tem muitos efeitos benéficos já comprovados. 

Aproximadamente 90% da vitamina D utilizada por nós deve ser gerada através da ação dos raios UVB na pele, onde ocorre a síntese de vitamina D3. A vitamina D é um importante regulador dos níveis de cálcio e fósforo no organismo, para a saúde dos ossos e músculos, fortalecendo o sistema imune e auxiliando a evitar diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares, depressão, etc. O problema é saber quanto sol cada pessoa tem que tomar para produzir suficiente vitamina D. 

São muitos fatores envolvidos e a ciência não tem respostas definitivas neste assunto. A exposição deve ser maior para pessoas com mais melanina na pele ou que usem filtros solares (porque menos UVB alcança a pele). Fatores que afetam o nível de UVB no ambiente, como período do dia e do ano, latitude e longitude também influenciam. Estudos populacionais mostram que pessoas com pele clara, numa região temperada, devem expor-se de 10 a 20 minutos, 3 vezes por semana, de corpo inteiro. Quem tem esse costume atualmente? Quase ninguém! 

As pessoas tendem a ficar cada vez mais em ambientes fechados e quando saem, vão “protegidas” com os filtros solares. Esses hábitos têm promovido um efeito colateral indigesto: vivemos uma epidemia de pessoas com deficiência em vitamina D. Estudos estimam que, nos EUA, os gastos médicos com doenças relacionadas à deficiência de vitamina D superam em cinco vezes àqueles causados pelo câncer de pele. 

Os benefícios da exposição solar não se limitam à produção de vitamina D. Estudos recentes apontam para outros possíveis efeitos positivos, embora mais resultados sejam necessários para comprovar as observações e os mecanismos.   

Células da pele, como os queratinócitos e melanócitos, detectam a presença da luz solar por um conjunto de proteínas chamadas opsinas, que são conhecidas por captar a luz em órgãos fotorreceptores, como os nossos olhos. Essa percepção da luz solar na pele desencadeia diversas respostas fisiológicas, como a produção de melanina, e, até mesmo, regulam a atividade de células de defesa do nosso sistema imunológico. 

Além disso, o nosso relógio biológico é diariamente modulado e calibrado pela exposição solar. Um relógio biológico desarranjado tem efeitos negativos sobre a saúde. A obesidade e as doenças cardiovasculares também podem ser facilitadas pela baixa exposição ao sol. Estudos do grupo do Prof. Richard Weller, da Universidade de Edimburgo, sugerem que 20 minutos de exposição ao sol diminui a pressão arterial por horas. A radiação solar ativa a produção do óxido nítrico, um potente vasodilatador, diminuindo a pressão arterial. 

Para Weller, isso talvez explique a maior incidência de doenças cardiovasculares em latitudes mais altas do que nos trópicos. Exposição à luz visível parece estimular uma opsina que modula a atividade de células do tecido adiposo branco subcutâneo, o principal depósito de gordura em humanos. Além disso, um estudo conduzido pelo Prof. Pelle Lindqvist do Instituto Karolinska, na Suécia, realizado entre 1990 e 2010, com 30.000 mulheres, indicou que a expectativa de vida das mulheres que se expunham mais ao sol foi, em média, dois anos maior do que àquelas que se privavam da luz solar. E isso aconteceu devido aos riscos com problemas cardíacos, doenças autoimunes e diabetes das mulheres que se privavam da exposição ao sol. 

 

 

Paulo Newton Tonolli é biológo e doutor em Bioquímica pelo Instituto de Química da USP

Mauricio S. Baptista é farmacêutico, mestre em Bioquímica, doutor em Química e professor titular do Departamento de Bioquímica do Instituto de Quimica da USP  

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