Amor, paixão e ciência, tudo a ver

Artigo
12 jun 2019
Drosophila melanogaster
Algumas moscas parecem amar com o intestino. Parent Géry/CC-BY_SA 4.0

Modelos animais podem não ser lá muito românticos, mas o estudo do amor tem de começar de algum modo – e uma proposta para fazer testes duplo-cegos com o acasalamento de seres humanos dificilmente passaria pelo comitê de ética (embora possa render um reality-show interessante). Então, animais: em 2011, Sharon e colaboradores, da Universidade de Tel-Aviv, publicaram um trabalho ligando digestão e coração. Parece que, ao menos para moscas, a escolha do parceiro é intermediada pelas bactérias do intestino.

Moscas da espécie Drosophila melanogaster, aquela mosquinha de fruta comum, muito usada como modelo em experimentos biológicos, foram divididas em dois grupos: um foi alimentado com uma dieta a base de açúcar, e o outro, com amido. A microbiota – os micro-organismos que vivem no aparelho digestório – é definida pela dieta. Assim, os grupos, após um ano, exibiam microbiotas completamente diferentes.

Quando os pesquisadores testaram a preferências sexuais das mosquinhas, viram que elas escolhiam de acordo com a dieta. Moscas de açúcar só queriam saber de moscas de açúcar. Uma boa dose de antibiótico acabava com essa seletividade, sugerindo que a escolha era provocada mesmo pela composição da microbiota intestinal. Para confirmar essa suspeita, os cientistas reintroduziram nos insetos as microbiotas colhidas antes do tratamento com antibiótico, e a seletividade sexual retornou.

Esse foi apenas um primeiro estudo mostrando que pode haver uma correlação entre microbiota e atração sexual (em moscas). Os autores sugerem que o efeito pode ser mediado pela liberação de feromônios. O estudo foi replicado por alguns grupos, mas não por outros. De qualquer modo, o resultado traz um questionamento interessante: será que as bactérias do intestino têm alguma coisa a ver com atração sexual?

Algo muito importante antes de seguir: não dá pra dizer, de cara, que resultados de estudos em animais são relevantes para fenômenos análogos em seres humanos. Esse tipo de relação precisa ser confirmada por estudos específicos.

Mamíferos

Dito isso, um trabalho publicado em 2016 na revista Microbiome and behaviour sugere, ainda que de forma indireta, que bactérias podem contribuir para deixar exemplares de Homo sapiens mais atraentes. Ao alimentar camundongos com uma bactéria isolada de leite materno humano, os autores observaram que a pelagem dos animais ficava mais lustrosa, e o nível de testosterona dos machos aumentava, o que também causava um aumento nos testículos, algo que os bichinhos se orgulhavam muito de mostrar.

Nas fêmeas, o probiótico causava uma maior liberação de oxitocina. Esse hormônio ficou conhecido como “hormônio do amor” porque, entre outras inúmeras funções, é responsável por aumentar a sociabilidade. Outra possível influência interessante das bactérias em nossa capacidade de nos relacionarmos é que camundongos “germ-free”, ou seja, sem micróbios e criados em um ambiente protegido, costumam ser antissociais, comportamento que é revertido com a colonização por bactérias.

A oxitocina também influencia o relacionamento da mãe com os filhotes, e o aleitamento. Assim, parece que as bactérias não têm só a capacidade de nos tornar mais interessantes, mas também garantem nosso sucesso reprodutivo. A vantagem para elas? A estratégia aumenta a probabilidade de que serão produzidos mais “hospedeiros” para as futuras gerações de bactérias.

Um beijo apaixonado também libera oxitocina. E sabe mais o que acontece quando nos beijamos? Trocamos bactérias! E como isso pode ser bom? Provavelmente porque ao trocar bactérias com o parceiro, você está entrando em contato com microrganismos diferentes dos seus, e vai gerar uma maior diversidade de anticorpos para sua cria.

Existe, portanto, uma provável razão evolutiva para o beijo ser gostoso. Que ninguém diga que falta romantismo na natureza!

Humanos, finalmente

No famoso experimento de Claus Wedekind, em 1995, homens usaram a mesma camiseta por dois dias seguidos, e mulheres escolheram “parceiros” pelo cheiro do suor, impregnado na roupa. O autor percebeu que as moças preferiam rapazes que tinham um perfil genético diferente do delas. Um grupo de pesquisadores brasileiros replicou o estudo dez anos mais tarde, obtendo o mesmo resultado. Considerando que o suor em si não tem odor, o cheiro característico é determinado pelas bactérias! Olha aí elas de novo, dando palpite em nossas escolhas sexuais.

Mas não são só elas! Outras peculiaridades biológicas influenciam como escolhemos nossos parceiros. Já se perguntou por que, historicamente, mulheres heterossexuais tendem a preferir homens barbados (tem pelo menos dois papers apontando isso)? Talvez seja pelo mesmo motivo que pavões têm caudas coloridas. Nem a barba nem a cauda do pavão parecem grande vantagem, certo?

Mas ambas denotam maior produção de testosterona, e machos mais agressivos e fortes. Isso pode não parecer vantagem hoje em dia, mas em tempos em que o macho precisava defender a fêmea e a cria, essa característica era interessante. No caso dos pavões, as aves com cauda maior produzem, inclusive, filhotes maiores.

Dancing Days

E finalmente, não adianta o macho pretensioso se pavonear por aí com sua cauda colorida – ou a cara barbada, ou os testículos aumentados – se não souber dançar!

Várias espécies de aves apresentam rituais elaborados de corte e acasalamento, e entre as aves do paraíso, os machos tentam impressionar as fêmeas com um belo sapateado. Eles se reúnem em grupos, desde jovens, para praticar as artes da dança. Mas para as moças que se animaram com a ideia, devo dizer que eles não fazem muito mais da vida, elas é que cuidam da cria e constroem o ninho, enquanto os machos treinam seu balé.

E em que isso pode ajudar o(a) leitor(a) que busca um(a) namorado(a)? Não em muita coisa. Os estudos com microbiota são novos e inconclusivos, e gente não é mosca, camundongo ou pássaro. Tendo dito isso, barba bem cuidada e dança de salão não fazem mal a ninguém.

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, coordenadora nacional do festival de divulgação científica Pint of Science para o Brasil e presidente do Instituto Questão de Ciência

REFERÊNCIAS

Sharon, Gil, Daniel Segal, John M. Ringo, Abraham Hefetz, Ilana Zilber-Rosenberg, and Eugene Rosenberg. “Commensal Bacteria Play a Role in Mating Preference of Drosophila Melanogaster.” Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 107, no. 46 (November 16, 2010): 20051–56.

Erdman, S. E., & Poutahidis, T. (2016). Microbes and Oxytocin. Gut Microbiome and Behavior, 91–126. doi:10.1016/bs.irn.2016.07.004

 Wedekind, C.; et al. (1995). "MHC-dependent preferences in humans". Proceedings of the Royal Society of London. 260(1359): 245–49. doi:10.1098/rspb.1995.0087

Santos, PS; Schinemann, JA; Gabardo, J; Bicalho Mda, G. (Apr 2005). "New evidence that the MHC influences odor perception in humans: a study with 58 Southern Brazilian students". Horm Behav47 (4): 384–8. doi:10.1016/j.yhbeh.2004.11.005

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